Prefeito de BH diz que não vai expulsar moradores de rua: “Vão ficar”
Em meio ao aumento dos moradores de rua na cidade, PBH inaugura espaço de acolhimento para migrantes no Centro e promete ampliar políticas
atualizado
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Belo Horizonte – Em meio ao aumento da população em situação de rua na cidade, o prefeito de Belo Horizonte, Álvaro Damião (União Brasil), afirmou que a solução para os migrantes — muitos vivendo em situação de extrema vulnerabilidade — “não é colocar ninguém dentro do ônibus e devolver para a cidade [de origem]”.
A declaração foi feita durante a inauguração da nova unidade de acolhimento temporário, que poderá chegar à capacidade de 120 pessoas atendidas e fica na Rua Espírito Santo, 904, no Centro da cidade.
Segundo a prefeitura, o espaço vai concentrar atendimento imediato, possibilidade de abrigo temporário e concessão de passagens para deslocamento ou retorno dessas pessoas para a cidade de origem ou para locais onde tenham vínculos familiares ou rede de apoio, mas só quando elas quiserem.
“A maioria é a mesma coisa: tentou a vida de alguma forma em Belo Horizonte, mas sentiu muita falta, e é normal sentir falta da família. E eles querem voltar para onde a família deles está, mas não têm mais condições financeiras de resolver esse problema de um dia para o outro. Então é isso que a prefeitura vai fazer. Não é colocar ninguém dentro do ônibus e devolver para a cidade, como muitos acham. A gente não vai fazer isso“, disse o prefeito.
Ao ser questionado sobre os migrantes que não querem voltar, Damião respondeu: “Vão ficar em Belo Horizonte. Os que não querem voltar, BH está de portas abertas, vão ficar em Belo Horizonte, serão muito bem tratados e cuidados aqui.”
“De Volta para Minha Terra”
Desde o ano passado, o projeto “De Volta para Minha Terra” está em discussão na Câmara Municipal. O texto inicial foi barrado na Comissão de Direitos Humanos, sob o entendimento de que ele poderia ter um caráter higienista, ou seja, retirar pessoas em situação de rua da cidade sem resolver os problemas sociais por trás da vulnerabilidade.
Em fevereiro, a Comissão de Legislação e Justiça aprovou mudanças para garantir que o retorno seja voluntário, sem pressão ou imposição. O projeto ainda será analisado por outras comissões antes da votação final.
“O problema é morar na rua. E não é um problema de prefeitura. Isso é um problema social. As pessoas perderam suas casas, perderam famílias, perderam vínculos e foram para as ruas da cidade. Não é em Belo Horizonte, isso é no Brasil e no mundo inteiro. Só que aqui a gente tem um cuidado com essas pessoas”, disse o prefeito Álvaro Damião.
Como vai funcionar
Migrantes que precisarem de pernoite ou acolhimento temporário poderão ficar na nova unidade, na Rua Espírito Santo. Ela vai oferecer estadia e acompanhamento para adultos e famílias por períodos de 1 a 30 dias, até a definição da situação ou a viabilização da passagem.
Inicialmente, serão oferecidas oito vagas, com previsão de ampliação gradual até 120 pessoas acolhidas.
“Hoje está com oito vagas e o prédio está em obras. Ainda vai chegar a 120 vagas, conseguindo dar esse giro de acolher as pessoas e retornar à cidade de origem, com trabalho social feito aqui, desde recuperação de vínculos e contato com as famílias e com quem pode os receber de forma mais adequada na cidade de origem”, afirmou André Reis. “Até o final do ano a gente espera inaugurar esse prédio inteiro”, acrescentou.
Quem decide ficar após o prazo é encaminhado para unidades de acolhimento de acesso mais permanente, como o Abrigo São Paulo (bairro 1º de Maio, na região Norte) e o Abrigo Tia Branca (bairro Floresta, na região Leste). A prefeitura está reestruturando programas de formação para o emprego e inserindo essas pessoas em iniciativas de acesso ao trabalho, para promover a autonomia dos indivíduos.
“A gente vai inserir essas pessoas nos abrigos de acesso mais permanente, nos programas de acesso ao emprego, na bolsa-moradia e, assim, trabalhar a autonomia do indivíduo”, acrescentou André.
Desafio
Edson da Costa Severina, de 39 anos, veio com a esposa, Daiane Cardoso, de Anápolis (ES), para Belo Horizonte e hoje vive nas ruas devido à lotação dos abrigos.
“Chegamos no dia 27. Então, há oito dias nós estamos aí na rua, dormindo na rua, passando fome e frio”, contou Edson.
Segundo ele, o casal veio atraído por uma proposta de trabalho, mas teve o celular roubado logo após chegar à rodoviária, no Centro da cidade. Contudo, tentou ir para o abrigo São Paulo, mas ele estava cheio. “Não havia vaga para mulheres no local”, acrescentou. Agora, eles tentam uma passagem para Itaúnas (ES).
Segundo a prefeitura, a maior demanda por vagas é de homens, que representam 85% dos atendimentos. As principais origens são Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador.
População em situação de rua cresce
A população em situação de rua em Belo Horizonte quase triplicou na última década e chegou a 5.344 pessoas, segundo o 4º Censo da População Adulta em Situação de Rua, realizado pela prefeitura em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais. (UFMG), divulgado em 2025
O levantamento foi realizado em outubro de 2022, com 300 pesquisadores nas nove regionais da capital. Em 1998, eram 916 pessoas em situação de rua. Em 2005, o número subiu para 1.164. Já em 2013, eram 1.827 pessoas.
A pesquisa mostra que a maioria é formada por homens (84%), com média de idade de 42,5 anos. As mulheres representam 16%, com média de 38,9 anos. Entre os entrevistados, 35% passaram a viver nas ruas depois do início da pandemia da Covid-19.
Entre os principais motivos apontados para viver nas ruas estão desemprego, separação familiar e conflitos. Mulheres também relataram violência doméstica e perda de moradia causada por desastres naturais.
