Acidente com barco deixa brasileiros à deriva na Polinésia Francesa

Os irmãos Lucas Pereira e Celso Pereira Neto fizeram um relato pavoroso no Instagram sobre os momentos de tensão

atualizado 03/07/2019 14:01

A embarcação de dois brasileiros que participam de uma expedição em alto-mar desde março de 2018 sofreu um acidente e deixou os tripulantes à deriva na Polinésia Francesa. Os irmãos Celso Pereira Neto e Lucas Pereira fizeram um relato no Instagram sobre toda a situação que ocorreu no veleiro Kaootsh.

“Ainda me encontro molhado, com roupa de mergulho, exausto, sentado no chão da cozinha. Após relutar muito em escrever esse texto, segue o acontecido… Tudo correio bem, o dia começava a amanhecer. Estávamos a umas 10 milhas do nosso destino e, se tudo corresse bem, dentro de duas horas estaríamos ancorados. Eu ainda estava deitado na cama quando de repente, sem qualquer vestígio de nada ao redor, um tranco muito forte no barco, acompanhado de barulhos que nunca tínhamos escutado! Ali, começava nosso pesadelo“, diz o texto.

Segundo Celso, tudo ocorreu em uma fração de segundos. “Sem entendermos completamente nada, estávamos eu e o Neto lá fora, buscando o motivo e os danos causados pelo forte impacto! Chuva, vento, frio… Logo de início, percebemos que um estai (cabo de aço que mantém o mastro em pé) havia estourado! Rapidamente, fechamos as velas para aliviar os esforços no sistema, mas o estai era apenas um dos problemas causados pelo acidente.. ‘Estamos sem leme’, Neto gritou. Eu, sem entender (não sei se pelo ventou ou porque realmente não queria acreditar naquilo que me dizia), virei o timão a fim de ter certeza de que estávamos sem controle do Katoosh”, escreveu.

“Infelizmente, minha ação veio a confirmar o que Neto havia me dito: seja lá no que tenhamos batido, o acidente arrancou nosso leme! Sem pensar, coloquei uma máscara e pulei na água a fim de examinar a situação e checar se, pelo estrago, estava entrando água. Negativo, ufa! Nosso leme foi completamente arrancado, porém, o casco continua intacto. E agora? Essa é uma das piores situações que podem acontecer em um veleiro! Ficar sem leme significa ficar à deriva, sem controle do barco, literalmente sendo empurrados para onde o vento quiser nos empurrar e, para piorar ainda mais, os ventos nos jogavam de encontro à ilha que estávamos indo”, continua o relato.

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Os irmãos, então, calcularam o tempo que teriam para evitar que o barco batesse nas pedras: 5 horas. “Parecia mentira o que estava acontecendo… ‘Vamo, vamo, vamo, vamo, bora instalar o leme reserva.’ Nessas horas, a adrenalina sobe tanto que não se sente frio, fome, nada! Parece que temos força para levantar um carro, mas nada disso foi o suficiente para conseguirmos instalar nosso leme reserva e, depois de 3 horas tentando, desistimos dessa opção”, explicou Celso.

“As condições de vento e mar estão assustadoramente ruins, impossibilitando a instalação do mesmo. Confesso que nunca havia visto ventos tão fortes como os que estão soprando agora, com isso o mar cresceu muito, e as ondas estão fazendo o Katoosh parecer um barco de brinquedo. Quanto lá fora, não dá para saber se estamos sendo molhados pela água da chuva ou pela do mar, que sobe com o vento. O cenário fica esbranquiçado, tenebroso, é difícil até abrir o olho”, segue Celso no relato.

Os irmãos, então, tomam uma decisão para tentar se afastar da ilha e evitar bater nas pedras. “Ligamos o motor em marcha lenta, por conta da tendência do barco em sempre ficar de lado ao vento, conseguimos um segmento e lentamente estamos conseguindo desviar da ilha!”, disse. Celso, então, decidi subir no mastro para saber o que aconteceu com o estai. “O cabo de aço rompeu na solda e não há nada que possamos fazer agora! Improvisamos um reforço, tomara que aguente…”, escreveu.

O tempo piorou na região e, segundo o relato, não há mais nada que possa ser feito para controlar a situação. “Ficaremos à deriva tentando desviar das muitas ilhas que tem no caminho… Se tudo der certo, conseguiremos nos manter bem até sexta, colocaremos nosso leme reserva e seguiremos para o lugar mais próximo, onde poderemos tirar o barco da água e resolver o problema. Se as coisas não correrem tão bem, nosso bote já está abastecido, balsa salva-vidas no jeito, nosso saco de abandono em mãos com água, comida, telefone satelital e todos os nosso pertenes mais importantes. É difícil dizer, mas estamos preparados para abandonar o barco e salvar o que temos de mais precioso: nossas vidas””, termina o relato.

O pai dos irmãos, Celso Pereira Junior, disse, ao G1, que mantém contato com os filhos e monitora a situação. Antes do acidente, o plano era seguir para a Nova Zelândia.

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