Mural gigante em Cataguases homenageia Eva Nil, estrela do cinema mudo
Artista português eterniza em mural uma das atrizes pioneiras do cinema brasileiro ligada ao município da Zona da Mata mineira

Belo Horizonte — Cataguases, na Zona da Mata mineira, está ganhando um novo marco cultural em homenagem à atriz Eva Nil, um dos principais nomes do cinema mudo brasileiro. A artista, que ajudou a projetar o município no cenário cultural nacional ao protagonizar filmes dirigidos pelo cineasta Humberto Mauro, está sendo retratada em um mural gigante assinado pelo artista português David Arranhado.
A obra começou a ser pintada no último dia 15 de junho e tem previsão de conclusão neste domingo (28/6). Instalado na lateral do Hotel Bela Vista, voltada para a Praça Simão José Silva, o mural mede 32 metros de altura por 20 metros de largura e chama a atenção de quem passa pelo local.
“Acredito que a arte pública tem a capacidade de aproximar as pessoas da própria história. Muitas vezes, personagens fundamentais acabam ficando restritos aos livros, aos arquivos ou à memória de poucas pessoas. Quando essa história ocupa uma fachada de grandes dimensões, ela passa a fazer parte do cotidiano da cidade”, afirma David.
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A homenagem é resultado de um intercâmbio cultural desenvolvido ao longo de quase uma década entre David Arranhado e a Vila Santana, idealizada por Andréia Bissoli, uma iniciativa da Fundação Bauminas.
“Quando surgiu a oportunidade de realizar um mural em grande escala no Hotel Bela Vista, entendemos que fazia sentido criar uma homenagem a uma personalidade que representasse essa memória cultural. O projeto nasceu dessa vontade de transformar a história da cidade em uma experiência acessível a todos, levando-a para o espaço público”, explica David.
Estrela esquecida
A escolha de Eva Nil ocorreu após uma pesquisa sobre personalidades que marcaram a história cultural de Cataguases.
Embora tenha alcançado reconhecimento nacional e internacional nas primeiras décadas do século XX, a trajetória de Eva Nil ainda é pouco conhecida pelo grande público. A proposta do mural é valorizar sua memória e reforçar a importância da atriz para a história do cinema brasileiro.
“O que mais me tocou foi perceber que, apesar de Eva Nil ter sido uma das primeiras grandes atrizes do cinema brasileiro, sua trajetória ainda é pouco conhecida fora de Cataguases. Ao mesmo tempo, dentro da cidade, sua presença permanece muito viva na memória coletiva”, afirma o artista.
Natural do Cairo, no Egito, Eva chegou ainda criança a Cataguases, onde seu pai, o fotógrafo italiano Pedro Comello, se estabeleceu. Foi na cidade que ela conheceu Humberto Mauro e passou a integrar o grupo pioneiro do cinema cataguasense, atuando em produções como Valadião, o Cratera (1925) e Na Primavera da Vida (1926). Posteriormente, estrelou Barro Humano (1929), consolidando seu nome entre as principais atrizes do cinema brasileiro da época.
Apesar do reconhecimento alcançado, Eva abandonou precocemente a carreira cinematográfica e passou a trabalhar no estúdio fotográfico da família. Grande parte dos filmes em que atuou se perdeu ao longo do tempo, mas sua trajetória permanece como um dos símbolos da história do cinema em Cataguases. E foi exatamente essa história que chamou a atenção do artista.
“Essa mistura entre brilho, delicadeza e ausência despertou muito a minha curiosidade como artista. Senti que sua imagem carregava uma força simbólica capaz de representar não apenas uma pessoa, mas também uma parte importante da história cultural de Cataguases”, afirma.
O projeto também destaca a tradição artística de Cataguases, reconhecida pelo patrimônio modernista e pela relevância na produção cultural do país. Além disso, a iniciativa está ligada a ações de revitalização urbana e de valorização do espaço público, aproximando arte, patrimônio e identidade local.
“Espero que esse mural desperte curiosidade. Que alguém olhe para a obra, pergunte quem foi Eva Nil e descubra a riqueza da história do cinema que nasceu em Cataguases. Mais do que homenagear uma atriz, a intenção é celebrar uma cidade que sempre teve a arte como parte da sua identidade e lembrar que preservar a memória também é uma forma de construir o futuro”, conclui o artista.


