Tesouro arqueológico do tempo da escravidão é descoberto em casarão de Ouro Preto. Vídeo

Estudos sobre o mural começaram em 2019; ambiente escuro e sem energia elétrica até os anos 1980 ajudou a preservar os desenhos

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

Leonardo Klink/ Divulgação
Sobrado colonial de Ouro Preto escondia pinturas africanas inéditas no mundo
1 de 1 Sobrado colonial de Ouro Preto escondia pinturas africanas inéditas no mundo - Foto: Leonardo Klink/ Divulgação

Belo Horizonte – No coração da antiga Vila Rica — hoje Ouro Preto, na região Central de Minas Gerais —, o que parecia ser apenas mais uma reforma em um sobrado de 260 anos revelou um tesouro arqueológico.

No porão do imóvel, que fica na rua Conde de Bobadela, antiga rua Direita, foram encontrados grafismos e pinturas ligados à cultura africana e ao período da escravidão no Brasil, que durou mais de 350 anos.

Os desenhos mostram cenas do cotidiano e símbolos de resistência, mas por muito tempo passaram despercebidos por quem viveu na casa colonial. Em 2017, com o início das obras no cômodo de difícil acesso — com pé-direito muito baixo, de cerca de 1,50 metro, e sem instalação elétrica, onde viviam pessoas submetidas ao regime de escravidão —, isso mudou.

Segundo um especialista, a preservação dos desenhos até hoje deve-se às próprias condições do local: um ambiente escuro, de difícil acesso e que só teve energia elétrica na década de 1980.

Tesouro arqueológico do tempo da escravidão é descoberto em casarão de Ouro Preto - destaque galeria
3 imagens
Símbolos circulares e marcas geométricas revelados durante reforma em casarão histórico de Ouro Preto.
Detalhe de gravura que lembra uma ave em casarão em Ouro Preto
Grafismos e inscrições encontrados nas paredes do porão da casa em Ouro Preto são iluminados durante análise do sítio arqueológico
1 de 3

Grafismos e inscrições encontrados nas paredes do porão da casa em Ouro Preto são iluminados durante análise do sítio arqueológico

Leonardo Klink/ Divulgação
Símbolos circulares e marcas geométricas revelados durante reforma em casarão histórico de Ouro Preto.
2 de 3

Símbolos circulares e marcas geométricas revelados durante reforma em casarão histórico de Ouro Preto.

Leonardo Klink/ Divulgação
Detalhe de gravura que lembra uma ave em casarão em Ouro Preto
3 de 3

Detalhe de gravura que lembra uma ave em casarão em Ouro Preto

Leonardo Klink/ Divulgação

Agora, o processo de reconhecimento desse patrimônio alcançou um novo passo. Um parecer técnico, assinado em 23 de março de 2026, oficializou a recomendação para a homologação do cadastro do local como o sítio arqueológico “Inscrições Afrodiaspóricas” no Sistema Integrado de Conhecimento e Gestão (SICG) do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Para Angelo Oswaldo, prefeito de Ouro Preto, uma das primeiras pessoas a quem o proprietário mostrou as imagens, a ”descoberta” é uma forma de reler a história da cidade. “Faz tempo que Philipe Versiani Passos foi alertado pelos trabalhadores que restauravam a casa sobre a existência de desenhos em uma parede do porão. Ele logo se dedicou a proteger e pesquisar o achado”, disse.

‘Raro’ 

Leonardo Klink, historiador e arqueólogo, é um dos pesquisadores debruçados sobre essa história. Ele estuda a casa em um projeto de doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e destaca que a diversidade de traços, técnicas e materiais torna o conjunto encontrado no porão algo raro.

“Até o momento, a iconografia dessa parede em Ouro Preto pode ser considerada única. A riqueza de detalhes, as diferentes técnicas e materiais empregados, a possibilidade de alguns registros remeterem a experiências ligadas ao continente africano e não necessariamente ao Brasil, além da diversidade de traços que sugere um processo colaborativo, tornam esse conjunto bastante singular. Soma-se a isso a peculiaridade da própria argamassa, que parece ter sido aplicada especificamente para a realização desses registros”, disse.

Segundo o especialista, ao entrevistar antigas moradoras, descobriu-se que elas já conheciam os desenhos, mas acreditavam se tratar apenas de marcas feitas por familiares. “Elas relataram que já conheciam os desenhos, mas nunca deram muita atenção”, disse.

O local onde os desenhos ficam, no subsolo da casa, não tinha energia elétrica até os anos 1980 e era muito escuro, apertado e parcialmente coberto por terra. Essas condições ajudaram a preservar os vestígios por séculos. “A própria dificuldade de acesso ao local parece ter sido um dos fatores que possibilitaram a sobrevivência desses registros”, acrescentou Klink.

Complexidade

Os pesquisadores identificaram cerca de 26 desenhos feitos de formas diferentes, como riscos gravados na parede, grafites com pigmentos pretos e avermelhados e técnicas misturadas. Muitos só puderam ser vistos com luzes especiais e tratamento digital, por causa do desgaste ao longo dos séculos.

“Até agora, não foi encontrado outro caso semelhante no mundo com esse conjunto de características. Existem pesquisas sobre gravuras próximas a essas em abrigos rochosos de Minas, mas, no contexto urbano atual, esse painel permanece sem paralelo. Ainda assim, é possível que outros exemplares estejam ocultos em casas antigas da cidade e ainda não tenham sido identificados”, afirmou.

Felino, aves e embarcação

Segundo o pesquisador, entre os desenhos identificados há atribuições a animais como um felino que pode lembrar um leopardo, guepardo ou mesmo uma onça, aves, embarcação, figuras geométricas, elementos de vegetação e até uma possível joaninha. Entre todos os registros, três despertam particularmente a curiosidade.

Grafismos e pinturas encontrados no porão de um sobrado colonial em Ouro Preto
“Um deles mostra um grupo de pessoas em um pátio cercado por muros e torres, com duas figuras utilizando um pilão. Consegui localizar correspondências para esse tipo de construção em regiões do interior da África Ocidental. Há também uma espécie de máscara em grafite com fibras inseridas, bastante semelhante a tradições da África Centro-Ocidental”, disse.

O terceiro desenho é o que mais intriga: ele foi feito com pigmento escuro e parece misturar características humanas e animais, com chifres e uma boca grande com dentes pontiagudos.

“Até mesmo a incisão da embarcação abre diferentes possibilidades de interpretação. Por um lado, ela pode aludir a um barco de pesca ou deslocamento em regiões africanas. Por outro, a presença de uma bandeira sobre o mastro é um elemento encontrado em navios europeus dos séculos XVIII e XIX. Assim, não se pode descartar a hipótese de que a cena figure a própria travessia de uma dessas pessoas até a casa em Vila Rica“, disse.

Desenhos e inscrições de traços circulares e geométricos revelados sob camadas da parede do casarão histórico

O mistério 

Ainda não é possível saber exatamente quem criou as imagens ou quando elas foram feitas. A hipótese é que os autores podem ter vivido em períodos diferentes, entre o início da segunda metade do século XVIII e as primeiras décadas do XIX, já que o sobrado teve vários proprietários.

 

“O que se sabe é que dezenas de africanos e seus descendentes viveram naquele espaço enquanto pessoas escravizadas, desempenhando tarefas domésticas, trabalhos pesados e diferentes atividades do cotidiano. Mas, para além disso, eram sujeitos que interagiam, criavam vínculos, aspiravam, sonhavam e buscavam formas de ascensão social”, contou Klink, que também reflete sobre a criatividade para lidar com experiências cotidianas de saudade, luto e tristeza.

Para o século XVIII, o pesquisador observa uma chegada expressiva de indivíduos trazidos à força de portos e feitorias da África Ocidental, classificados pelas redes comerciais sob designações como “mina”, “cabo verde”, “cobu”, “calabar” e “coura”.

“Já na virada do século XVIII para o XIX, a vila passa a contar com uma maioria de africanos embarcados na porção Centro-Ocidental do continente, identificados na documentação mineira como “angola”, “cabinda”, “congo”, “loango” e “benguela””, disse.

No entanto, essas nomenclaturas eram categorias amplas, homogeneizantes e muitas vezes pejorativas, “que não correspondiam necessariamente às origens, identidades e territórios de pertencimento dessas populações”, completou Klink.

Reler Ouro Preto

Há ainda um outro ponto importante: a necessidade de questionar os usos atribuídos aos antigos porões coloniais.  “A literatura, a historiografia e até o turismo frequentemente os classificam automaticamente como senzalas urbanas. De fato, alguns relatos deixados por viajantes europeus mencionam esse tipo de utilização, mas os alojamentos de pessoas escravizadas também podiam ocupar lojas térreas, corredores, cozinhas e senzalas localizadas nos quintais”, disse Klink.

Como ainda não se sabe exatamente qual era a função do local, o pesquisador acredita que o espaço pode ter sido usado para deixar desenhos e símbolos com significados importantes para essas pessoas.

“O ambiente pode ser pensado como um lugar de exercício de autonomia, contestação, personalização e até de pequenas formas de poder e controle, ainda que sob as estreitas fronteiras impostas pelo sistema escravista e sob o risco constante de punição caso essas práticas fossem descobertas”, concluiu.

 

Gravura que lembra um felino pintado com manchas e patas alongadas em parede do casarão histórico de Ouro Preto.

Visitação

A casa ainda não está aberta para visitação e passa por adequações exigidas pelo Iphan para garantir a preservação do espaço. “O imóvel segue em processo de adequação junto ao Iphan. Foram estabelecidas exigências relacionadas ao controle de circulação, aos usos e às intervenções no espaço”, disse.

Segundo o especialista, o reconhecimento como sítio arqueológico deve ajudar na conservação e na futura abertura ao público. “A expectativa é que, assim que essas etapas forem concluídas e liberadas, a casa possa ser efetivamente preparada para receber visitantes e turistas”, completou.

O Iphan afirmou, por meio de nota, que o  sítio arqueológico ‘Inscrições Afrodiaspóricas’ constitui, até o momento, um bem de natureza singular e de fundamental importância para a história da diáspora africana em Minas Gerais e no Brasil.

“Considerado de relevância nacional, o local reúne valor informativo e memorial excepcional, preservando vestígios de modos de vida, práticas culturais, religiosidade e estratégias de resistência de pessoas submetidas à escravidão”, escreveu.

 

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comNotícias Gerais

Você quer ficar por dentro das notícias mais importantes e receber notificações em tempo real?