Orelhão “renasce” em BH com água gelada e micro-ondas grátis
A partir de terça-feira (10/11), BH terá pontos gratuitos de água e micro-ondas inspirados no design dos antigos orelhões

Belo Horizonte – Os orelhões já foram parte do dia-dia, mas hoje os poucos que restam nas ruas das cidades brasileiras são quase “peças de museu”. Dois anos após a desativação do último telefone público da capital mineira, porém, dezenas de cúpulas com o design característico serão instaladas com novas utilidades a partir de terça-feira (10/11).
Idealizado pelo empreendedor André Souza, o projeto “ressuscita” o equipamento usado para fazer ligações importantes ou bater-papo enquanto tinha fichas. Desta vez, a proposta é oferecer água gelada e micro-ondas gratuitos para trabalhadores que passam o dia nas ruas.
Em Belo Horizonte, de acordo com André, a expectativa é de instalar de 60 e 80 desses equipamentos nos próximos seis meses, em locais estratégicos como postos de combustíveis 24 horas, dark kitchens (cozinhas de delivery), estacionamentos de atacarejos, universidades e grandes hospitais públicos.
“Nossa projeção de expansão para Minas Gerais é de 400 unidades, sendo 120 em Belo Horizonte, conforme o avanço do projeto e das parcerias regionais”, explicou.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesO piloto ficará no Posto Rede Beija-Flor, na Avenida do Cabral, 299, Átila de Paiva, na região do Barreiro.
Para isso, foi necessário adaptar a estrutura original, criada pela arquiteta Chu Ming Silveira em 1971. A antiga estrutura de fibra de vidro, pesada e de fabricação mais complexa, deu lugar a um material mais leve, resistente à radiação ultravioleta e com acabamento em pintura automotiva.
De acordo com André, o novo orelhão também conta com um sistema de refrigeração capaz de fornecer mais de 15 litros de água gelada por hora, com temperatura entre 10 °C e 14 °C. Já o micro-ondas é feito de aço inox, não tem prato giratório e foi projetado para até 200 utilizações por dia. O projeto brasileiro levou 18 meses de pesquisa e desenvolvimento. Cada unidade tem custo de R$ 30 mil. Os gastos com água, energia, limpeza e manutenção são estimados em R$ 2 mil por mês para cada equipamento.
De graça
Apesar disso, o usuário não vai pagar nada: o uso dos novos orelhões será gratuito. Para manter os equipamentos funcionando, o projeto aposta na venda de espaços publicitários, com anúncios na estrutura e divulgação de marcas por meio de mensagens sonoras. Entre os possíveis patrocinadores estão empresas de transporte e entregas.
André conta que que ideia não surgiu inicialmente de reinventar o orelhão, mas de resolver um problema real de quem trabalha nas ruas.
“Eu utilizo muito os aplicativos de transporte e, conversando com os motoristas, comecei a perceber uma realidade preocupante: o custo da alimentação nas ruas está cada vez mais alto. Muitos profissionais passam de 10 a 16 horas trabalhando, alguns deixam de fazer refeições para economizar, ou acabam comendo comida fria. Até para encher uma garrafinha, muitas vezes precisam pedir favores“, contou.
Foi aí que ele pensou em desenvolver um mobiliário urbano, uma espécie de totem, equipado com micro-ondas e um refrigerador industrial de água, para oferecer esses serviços gratuitamente. “[O formato do] o orelhão veio depois. Durante a busca por uma solução, pensei: se estamos criando algo para ajudar quem trabalha nas ruas, por que não trazer de volta o maior símbolo das ruas brasileiras, agora com uma nova função social?”, contou.
André conta que a escolha do Barreiro, em Belo Horizonte, como o primeiro ponto para a estreia do equipamento veio por ser uma por ser uma das regiões mais populosas da capital, com grande concentração de motoristas e entregadores de aplicativos.
“O bairro também reúne uma comunidade muito ativa de influenciadores ligados a esse universo. Queríamos que o orelhão renascesse onde realmente faz sentido, próximo de quem mais precisa dele”, disse.
O orelhão original
Levantamento da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) mostra que Belo Horizonte, que chegou a ter 15.186 orelhões em 2007, já não conta com nenhum telefone público em funcionamento. O último foi desativado em março de 2025. Em 2017, o número de aparelhos na capital mineira já havia caído para 9.816.
André diz ter um apreço pelo aparelho original e lembra que usou muito o telefone público para driblar as broncas dos pais.
“Passava horas fazendo ligações para empresas, realizando pesquisas, buscando informações e me comunicando, principalmente por DDD, para outras cidades e estados. Naquela época, eu ainda morava com meus pais, e as contas de telefone chegavam com três, quatro, às vezes cinco páginas! Meu pai conferia as ligações interurbanas e queria saber quem tinha feito cada uma delas. Então, para evitar aquelas contas enormes e os questionamentos em casa, eu preferia comprar minhas fichas telefônicas e fazer minhas ligações na rua”, contou.












