Jovem salva avó e cachorros de soterramento em MG: “Senti nas costas”. Vídeo
Com 34 mortos em Juiz de Fora, bairro Nossa Senhora de Lourdes, na região Sudeste, foi um dos mais afetados
atualizado
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Juiz de Fora – A chuva que atingiu a Zona da Mata mineira nos últimos dias já deixou ao menos 40 mortos só em Juiz de Fora, a maioria vítima de soterramentos provocados por deslizamentos de terra em áreas de encosta. Na região Sudeste da cidade, o bairro Nossa Senhora de Lourdes foi um dos mais afetados e é lá que o estudante Davi Ghedim Vitalino, de 22 anos, viu a casa onde nasceu ser destruída em questão de minutos.
O imóvel, construído há cerca de 40 anos pelos avós, ficava na Rua Florentina Garcia. Davi morou ali durante a infância, mudou-se com os pais e, recentemente, havia retornado para fazer companhia à avó, de 63 anos, após a morte do avô, em novembro do ano passado.
Na noite do deslizamento, por volta das 22h30, ele estava em casa com ela vendo televisão enquanto a chuva ganhava intensidade. “A minha avó sempre teve muito medo de chuva, mesmo com muro de arrimo. Quando a chuva ficou mais forte, ela pediu para eu olhar na internet se tinha algum alerta. Aí, de repente, ela disse que a parede tinha vibrado. Eu achei que tinha chutado a mesa sem querer. Mas não era isso”, contou ele ao Metrópoles.
Poucos minutos depois, Davi percebeu da varanda que do cano do vizinho estava descendo muito barro. “Eu virei para ela e falei: ‘Vó, isso não é normal, está saindo muito barro, será que não tem risco de cair nada?’.” Segundo ele, o intervalo entre o primeiro tremor e o desabamento foi de cerca de 10 minutos.
“Foi tudo muito rápido. A gente só escutou um barulho muito alto, coisa estalando, galho quebrando. Minha avó largou o copo que estava na mão e correu. Eu não sei de onde tirei força, mas corri no quarto, peguei um cachorro no braço, depois o outro, e comecei a descer a escada. Quando eu estava descendo, a terra já veio atrás de mim. Eu senti nas costas. Mais dois segundos e a parede teria caído em cima de mim”, relatou Davi.
A casa foi praticamente engolida pelo deslizamento. Apenas a varanda permaneceu de pé, ainda sob risco. Vizinhos também tiveram imóveis destruídos, e um morador chegou a ficar preso em um cômodo, sendo resgatado pelo telhado. Uma cadela foi soterrada, mas conseguiu ser salva.
Davi conseguiu sair apenas com o celular, que estava no bolso, os dois cachorros e a avó, que entrou em estado de pânico e correu morro acima pedindo ajuda.
No dia seguinte, ele voltou ao local. “Eu só chorava. Eu não sabia o que fazer. Meu avô faleceu em novembro. Tudo que a gente tinha de lembrança dele estava lá. Minha mãe também já é falecida. Todas as fotos, tudo que ela tinha me dado, ficou debaixo da terra.”
Sem casa, ele e a avó estão temporariamente abrigados na casa de familiares. O jovem, que planejava se formar na faculdade este ano, agora teme não conseguir concluir o curso diante das perdas materiais e da instabilidade financeira.
“Eu estava só estudando. Agora, sinceramente, não sei como vai ser. Mas o mais importante saiu comigo: minha avó e meus cachorros. O resto a gente tenta reconstruir.”
Tragédia das chuvas em Juiz de Fora e na Zona da Mata
O deslizamento da casa de Davi foi provocado pelas chuvas intensas que atingiram Juiz de Fora entre segunda (23/2) e terça-feira (24). De acordo com o Corpo de Bombeiros, Juiz de Fora registra 40 mortos e 25 desaparecidos até o último balanço divulgado nesta quarta-feira (25/2).
Os bairros Esplanada, JK, Monte Castelo e Costa Carvalho estão entre os locais onde vítimas foram encontradas nas últimas horas. Cerca de 3 mil pessoas estão desabrigadas e 400 desalojadas no município. Ao todo, 87 militares atuam nas ocorrências.
Os impactos das enxurradas atingiram diferentes pontos da cidade, sobretudo áreas de encosta e bairros localizados próximos a córregos e rios, onde se concentraram a maior parte dos deslizamentos responsáveis por mortes e pela destruição de imóveis. No bairro Parque Jardim Burnier, um dos mais atingidos, um grande deslizamento derrubou ao menos 12 casas, deixando moradores à procura de parentes e vizinhos em meio aos escombros e à lama.
Na cidade vizinha de Ubá, também na Zona da Mata, o temporal deixou seis mortos e duas pessoas desaparecidas, além de 26 desabrigados e 178 desalojados.
