Entenda planos de australianos para Poços de Caldas, Caldas e Araxá
Com investimentos de cerca de R$ 4 bilhões já comprometidos, as cidades mineiras tentam aliar progresso e meio ambiente

Belo Horizonte – Poços de Caldas, Caldas e Araxá estão no centro de uma nova corrida por terras raras em Minas Gerais, com projetos que prometem investimentos, empregos e uma cadeia industrial que vai da extração ao refino. O avanço, porém, ocorre em meio à cobrança por contrapartidas econômicas, controle dos impactos ambientais e garantia de que a riqueza mineral permaneça também nos municípios produtores.
É em Poços de Caldas que a nova fronteira das terras raras começa a ganhar uma estrutura que vai além da extração. O Projeto Colossus, da Viridis, prevê uma planta de beneficiamento e tratamento de minerais. O empreendimento deverá criar cerca de 600 empregos permanentes.
Com investimento de R$ 25 milhões, a Viridis Mining & Minerals inaugura o maior centro de carbonato de terras raras mistas do país.
A Viridion deverá produzir óxidos a partir do refino de carbonato misto e da reciclagem de ímãs permanentes descartados. A proposta coloca Poços de Caldas em uma etapa mais sofisticada da cadeia: não apenas retirar o mineral, mas separar, refinar e reaproveitar os elementos.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesPara o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico e Trabalho, Franco Martins, o objetivo é justamente fazer com que a cidade avance para além da atividade de mineração.
“Nosso foco hoje é (…) organizar esse fluxo para estar atraindo, além da extração do carbonato, toda a cadeia produtiva.”
A cadeia começa na extração da argila iônica, passa pela produção de carbonato e óxidos de terras raras e pode avançar para etapas como a metalização e, no estágio mais sofisticado, a fabricação de ímãs. Para Franco, quanto mais etapas forem realizadas no próprio território, maior será o valor econômico deixado na cidade e na região.
“Conforme essas empresas forem se instalando, toda a cadeia de fornecedores e de suprimentos para elas, com certeza, vai crescer próximo delas”, afirmou Franco.
A expectativa apresentada pelo secretário é de que o ciclo de exploração possa se estender por décadas, mas a preocupação do município é que esse período seja acompanhado pela formação de uma estrutura industrial permanente.
O prefeito Paulo Ney vê nesse movimento uma possibilidade de transformar a economia local. “O mais importante é que possamos avançar juntos, com responsabilidade, transparência e, acima de tudo, colocando sempre à frente o que é melhor para a nossa cidade e para a população.”
A declaração foi dada em reunião do Comitê de Terras Raras do Executivo Municipal, no início de agosto, em meio ao aumento das discussões sobre os projetos.

O município quer uma contrapartida
A posição do prefeito ganhou importância porque, paralelamente ao entusiasmo com os investimentos, Poços de Caldas passou a cobrar informações mais detalhadas sobre impactos ambientais, uso da água, localização das áreas de mineração e contrapartidas para o município.
Segundo o prefeito Paulo Ney, a discussão envolve a possibilidade de ampliar as contrapartidas financeiras e os investimentos locais.
Paulo Ney encaminhou ofícios à Fundação Estadual de Meio Ambiente (Feam), à Secretaria de Meio Ambiente, à Secretaria de Desenvolvimento Econômico e à Invest Minas para ampliar o acompanhamento dos empreendimentos.
A discussão não se limita ao impacto ambiental. O município também quer que parte da riqueza gerada pela atividade permaneça na cidade.
Na entrevista concedida ao Metrópoles durante a Expo & Congresso Brasileiro de Mineração (Exposibram 2026), Paulo Ney afirmou que a atual estrutura de compensação da mineração é uma das preocupações da administração municipal.
“É uma das nossas brigas. Hoje, até a própria tabela CFEM, que remunera os municípios pela atividade minerária exercida dentro dos municípios, ela é uma tabela muito prejudicial a esse tipo de atividade dentro da nossa cidade.”
Segundo o prefeito, a discussão envolve a possibilidade de ampliar as contrapartidas financeiras e os investimentos locais.
“A gente acabou de conversar com o pessoal dos ministérios aqui na Exposibram para ver o estudo da possibilidade do município não ficar somente com a parte ruim da mineração, queremos ter uma contrapartida que ajude diretamente a população.”
A reivindicação tem uma lógica direta: se a atividade minerária produz impactos sobre o território e sobre a comunidade, parte dos recursos gerados deve retornar em forma de benefícios para a população.
“Quando a atividade minerária se instala no local, a gente impacta diretamente uma comunidade e parte desses recursos vindos da mineração têm que ser utilizados em benefício dessa mesma comunidade.”
O prefeito cita investimentos em infraestrutura e também cobra uma participação social das próprias empresas.
“As próprias empresas mineradoras, embora elas não tenham essa obrigação formal, elas têm uma obrigação social com a cidade, também, e a gente cobra muito isso.”
A mineração sob a condição ambiental
O discurso de desenvolvimento, no entanto, vem acompanhado de uma condição colocada pelo próprio município: a atividade precisa ser ambientalmente sustentável.
Para acompanhar esse processo, a prefeitura criou um comitê técnico formado por servidores municipais para avaliar os impactos dos empreendimentos.
Um dos pontos destacados é a ausência de uma barragem convencional de rejeitos.
Segundo o secretário municipal de Meio Ambiente, Stéfano Zincone, os estudos apresentados ao município indicam uma mineralização de fácil tratamento e com alto teor de concentração. Um dos pontos destacados é a ausência de uma barragem convencional de rejeitos.
“Ela não vai ter uma barragem de rejeito, isso diminui bastante o risco ambiental.”
Zincone afirma ainda que os estudos das plantas-piloto apontam baixo impacto ambiental, mas ressalta que o município continua cobrando informações, especialmente em relação aos recursos hídricos.
“O município segue acompanhando todas as questões que podem vir a impactar isso daí, pedindo um maior detalhamento das questões hídricas.”
Segundo o secretário, a prefeitura pretende ampliar a interlocução com a Agência Nacional de Mineração para acompanhar mais de perto a atividade. “O objetivo do município é firmar um termo de cooperação para que a gente possa ser os olhos da Agência Nacional no município, acompanhando e fiscalizando mais de perto esse processo minerário.”

Terras raras ampliam tensão ambiental no Sul de Minas
Dois projetos estão no centro da discussão: o Colossus, da Viridis Mineração, e o Caldeira, da Meteoric. Os empreendimentos são voltados à exploração de argilas iônicas com elementos de terras raras e estão localizados a poucos quilômetros um do outro. Segundo informações apresentadas no processo de licenciamento, os dois projetos têm capacidade de movimentar cerca de 5 milhões de toneladas de material por ano.
Físico e presidente da Aliança em Prol da APA Santuário Ecológico da Pedra Branca, Daniel Tygel, que mora em Caldas, acompanha a discussão há aproximadamente três anos. Para ele, a dimensão dos projetos e a localização exigem uma análise mais ampla dos impactos.
Os pontos levantados por Tygel e organizações da sociedade civil
- Proximidade de áreas urbanas: uma das áreas previstas para mineração fica a cerca de 300 metros de casas, escolas e unidades de saúde da Zona Sul de Poços de Caldas.
- Impactos sobre a água: ambientalistas afirmam que as escavações e o consumo de água podem interferir no sistema hidrogeológico da região. A organização Terra Viva, Água Rara afirma que existem 93 nascentes na área de influência do projeto e aponta preocupação com possíveis impactos sobre elas.
- Efeitos cumulativos: os grupos defendem que os projetos da Viridis e da Meteoric não sejam avaliados isoladamente, devido à proximidade entre os empreendimentos e ao compartilhamento de bacias hidrográficas.
- Passivo da INB: outro ponto de preocupação é a proximidade dos projetos com a Unidade de Descomissionamento de Caldas, antiga área de processamento de urânio. Ambientalistas temem que alterações no lençol freático, movimentação de solo e outros impactos da mineração possam interagir com problemas ambientais já existentes na região.
- Resíduos e produtos químicos: Tygel questiona o uso de processos químicos no beneficiamento do minério e cita preocupações com a geração de resíduos, drenagem ácida de mina e eventual mobilização de metais presentes no solo.
- Possível presença de materiais radioativos: devido às características geológicas da região e à proximidade com instalações da INB, os ambientalistas defendem avaliações específicas sobre riscos radiológicos.
- Biodiversidade: os grupos também alertam para a retirada de vegetação, fragmentação de habitats e impactos sobre áreas de Mata Atlântica.
- Transparência e participação popular: moradores e representantes da sociedade civil reclamam que a população não teria recebido informações suficientes sobre a dimensão e os possíveis impactos dos empreendimentos.
Ibama pede avaliação integrada
A discussão ganhou novo peso após uma Informação Técnica do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) sobre a região. O órgão federal apontou a necessidade de considerar os possíveis impactos sinérgicos e cumulativos dos projetos privados e sua relação com a área de descomissionamento da INB.
O documento também chama a atenção para questões hidrogeológicas, recursos hídricos, biodiversidade e possíveis interações entre os empreendimentos. O Ibama ressalta, porém, que o licenciamento dos projetos está sob competência estadual e defende maior coordenação entre os órgãos públicos.
Mobilização chega às escolas
A preocupação também chegou à comunidade escolar. Em agosto, a Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia da Assembleia Legislativa de Minas Gerais visitou oito escolas de Poços de Caldas para ouvir professores, estudantes e moradores sobre os possíveis impactos da mineração.
Educadores da Zona Sul relataram preocupação principalmente com a distância entre as futuras áreas de lavra e as escolas, além de possíveis efeitos sobre a qualidade da água, do ar e a saúde da população.
O professor Vinícius Hilário de Lima, da Escola Padrão, afirmou que a comunidade foi surpreendida pela dimensão dos projetos e criticou a forma como as informações teriam sido apresentadas aos moradores. Segundo ele, representantes da empresa procuraram escolas e moradores para apresentar possíveis benefícios econômicos, mas não teriam esclarecido, inicialmente, todos os detalhes sobre a operação.
“Quando a gente compara com os riscos que a gente tem para a nossa saúde, devastação ambiental, falta de água, não tem nada que compense. Não tem número de empregos que compense os riscos e a devastação que a gente vai ter que sofrer”, relatou Hilário.
A deputada Beatriz Cerqueira, presidente da comissão, também questionou a proximidade das cavas com áreas urbanas e defendeu mais informações antes da continuidade do processo. A deputada Bella Gonçalves apontou dúvidas relacionadas à saúde, radioatividade, recursos hídricos, trânsito de caminhões e ruídos.
Uma transição para a cidade
Poços de Caldas já tem uma história ligada à mineração, mas também construiu sua identidade em torno do turismo e da qualidade de vida.
“A nossa principal vocação é a qualidade de vida da nossa população, e a gente tem que brigar para que Poços continue sendo essa referência para o nosso país em qualidade de vida.”, afirma Paulo Ney.
É essa equação que está sendo construída em Poços de Caldas: extrair, mas também beneficiar; receber investimentos, mas exigir contrapartidas; gerar riqueza, mas preservar a qualidade de vida; e, sobretudo, tentar fazer com que a nova corrida pelas terras raras deixe na cidade algo maior do que uma mina.

Caldas vira laboratório da nova mineração
A poucos quilômetros de Poços, Caldas se tornou outro ponto decisivo dessa transformação.
O Projeto Caldeira, da australiana Meteoric Resources, prevê a implantação de uma planta de beneficiamento de terras raras. A empresa já opera uma planta-piloto na região e protocolou junto à Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) o pedido de Licença de Instalação, após obter a Licença Prévia em dezembro de 2025. A previsão divulgada é de início das operações até o fim de 2028.
Caldas também passou a exercer um papel político regional. O prefeito Ailton Goulart vem articulando municípios do entorno sobre os impactos e as oportunidades que a mineração pode gerar para toda a região.
O projeto, porém, avança sob compromissos ambientais específicos. Um termo firmado entre o município, a Câmara e a Meteoric estabelece obrigações socioambientais, incluindo monitoramento periódico da argila processada e acompanhamento contínuo das águas superficiais e subterrâneas.
É uma diferença importante em relação ao modelo tradicional de mineração: antes mesmo da operação comercial, a discussão sobre água, território, licenciamento e contrapartidas já ocupa espaço central.
Ambientalistas ampliam mobilização
A resistência aos projetos também se espalhou por municípios próximos, como Caldas, Andradas e Águas da Prata. Segundo Tygel, moradores da zona rural e da Zona Sul de Poços de Caldas passaram a se organizar e cobrar respostas do poder público.
Em maio, uma manifestação reuniu moradores, movimentos sociais e políticos em Poços de Caldas. Os participantes percorreram ruas da Zona Sul até o Instituto Federal do Sul de Minas, onde ocorreu uma audiência pública sobre a exploração de terras raras.
As organizações também levaram reivindicações ao governo federal, incluindo a realização de estudos sobre impactos cumulativos, maior participação de órgãos federais e discussão sobre a necessidade de consulta a comunidades tradicionais.
Tygel afirma que um dos objetivos é impedir que decisões sobre os projetos sejam tomadas sem uma avaliação integrada de seus impactos. “Mesmo que a mineração avance, a pressão da sociedade pode resultar em mudanças nos projetos e em regras mais rigorosas de proteção ambiental.”, conclui.
Empresa defende projeto
A Viridis afirma que o Projeto Colossus segue regularmente o processo de licenciamento ambiental e atende à legislação vigente. A empresa diz manter diálogo com moradores, autoridades e entidades locais e afirma que segurança, proteção ambiental e respeito às comunidades são premissas do empreendimento.
Sobre a proximidade com a Zona Sul, a companhia declarou que a área está prevista para uma etapa posterior da operação. Segundo a empresa, isso permitiria que os sistemas de controle e monitoramento ambiental já estivessem implantados antes de eventual avanço da lavra para o local.
A Viridis também destaca iniciativas para criar uma cadeia produtiva de terras raras em Poços de Caldas, incluindo um projeto de centro de refino, reciclagem e inovação. A empresa afirma que a atividade pode gerar empregos, renda, arrecadação e oportunidades para fornecedores locais.
Araxá descobre um novo capítulo depois do nióbio
No Alto Paranaíba, Araxá vive uma situação diferente. A cidade já é mundialmente conhecida pelo nióbio e possui infraestrutura, mão de obra e uma cultura econômica profundamente ligada à mineração. Agora, a St George Mining quer acrescentar as terras raras a essa história.
Os dados mais recentes aumentaram ainda mais as expectativas. Em março de 2026, a empresa anunciou que a estimativa de minério contendo terras raras no Projeto Araxá havia aumentado 75%, passando de cerca de 40 milhões para 70,9 milhões de toneladas, com teor médio de 4,06% de terras raras e 0,62% de nióbio, considerando teor de corte de 2%.

Em janeiro, novos estudos já apontavam a possibilidade de o depósito alcançar características de classe mundial. Uma sondagem identificou mais de 100 metros contínuos de mineralização, com aproximadamente 4,8% de óxidos de terras raras e 0,6% de nióbio em determinado intervalo.
St George já colocou dinheiro no projeto
A movimentação em Araxá deixou de ser apenas uma fase de pesquisa.
Em dezembro de 2025, a St George anunciou a captação de R$ 254 milhões para impulsionar o projeto. Na época, a estimativa era de quase 40 milhões de toneladas de minério de alta concentração.
Em fevereiro deste ano, a empresa comprou dois terrenos que somam aproximadamente 329 hectares. Um deles, de 166 hectares, deverá receber a planta de beneficiamento e estruturas operacionais; outro, de 163 hectares, será destinado à conservação ambiental. O negócio somou cerca de R$ 20 milhões.

A previsão apresentada pela prefeitura é de 200 empregos diretos, com cerca de 90% dos serviços prestados por empresas locais. Em abril desse ano a St George anunciou aumento de 75% no volume de terras raras do Projeto Araxá (MG).
Araxá tenta, assim, aproveitar uma vantagem que poucas cidades brasileiras possuem: já existe ali uma cadeia de mineração consolidada, profissionais especializados e infraestrutura industrial.



