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Minas Gerais

Entenda planos de australianos para Poços de Caldas, Caldas e Araxá

Com investimentos de cerca de R$ 4 bilhões já comprometidos, as cidades mineiras tentam aliar progresso e meio ambiente

30/08/2026 02:00
Cade/ reprodução
terras raras

Belo Horizonte – Poços de Caldas, Caldas e Araxá estão no centro de uma nova corrida por terras raras em Minas Gerais, com projetos que prometem investimentos, empregos e uma cadeia industrial que vai da extração ao refino. O avanço, porém, ocorre em meio à cobrança por contrapartidas econômicas, controle dos impactos ambientais e garantia de que a riqueza mineral permaneça também nos municípios produtores.

É em Poços de Caldas que a nova fronteira das terras raras começa a ganhar uma estrutura que vai além da extração. O Projeto Colossus, da Viridis, prevê uma planta de beneficiamento e tratamento de minerais. O empreendimento deverá criar cerca de 600 empregos permanentes.

Com investimento de R$ 25 milhões, a Viridis Mining & Minerals inaugura o maior centro de carbonato de terras raras mistas do país.

A Viridion deverá produzir óxidos a partir do refino de carbonato misto e da reciclagem de ímãs permanentes descartados. A proposta coloca Poços de Caldas em uma etapa mais sofisticada da cadeia: não apenas retirar o mineral, mas separar, refinar e reaproveitar os elementos.

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Para o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico e Trabalho, Franco Martins, o objetivo é justamente fazer com que a cidade avance para além da atividade de mineração.

“Nosso foco hoje é (…) organizar esse fluxo para estar atraindo, além da extração do carbonato, toda a cadeia produtiva.”

A cadeia começa na extração da argila iônica, passa pela produção de carbonato e óxidos de terras raras e pode avançar para etapas como a metalização e, no estágio mais sofisticado, a fabricação de ímãs. Para Franco, quanto mais etapas forem realizadas no próprio território, maior será o valor econômico deixado na cidade e na região.

“Conforme essas empresas forem se instalando, toda a cadeia de fornecedores e de suprimentos para elas, com certeza, vai crescer próximo delas”, afirmou Franco.

A expectativa apresentada pelo secretário é de que o ciclo de exploração possa se estender por décadas, mas a preocupação do município é que esse período seja acompanhado pela formação de uma estrutura industrial permanente.

O prefeito Paulo Ney vê nesse movimento uma possibilidade de transformar a economia local. “O mais importante é que possamos avançar juntos, com responsabilidade, transparência e, acima de tudo, colocando sempre à frente o que é melhor para a nossa cidade e para a população.”

A declaração foi dada em reunião do Comitê de Terras Raras do Executivo Municipal, no início de agosto, em meio ao aumento das discussões sobre os projetos.

área de mineração de terras raras em Poços de Caldas
Um dos pontos destacados é a ausência de uma barragem convencional de rejeitos.

O município quer uma contrapartida

A posição do prefeito ganhou importância porque, paralelamente ao entusiasmo com os investimentos, Poços de Caldas passou a cobrar informações mais detalhadas sobre impactos ambientais, uso da água, localização das áreas de mineração e contrapartidas para o município.

Segundo o prefeito Paulo Ney, a discussão envolve a possibilidade de ampliar as contrapartidas financeiras e os investimentos locais.

Paulo Ney encaminhou ofícios à Fundação Estadual de Meio Ambiente (Feam), à Secretaria de Meio Ambiente, à Secretaria de Desenvolvimento Econômico e à Invest Minas para ampliar o acompanhamento dos empreendimentos.

A discussão não se limita ao impacto ambiental. O município também quer que parte da riqueza gerada pela atividade permaneça na cidade.

Na entrevista concedida ao Metrópoles durante a Expo & Congresso Brasileiro de Mineração (Exposibram 2026), Paulo Ney afirmou que a atual estrutura de compensação da mineração é uma das preocupações da administração municipal.

“É uma das nossas brigas. Hoje, até a própria tabela CFEM, que remunera os municípios pela atividade minerária exercida dentro dos municípios, ela é uma tabela muito prejudicial a esse tipo de atividade dentro da nossa cidade.”

Segundo o prefeito, a discussão envolve a possibilidade de ampliar as contrapartidas financeiras e os investimentos locais.

“A gente acabou de conversar com o pessoal dos ministérios aqui na Exposibram para ver o estudo da possibilidade do município não ficar somente com a parte ruim da mineração, queremos ter uma contrapartida que ajude diretamente a população.”

A reivindicação tem uma lógica direta: se a atividade minerária produz impactos sobre o território e sobre a comunidade, parte dos recursos gerados deve retornar em forma de benefícios para a população.

“Quando a atividade minerária se instala no local, a gente impacta diretamente uma comunidade e parte desses recursos vindos da mineração têm que ser utilizados em benefício dessa mesma comunidade.”

O prefeito cita investimentos em infraestrutura e também cobra uma participação social das próprias empresas.

“As próprias empresas mineradoras, embora elas não tenham essa obrigação formal, elas têm uma obrigação social com a cidade, também, e a gente cobra muito isso.”

A mineração sob a condição ambiental

O discurso de desenvolvimento, no entanto, vem acompanhado de uma condição colocada pelo próprio município: a atividade precisa ser ambientalmente sustentável.

Para acompanhar esse processo, a prefeitura criou um comitê técnico formado por servidores municipais para avaliar os impactos dos empreendimentos.

Um dos pontos destacados é a ausência de uma barragem convencional de rejeitos.

Segundo o secretário municipal de Meio Ambiente, Stéfano Zincone, os estudos apresentados ao município indicam uma mineralização de fácil tratamento e com alto teor de concentração. Um dos pontos destacados é a ausência de uma barragem convencional de rejeitos.

“Ela não vai ter uma barragem de rejeito, isso diminui bastante o risco ambiental.”

Zincone afirma ainda que os estudos das plantas-piloto apontam baixo impacto ambiental, mas ressalta que o município continua cobrando informações, especialmente em relação aos recursos hídricos.

“O município segue acompanhando todas as questões que podem vir a impactar isso daí, pedindo um maior detalhamento das questões hídricas.”

Segundo o secretário, a prefeitura pretende ampliar a interlocução com a Agência Nacional de Mineração para acompanhar mais de perto a atividade. “O objetivo do município é firmar um termo de cooperação para que a gente possa ser os olhos da Agência Nacional no município, acompanhando e fiscalizando mais de perto esse processo minerário.”

Imagem colorida mostra os rejeitos de carvão - Metrópoles

Terras raras ampliam tensão ambiental no Sul de Minas

Dois projetos estão no centro da discussão: o Colossus, da Viridis Mineração, e o Caldeira, da Meteoric. Os empreendimentos são voltados à exploração de argilas iônicas com elementos de terras raras e estão localizados a poucos quilômetros um do outro. Segundo informações apresentadas no processo de licenciamento, os dois projetos têm capacidade de movimentar cerca de 5 milhões de toneladas de material por ano.

Físico e presidente da Aliança em Prol da APA Santuário Ecológico da Pedra Branca, Daniel Tygel, que mora em Caldas, acompanha a discussão há aproximadamente três anos. Para ele, a dimensão dos projetos e a localização exigem uma análise mais ampla dos impactos.


Os pontos levantados por Tygel e organizações da sociedade civil

  • Proximidade de áreas urbanas: uma das áreas previstas para mineração fica a cerca de 300 metros de casas, escolas e unidades de saúde da Zona Sul de Poços de Caldas.
  • Impactos sobre a água: ambientalistas afirmam que as escavações e o consumo de água podem interferir no sistema hidrogeológico da região. A organização Terra Viva, Água Rara afirma que existem 93 nascentes na área de influência do projeto e aponta preocupação com possíveis impactos sobre elas.
  • Efeitos cumulativos: os grupos defendem que os projetos da Viridis e da Meteoric não sejam avaliados isoladamente, devido à proximidade entre os empreendimentos e ao compartilhamento de bacias hidrográficas.
  • Passivo da INB: outro ponto de preocupação é a proximidade dos projetos com a Unidade de Descomissionamento de Caldas, antiga área de processamento de urânio. Ambientalistas temem que alterações no lençol freático, movimentação de solo e outros impactos da mineração possam interagir com problemas ambientais já existentes na região.
  • Resíduos e produtos químicos: Tygel questiona o uso de processos químicos no beneficiamento do minério e cita preocupações com a geração de resíduos, drenagem ácida de mina e eventual mobilização de metais presentes no solo.
  • Possível presença de materiais radioativos: devido às características geológicas da região e à proximidade com instalações da INB, os ambientalistas defendem avaliações específicas sobre riscos radiológicos.
  • Biodiversidade: os grupos também alertam para a retirada de vegetação, fragmentação de habitats e impactos sobre áreas de Mata Atlântica.
  • Transparência e participação popular: moradores e representantes da sociedade civil reclamam que a população não teria recebido informações suficientes sobre a dimensão e os possíveis impactos dos empreendimentos.

Ibama pede avaliação integrada

A discussão ganhou novo peso após uma Informação Técnica do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) sobre a região. O órgão federal apontou a necessidade de considerar os possíveis impactos sinérgicos e cumulativos dos projetos privados e sua relação com a área de descomissionamento da INB.

O documento também chama a atenção para questões hidrogeológicas, recursos hídricos, biodiversidade e possíveis interações entre os empreendimentos. O Ibama ressalta, porém, que o licenciamento dos projetos está sob competência estadual e defende maior coordenação entre os órgãos públicos.

Mobilização chega às escolas

A preocupação também chegou à comunidade escolar. Em agosto, a Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia da Assembleia Legislativa de Minas Gerais visitou oito escolas de Poços de Caldas para ouvir professores, estudantes e moradores sobre os possíveis impactos da mineração.

Educadores da Zona Sul relataram preocupação principalmente com a distância entre as futuras áreas de lavra e as escolas, além de possíveis efeitos sobre a qualidade da água, do ar e a saúde da população.

O professor Vinícius Hilário de Lima, da Escola Padrão, afirmou que a comunidade foi surpreendida pela dimensão dos projetos e criticou a forma como as informações teriam sido apresentadas aos moradores. Segundo ele, representantes da empresa procuraram escolas e moradores para apresentar possíveis benefícios econômicos, mas não teriam esclarecido, inicialmente, todos os detalhes sobre a operação.

“Quando a gente compara com os riscos que a gente tem para a nossa saúde, devastação ambiental, falta de água, não tem nada que compense. Não tem número de empregos que compense os riscos e a devastação que a gente vai ter que sofrer”, relatou Hilário.

A deputada Beatriz Cerqueira, presidente da comissão, também questionou a proximidade das cavas com áreas urbanas e defendeu mais informações antes da continuidade do processo. A deputada Bella Gonçalves apontou dúvidas relacionadas à saúde, radioatividade, recursos hídricos, trânsito de caminhões e ruídos.

Uma transição para a cidade

Poços de Caldas já tem uma história ligada à mineração, mas também construiu sua identidade em torno do turismo e da qualidade de vida.

“A nossa principal vocação é a qualidade de vida da nossa população, e a gente tem que brigar para que Poços continue sendo essa referência para o nosso país em qualidade de vida.”, afirma Paulo Ney.

É essa equação que está sendo construída em Poços de Caldas: extrair, mas também beneficiar; receber investimentos, mas exigir contrapartidas; gerar riqueza, mas preservar a qualidade de vida; e, sobretudo, tentar fazer com que a nova corrida pelas terras raras deixe na cidade algo maior do que uma mina.

Poços de Caldas MG
Segundo o prefeito Paulo Ney, a discussão envolve a possibilidade de ampliar as contrapartidas financeiras e os investimentos locais.

Caldas vira laboratório da nova mineração

A poucos quilômetros de Poços, Caldas se tornou outro ponto decisivo dessa transformação.

O Projeto Caldeira, da australiana Meteoric Resources, prevê a implantação de uma planta de beneficiamento de terras raras. A empresa já opera uma planta-piloto na região e protocolou junto à Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) o pedido de Licença de Instalação, após obter a Licença Prévia em dezembro de 2025. A previsão divulgada é de início das operações até o fim de 2028.

Caldas também passou a exercer um papel político regional. O prefeito Ailton Goulart vem articulando municípios do entorno sobre os impactos e as oportunidades que a mineração pode gerar para toda a região.

O projeto, porém, avança sob compromissos ambientais específicos. Um termo firmado entre o município, a Câmara e a Meteoric estabelece obrigações socioambientais, incluindo monitoramento periódico da argila processada e acompanhamento contínuo das águas superficiais e subterrâneas.

É uma diferença importante em relação ao modelo tradicional de mineração: antes mesmo da operação comercial, a discussão sobre água, território, licenciamento e contrapartidas já ocupa espaço central.

Ambientalistas ampliam mobilização

A resistência aos projetos também se espalhou por municípios próximos, como Caldas, Andradas e Águas da Prata. Segundo Tygel, moradores da zona rural e da Zona Sul de Poços de Caldas passaram a se organizar e cobrar respostas do poder público.

Em maio, uma manifestação reuniu moradores, movimentos sociais e políticos em Poços de Caldas. Os participantes percorreram ruas da Zona Sul até o Instituto Federal do Sul de Minas, onde ocorreu uma audiência pública sobre a exploração de terras raras.

As organizações também levaram reivindicações ao governo federal, incluindo a realização de estudos sobre impactos cumulativos, maior participação de órgãos federais e discussão sobre a necessidade de consulta a comunidades tradicionais.

Tygel afirma que um dos objetivos é impedir que decisões sobre os projetos sejam tomadas sem uma avaliação integrada de seus impactos. “Mesmo que a mineração avance, a pressão da sociedade pode resultar em mudanças nos projetos e em regras mais rigorosas de proteção ambiental.”, conclui.

Empresa defende projeto

A Viridis afirma que o Projeto Colossus segue regularmente o processo de licenciamento ambiental e atende à legislação vigente. A empresa diz manter diálogo com moradores, autoridades e entidades locais e afirma que segurança, proteção ambiental e respeito às comunidades são premissas do empreendimento.

Sobre a proximidade com a Zona Sul, a companhia declarou que a área está prevista para uma etapa posterior da operação. Segundo a empresa, isso permitiria que os sistemas de controle e monitoramento ambiental já estivessem implantados antes de eventual avanço da lavra para o local.

A Viridis também destaca iniciativas para criar uma cadeia produtiva de terras raras em Poços de Caldas, incluindo um projeto de centro de refino, reciclagem e inovação. A empresa afirma que a atividade pode gerar empregos, renda, arrecadação e oportunidades para fornecedores locais.

Araxá descobre um novo capítulo depois do nióbio

No Alto Paranaíba, Araxá vive uma situação diferente. A cidade já é mundialmente conhecida pelo nióbio e possui infraestrutura, mão de obra e uma cultura econômica profundamente ligada à mineração. Agora, a St George Mining quer acrescentar as terras raras a essa história.

Os dados mais recentes aumentaram ainda mais as expectativas. Em março de 2026, a empresa anunciou que a estimativa de minério contendo terras raras no Projeto Araxá havia aumentado 75%, passando de cerca de 40 milhões para 70,9 milhões de toneladas, com teor médio de 4,06% de terras raras e 0,62% de nióbio, considerando teor de corte de 2%.

araxá

Em janeiro, novos estudos já apontavam a possibilidade de o depósito alcançar características de classe mundial. Uma sondagem identificou mais de 100 metros contínuos de mineralização, com aproximadamente 4,8% de óxidos de terras raras e 0,6% de nióbio em determinado intervalo.

St George já colocou dinheiro no projeto

A movimentação em Araxá deixou de ser apenas uma fase de pesquisa.

Em dezembro de 2025, a St George anunciou a captação de R$ 254 milhões para impulsionar o projeto. Na época, a estimativa era de quase 40 milhões de toneladas de minério de alta concentração.

Em fevereiro deste ano, a empresa comprou dois terrenos que somam aproximadamente 329 hectares. Um deles, de 166 hectares, deverá receber a planta de beneficiamento e estruturas operacionais; outro, de 163 hectares, será destinado à conservação ambiental. O negócio somou cerca de R$ 20 milhões.

mineração CBMM
Planta da CBMM – Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração, para extração de nióbio em Araxá-MG

A previsão apresentada pela prefeitura é de 200 empregos diretos, com cerca de 90% dos serviços prestados por empresas locais. Em abril desse ano a St George anunciou aumento de 75% no volume de terras raras do Projeto Araxá (MG).

Araxá tenta, assim, aproveitar uma vantagem que poucas cidades brasileiras possuem: já existe ali uma cadeia de mineração consolidada, profissionais especializados e infraestrutura industrial.