BH tem 240 acidentes de trânsito por dia. Veja vias mais perigosas
Capital teve 88 mil acidentes em 2025 e já soma mais de 29 mil ocorrências nos quatro primeiros meses deste ano, de acordo com a Sejusp
atualizado
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Belo Horizonte – A capital mineira registrou 88.744 acidentes de trânsito em 2025, uma média de 240 ocorrências por dia, segundo dados do Observatório de Segurança Pública de Minas Gerais (Sejusp), colhidos pelo Metrópoles. Neste ano, a capital segue a mesma tendência: entre janeiro e abril de 2026, já foram contabilizados 29.112 acidentes.
O número de registros aumentou ao longo dos primeiros meses do ano, passando de 6.424 ocorrências em janeiro para 6.948 em fevereiro, 8.467 em março e 7.274 em abril. Ao longo de 2025, 175 pessoas morreram nas ruas e avenidas da capital mineira. Nos quatro primeiros meses deste ano, já foram registradas outras 43 mortes.
Para o consultor em transporte e trânsito Silvestre de Andrade, os números refletem um problema estrutural da capital: o número de veículos cresceu muito, mas as ruas e avenidas praticamente não foram ampliadas nos últimos anos. Hoje, a cidade tem quase um veículo por habitante, cenário agravado pelo aumento das motocicletas e pela chegada de novos meios de transporte, como os patinetes.
“As motos têm participado cada vez mais do total de acidentes. São veículos difíceis de controlar e, muitas vezes, usados de forma inadequada nas vias. Já os novos modais de micromobilidade, como patinetes e bicicletas com motor, são frágeis no trânsito e exigem cuidado especial. Quando há acidentes envolvendo esses veículos, geralmente há gravidade, já que os usuários estão desprotegidos”, diz o especialista.
Ranking das vias com mais mortes
Em 2025, o Anel Rodoviário foi o local com maior número de mortes no trânsito, com 25 vítimas fatais. Em seguida aparecem a avenida Cristiano Machado, com 9 mortes, e a rodovia MG-010, com 8.
Segundo especialistas, as vias que lideram os rankings de acidentes e mortes são justamente aquelas com maior volume de carros e motos. Apesar das intervenções recentes, o cenário ainda preocupa, principalmente no Anel Rodoviário, onde, segundo a PBH, cerca de 120 mil veículos passam diariamente.
“O Anel Rodoviário virou um ponto de ligação entre regiões da cidade, o que faz com que a circulação urbana se misture ao trânsito de veículos de grande porte. Isso acaba contribuindo muito”, afirmou Jacqueline Alves, formada em Gestão em Trânsito.
Já a avenida Cristiano Machado virou ponto crítico por causa das obras, segundo Silvestre, sobretudo no trecho em direção à MG-10.
“A Cristiano Machado está em um momento fora do normal por causa das obras, o que a deixa mais exposta a acidentes devido a desvios, estrangulamentos e movimentação de equipamentos. Existe um conflito entre quem precisa acessar o comércio e os serviços da região e quem apenas quer passar pelo local”, disse a especialista.
A avenida do Contorno, a avenida Senhora do Carmo e a MG-356 registraram 5 mortes cada. Já as avenidas Dom Pedro II, Presidente Antônio Carlos e Tereza Cristina contabilizaram 4 vítimas fatais ao longo do ano.
“A Contorno e a Amazonas, por exemplo, não tiveram ações específicas nos últimos tempos. Elas têm grande volume de veículos e precisam passar constantemente por manutenção, reforço da sinalização e correção de problemas pontuais, em um trabalho permanente de fiscalização, porque todo acidente é precedido por uma infração de trânsito”, acrescentou Jacqueline Alves.
Violência mantida em 2026
Em 2026, BH já registrou 43 mortes no trânsito, seguindo a mesma tendência do ano anterior. Mais uma vez, o Anel Rodoviário lidera o ranking, com 6 mortes. Em seguida aparecem a avenida Amazonas, com 4 mortes, e a avenida Cristiano Machado, com 3.
Ranking das vias com mais acidentes
As três vias também aparecem entre as campeãs de acidentes – com ou sem mortes -, cenário que se repete entre 2025 e os primeiros meses de 2026.
No ano passado, o Anel Rodoviário também ficou em primeiro lugar, com 4.427 ocorrências, seguido pelas avenidas Cristiano Machado, Contorno, Antônio Carlos, Amazonas e Afonso Pena.
Perfil das vítimas
A capital acumulou 16.355 vítimas de acidentes de trânsito em 2025. A maior parte das vítimas tinha entre 18 e 29 anos, faixa etária que concentrou 6.685 registros. Os homens representam a maioria das vítimas, correspondendo a cerca de 71,6% dos casos.
Segundo Jaqueline, os homens ainda representam a maior parte dos condutores habilitados no Brasil — cerca de 60%, contra 40% de mulheres, em um universo de aproximadamente 85 milhões de motoristas.
Apesar disso, ela destaca que a presença feminina no trânsito vem crescendo nos últimos anos. “As mulheres estão saindo do lugar de passageiras e garupas e assumindo a condução dos veículos a cada dia”, afirmou a estudiosa.
‘A fiscalização tem sido frouxa’
Ambos os especialistas defendem mais fiscalização no trânsito. “Estamos vendo cada vez menos blitz no trânsito e, depois dos acidentes, surgem histórias de que o motorista ‘perdeu o freio’. Ninguém perde o freio; o problema é a má utilização ou a falta de manutenção dos veículos. Pneus carecas e veículos em más condições continuam circulando. A fiscalização tem sido frouxa e quem bebe e dirige assume o risco de matar”, disse Silvestre.
Ele também criticou a flexibilização para obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH). “Estamos vendo uma certa liberalização para tirar carteira de motorista, o que é ruim para a segurança, porque hoje se exige menos formação. É um contrassenso em um país com altos volumes de acidentes. O que deveria ter um nível elevado de exigência, por lidar com vidas humanas, está cada vez mais afrouxado”, afirmou.
Jaqueline também destaca a importância da educação para o trânsito.
“Sem sombra de dúvida, temos uma enorme defasagem nessa área. Se a educação é algo que vem de berço, precisamos implementar a educação para o trânsito desde os primeiros ensinamentos do cidadão, nas escolas e nas empresas. O Brasil precisa investir urgentemente nisso. Caso contrário, continuaremos apenas fazendo paliativos”, acrescentou.
A reportagem entrou em contato com prefeitura de BH, mas não recebeu posicionamento.
