Égua em adutora deixou 715 bairros sem água em MG e expôs fragilidade no sistema
Incidente paralisou o Sistema Rio das Velhas, obrigou descarte de água, deixou escolas e hospitais em alerta e expôs fragilidades
atualizado
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Belo Horizonte – A capital mineira e mais sete cidades da Região Metropolitana enfrentaram na última terça-feira (5/5) um dos episódios mais inusitados da história recente do abastecimento de água em Minas Gerais. Uma égua caiu em uma adutora do Sistema Rio das Velhas, operado pela Copasa, obrigando a paralisação completa da produção, o descarte de grande volume de água e a interrupção do fornecimento para cerca de 715 bairros.
O caso, além de gerar transtornos para a população, escolas, hospitais e universidades, expôs a vulnerabilidade de um sistema crítico que atende milhões de pessoas.
O incidente ocorreu na região da Fazendinha, na Vila Taquaril que faz parte do Aglomerado da Serra, região Centro-Sul de Belo Horizonte. A égua Amora, de 7 anos, pisou em uma tampa de concreto de um posto de visita da adutora que cedeu imediatamente.
O animal de cerca de 500 quilos, caiu na tubulação de 2,4 metros de diâmetro e foi arrastado pela correnteza por cerca de 1,5 quilômetros. Seu corpo foi encontrado fragmentado no Reservatório São Lucas Sul, também na região centro-sul da capital, por volta das 5h da manhã desta quarta-feira (6/5).
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Resposta imediata e medidas de segurança
Quando tomou conhecimento da possibilidade de um animal de grande porte dentro da adutora, a Copasa diz que adotou protocolo rigoroso. “Imediatamente a gente paralisou completamente essa adutora e para isso precisou parar um dos principais sistemas de produção nosso, que é o sistema Rio das Velhas. […] A gente optou por essa decisão justamente para descartar completamente a água e dar mais segurança para isso.”, explicou o superintendente de Operações da Região Metropolitana, Ronaldo Serpa.
Equipes trabalharam durante toda a madrugada. Por se tratar de um ambiente confinado, com riscos de gases e impossibilidade de entrada humana direta, a Copasa utilizou drones e robôs subaquáticos para localizar e remover os restos do animal.
Toda a água do trecho afetado foi descartada, a rede passou por desinfecção química com cloro. Análises laboratoriais confirmaram a potabilidade, disse a empresa.
Para tranquilizar a população, Ronaldo Serpa reforçou que não há necessidade de ferver a água. “A água que está sendo fornecida aos bairros afetados é de qualidade e nós garantimos isso. Ela está dentro dos padrões de potabilidade regidos no país. A questão de ferver a água não é necessária.”
Impactos na população
O desabastecimento afetou Belo Horizonte, Contagem, Nova Lima, Raposos, Ribeirão das Neves, Sabará, Santa Luzia e Vespasiano. Escolas municipais de Nova Lima suspenderam as aulas, creches e centros de saúde tiveram dificuldades, hospitais foram atendidos com caminhões-pipa e instituições como UFMG e Cefet-MG pediram redução drástica no consumo.
A normalização ocorreu de forma gradual ao longo da quarta-feira, com regiões mais altas e distantes demorando mais para recuperar a pressão. A Copasa pediu consumo consciente para acelerar a recuperação do sistema.
Fragilidade do sistema exposta
O caso levanta questionamentos sobre a segurança das estruturas de captação e distribuição de água. A tampa de concreto que cedeu estava quebrada no fundo, segundo a própria Copasa. A Agência Reguladora de Saneamento e Energia de Minas Gerais (Arsae-MG) acompanhou os trabalhos e disse que vai intensificar as fiscalizações.
“A adutora onde ocorreu o incidente, já integrava o planejamento de fiscalizações operacionais da Agência e que, diante da ocorrência, esse ponto será incluído de forma específica e minuciosa nas verificações técnicas que já seriam realizadas”, disse em nota.
Ronaldo Serpa informou que a empresa já substituiu a tampa e iniciou vistoria em toda a extensão da adutora. “Estamos identificando a causa da quebra da tampa e vistoriando novamente todas as tampas dessa adutora para verificar se alguma precisa de substituição.”
O episódio demonstra que um único ponto de falha — uma tampa de concreto — foi suficiente para interromper o abastecimento de uma das maiores regiões metropolitanas do país. Em um sistema que depende de adutoras extensas e expostas a riscos ambientais e urbanos, a dependência de uma infraestrutura envelhecida ou com manutenção insuficiente revela fragilidades que podem, a qualquer momento, deixar milhares de pessoas sem água potável.
A Copasa afirma que o foco agora é na recuperação total do abastecimento e na prevenção de novos incidentes. Para a população, resta a lição de que o serviço essencial de água, muitas vezes dado como garantido, depende de estruturas que se mostram mais vulneráveis do que se imaginava.
O retorno à normalidade deve ser acompanhado de investimentos e reforços que evitem que um animal — ou qualquer outro imprevisto — volte a comprometer o abastecimento de toda uma região.
