Jovem morre após ser atingido por spray de pimenta em abordagem da PM em MG.
Segundo a PM, jovem avançou contra policiais após urinar em via pública, foi atingido com spray de pimenta, caiu e ficou inconsciente
Belo Horizonte – Um jovem de 20 anos, identificado como Ariel Santos Ferreira, morreu após ser atingido por spray de pimenta durante uma abordagem da Polícia Militar (PMMG), na noite da última sexta-feira (11/9), em Piedade de Ponte Nova, na Zona da Mata mineira.
Segundo a versão registrada pelos próprios militares no boletim de ocorrência, o jovem já havia sido abordado e liberado quando urinou em via pública, se desentendeu com os policiais e teria “tentado avançar” contra a equipe. Após o uso do spray, ele se afastou, caiu no chão e ficou inconsciente.
Segundo a irmã, Angell Sanches, de 22, eles se preparavam para ir a uma festa quando ela subiu a rua para encontrar Ariel, que chegava de Uber. Como o motorista não sabia chegar ao local do evento, ele desceu do carro e encontrou a irmã, o cunhado e outras pessoas que seguiriam juntos. “Ariel, vamos com nós mesmos, desce todo mundo junto”, relembrou.

Segundo ela, assim que Ariel e os amigos desceram do carro, uma viatura com dois policiais militares chegou ao local e abordou o grupo.
De acordo com o boletim de ocorrência, o caso aconteceu por volta das 23h, na Rua Brasil. Segundo a versão apresentada pelos policiais militares, uma equipe fazia patrulhamento quando encontrou um grupo em um ponto que, conforme os militares, seria conhecido pela venda ou pelo consumo de drogas.
Os policiais afirmaram que decidiram abordar o grupo porque alguns dos homens apresentavam volume na região da cintura e fumavam cigarros. Todos foram revistados, mas nenhum objeto ou outra irregularidade foi encontrado, e o grupo acabou liberado.
“O primeiro a ser abordado foi Ariel. Ele foi revistado e não acharam nada com ele, até porque meu irmão não era criminoso, não era envolvido com nada. Ele trabalhava como servente de pedreiro, ajudava meu pai e os meninos aqui de onde a gente mora”, afirmou. Após a revista, segundo a irmã, um dos policiais liberou Ariel e passou a abordar os outros jovens. Ariel, então, teria ido até um lote vago para urinar.
Xixi no muro
A versão dos militares é de que, mesmo após ser liberado, o jovem permaneceu nas proximidades e apresentava fala desconexa, andar cambaleante e olhos arregalados. Segundo o B.O, Ariel foi até um muro próximo e começou a urinar em via pública. Um dos policiais teria determinado que ele parasse. A PM afirma que o jovem não obedeceu à ordem e passou a xingar os militares.
A versão da irmã é difetente: “Eu estava vendo tudo. Ariel foi para o canto de uma casa onde tinha um mato, um lote vago, para urinar. O outro PM, que estava com uma lanterna, foi atrás dele e deu uma pancada na nuca dele”, relatou.
Ela afirma que, depois disso, Ariel começou a discutir e xingar o policial. “Ele estava de costas, tentando urinar, e tomou uma pancada bem forte na nuca. Começou a discutir com o policial”, disse.
Foi nesse momento que um dos policiais utilizou spray de pimenta contra Ariel. No boletim, os militares justificam que usaram o produto, para impedir que Ariel “avançasse” contra os militares, empregado para impedir uma suposta investida contra a equipe e controlar a situação. O registro policial afirma que não houve uso de força física.

Queda e socorro
Após o uso do spray, segundo a narrativa dos policiais, ele se afastou da equipe e seguiu por uma “via em declive e de piso irregular”. A PM sustenta que ele perdeu o equilíbrio e caiu no chão.
“Na hora que ele tomou aquela ‘sprayzada’ na cara, ele bambeou, rodou e caiu de costas. Bateu a cabeça e começou a se debater. Eu não sei se ele estava convulsionando ou puxando o ar. Foi uma loucura, eu não sabia nem o que fazer. Falei para o meu marido puxar a língua dele, mas meu marido disse que a língua não estava enrolando. Então, ele estava como se estivesse asfixiando”, contou a irmã.
Os militares afirmam que foram até o jovem ao perceberem que ele não se levantava. Conforme o B.O, o jovem estava inconsciente e apresentava uma espuma esbranquiçada na boca, com sinais de uma possível parada cardíaca.
A versão policial é de que uma ambulância foi acionada e que um dos militares iniciou manobras de reanimação cardiopulmonar, mantendo o procedimento até a chegada da equipe de socorro.
O boletim registra ainda que, durante o atendimento, um primo dele teria afirmado aos policiais que o jovem havia usado loló naquele dia.
A irmã conta outra versão: “Os PMs não fizeram nada. Tem o vídeo inteiro da câmera, só foi postada uma parte, que foi quando aconteceu o fato com meu irmão. Eles ficaram em pé olhando, enquanto meu marido e o amigo dele tentavam ajudar”, afirmou. Segundo ela, cerca de 20 minutos depois, um dos policiais acionou uma ambulância, que teria demorado entre 30 e 40 minutos para chegar.
O jovem foi levado inicialmente para a policlínica de Piedade de Ponte Nova. Segundo o registro policial, não havia médico de plantão na unidade e, por isso, ele foi transferido para o Hospital Arnaldo Gavazza, em Ponte Nova, a cerca de 26 quilômetros do município.
Conforme o relato da irmã, a família foi informada pelo médico de que ele chegou à unidade de saúde sem pulso. “O médico deu a notícia de que ele já chegou aqui sem pulso, já chegou morto. Disse que ele tinha morrido havia uns 35 ou 40 minutos, que já não tinha mais batimentos. Então, ele faleceu lá mesmo”, contou.
Por fim, a irmã descreveu Ariel como uma pessoa querida na cidade e afirmou que a família pretende buscar Justiça. “Meu irmão era uma pessoa muito boa, muito querida por todo mundo nessa cidade. O velório e o enterro foram muito emocionantes. Agora a gente tem que seguir, mas não vai desistir. A gente vai procurar Justiça.”
Por meio de nota, a PMMG informou que “os fatos estão sendo apurados.”
A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) informou, por meio de nota, que, a princípio, todo o ocorrido será apurado pela Justiça Militar.



