FAB apura áudio de provocação a piloto em MG: ''Não manda nem em casa"
FAB afirma que uso indevido ou interferência em frequências de rádio da aviação pode configurar crime contra a segurança da navegação

Belo Horizonte – A Força Aérea Brasileira (FAB), por meio do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA), informou, nesta segunda-feira (14/9), que está ciente do áudio em que o piloto ouviu a provocação “você não manda nem em casa, quer mandar aqui?”. Segundo a FAB, os registros da frequência de rádio utilizada estão sendo analisados.
O piloto, de 35 anos, seguia do Rio de Janeiro para Varginha, no Sul de Minas, quando questionou uma mudança de rota determinada pelo controle de tráfego aéreo. De acordo com a FAB, os controladores agiram dentro dos procedimentos previstos, com a cortesia e o profissionalismo exigidos.
“Mudanças de rota e o gerenciamento de fluxo seguem critérios técnicos rigorosos para garantir a segurança e a eficiência dos voos”, informou.
Sobre a provocação, a FAB afirmou que não é possível identificar quem fez a transmissão. A fala pode ter partido de outra aeronave ou até mesmo de uma estação em solo.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesSegundo a FAB, todas as comunicações feitas pelos órgãos de controle são gravadas. No entanto, o sistema de rádio utilizado na aviação não permite descobrir, apenas pelo áudio gravado, de onde partiu determinada transmissão.
“Embora todas as comunicações dos órgãos de controle sejam gravadas, a tecnologia de rádio VHF não permite rastrear a fonte emitente por meio dos áudios gravados”, explicou.
A FAB ressaltou ainda que o uso indevido ou a interferência nessas frequências de rádio pode resultar em punições administrativas e até configurar crime contra a segurança da navegação aérea, previsto no artigo 261 do Código Penal.
O episódio ocorreu em 4 de setembro. O piloto estava acompanhado do copiloto e de um passageiro. Durante a comunicação, Pedro Costa questionou a inclusão de um ponto que, segundo ele, aumentaria desnecessariamente o trajeto. “Poxa vida, será que não pode rever essa rota, não? Porque a Multica fica muito fora da rota”, afirmou.
A controladora explicou que o desvio era necessário por causa de aeronaves que faziam a descida para o Aeroporto do Galeão. “É porque tem tráfegos que descem bem na rota do senhor. Por isso que tem que ir para Multica, para o senhor quebrar um pouquinho para a direita e depois prosseguir o destino”, explicou.
O piloto disse compreender a situação, mas argumentou que havia outras possibilidades de rota que não interfeririam no tráfego. A controladora pediu que ele aguardasse enquanto verificava uma alternativa. Na sequência, outra voz entrou na frequência e disparou: “Você não manda nem em casa, quer mandar aqui”.
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O que aconteceu
Pedro explicou que o voo já havia saído de Jacarepaguá com uma rota diferente da inicialmente planejada. A intenção era seguir diretamente para Varginha, mas o trajeto precisou ser alterado antes da decolagem para contornar uma área militar que estava ativa.
Já durante o voo, segundo ele, o controle determinou um novo desvio. A mudança faria a aeronave seguir inicialmente para uma direção diferente da de Varginha, aumentando ainda mais a distância percorrida. “Essa alteração representaria um acréscimo significativo de milhas à rota previamente planejada e aprovada, conduzindo inicialmente a aeronave em direção oposta ao destino pretendido”, explicou ao Metrópoles na semana passada.
Segundo Pedro, uma mudança desse tamanho não significa apenas levar mais tempo para chegar ao destino. O aumento da distância também interfere na quantidade de combustível necessária e no tempo que a aeronave consegue permanecer no ar, fatores calculados antes da decolagem.
“Hoje percebo constantemente falhas na coordenação e, quando isso traz grande impacto para o voo, é papel [do piloto] garantir que essa informação seja transmitida para eles conseguirem rever a solicitação”, afirmou.
Ele também fez questão de diferenciar a provocação da atuação da controladora com quem conversava. Segundo Pedro, o diálogo entre os dois foi cordial e profissional durante todo o episódio.
“A profissional mostrou-se solícita, compreendeu a preocupação apresentada e explicou de forma clara a dimensão da alteração, sua motivação e que se tratava de uma medida destinada à organização do fluxo de tráfego aéreo”, afirmou.
Sobre a frase “você não manda nem em casa, quer mandar aqui”, Pedro disse considerar esse tipo de comentário inadequado. “A comunicação aeronáutica deve ser objetiva, clara, concisa e voltada exclusivamente às necessidades operacionais e à segurança do voo”, afirmou.
“Independentemente de quem tenha realizado o comentário, considero importante que o episódio seja analisado sob a perspectiva da segurança operacional, e não como uma questão pessoal”, completou.
A repercussão
O áudio ganhou repercussão nas redes sociais após ser identificado por Thamiris dos Passos, de 24 anos, moradora de Itaguaí, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Entusiasta de aviação, ela costuma acompanhar transmissões ao vivo de aeroportos e as comunicações entre pilotos e controladores de tráfego aéreo.
Segundo Thamiris, a conversa foi transmitida durante uma live do Aeroporto Internacional do Galeão, no canal AVTV, no YouTube. O canal exibe imagens dos aeroportos e o áudio das comunicações entre pilotos e controladores.
Ao ouvir a conversa, Thamiris percebeu que o diálogo fugia do padrão das comunicações que costuma acompanhar e decidiu compartilhar o caso. “Foi algo que ocorreu diferente do que ocorre normalmente e senti vontade de poder falar sobre o que tinha ocorrido. Não imaginei que ia dar essa repercussão”, contou.
Para Thamiris, o questionamento feito pelo piloto sobre a mudança de rota faz parte da dinâmica da aviação e não representou um problema na comunicação. “Na aviação, não há problema em perguntar. Perguntar é essencial. Mesmo que o piloto estivesse certo ou errado, ele questionou com relação à mudança da rota. Acredito que o que o piloto falou foi coerente e necessário”, afirmou.
A jovem afirmou que não esperava que o episódio alcançasse tanta gente, mas acredita que a repercussão contribuiu para ampliar o debate sobre o caso. “Não imaginei que isso estaria acontecendo, mas acredito que ajudou o pessoal a repercutir e debater, porque é algo que acho necessário falar na aviação”, disse.



