Acidentes de trabalho matam pelo menos uma pessoa por dia em MG
Morte de trabalhador esmagado por caminhão-pipa em MG expõe realidade dura: já foram 187 óbitos registrados em 2026

Belo Horizonte – A morte de do trabalhador Herman Bittencourt, de 50 anos, esmagado por um caminhão-pipa desgovernado na Mina Casa de Pedra, em Congonhas, não é caso isolado. O acidente de trabalho na Região Central de Minas Gerais, no último domingo (21/6), é mais um retrato de uma realidade alarmante: pelo menos uma pessoa morre por dia no estado enquanto tenta ganhar a vida.
Só em 2026 já foram registrados 187 óbitos e mais de 21 mil trabalhadores ficaram feridos, um acidente a cada 11 minutos..
Segundo os bombeiros, no caso da mina o caminhão teria apresentado falha no sistema de frenagem, atingiu uma caminhonete e passou por cima do veículo, deixando a vítima presa às ferragens.
Os dados, com atualização mais recente em 11 de junho, constam no painel da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) e fazem parte do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), alimentado pelas notificações de acidentes de trabalho registradas pelas unidades de saúde.
“Os números mostram que os acidentes de trabalho continuam crescendo e isso é extremamente preocupante. No Brasil, já chegamos a registrar uma média de cerca de dez mortes por dia, quando anos atrás esse número girava em torno de sete. É uma realidade que deveria causar indignação, mas que acaba sendo naturalizada porque acontece de forma pulverizada, todos os dias”, disse o desembargador Marcelo Pertence, do Tribunal Regional do Trabalho (TRT-MG), e Gestor Regional do Programa Trabalho Seguro.
O desembargador alerta que acidentes diários recebem pouca atenção, o que é preocupante.
“Quando ocorre uma grande tragédia, como foi o caso de Brumadinho, onde 270 morreram, a comoção é imediata. Mas, diariamente, trabalhadores continuam morrendo ou ficando incapacitados em acidentes que recebem pouca atenção”, afirma o desembargador.
No início deste mês, outro trabalhador de 62 anos, que não teve a identidade revelada, morreu após despencar de uma altura de cerca de sete metros e ficar completamente imerso em um silo de serragem de uma fábrica de tijolos em Ribeirão das Neves, na Região Metropolitana da capital mineira.
O acidente aconteceu na madrugada de 7 de junho, enquanto a vítima realizava uma atividade na parte superior da estrutura, durante a madrugada.

Ribeirão das Neves aparece entre os municípios com mais mortes por acidentes de trabalho em Minas em 2026. O município registrou cinco mortes. O ranking é liderado por Belo Horizonte, com 17 óbitos, seguida por Contagem e Uberlândia, com oito registros cada. Betim, Itajubá e Uberaba aparecem logo depois, com seis mortes cada uma.
Um trabalhador ferido a cada 11 minutos
Se considerados os acidentes que não resultaram em morte, o cenário é ainda mais alarmante: o estado registrou 21.278 notificações de acidentes de trabalho — uma média de 131 ocorrências por dia, ou um trabalhador ferido a cada 11 minutos.
Em 16 de junho, os bombeiros atenderam um caso grave, no qual um trabalhador, que não teve a idade revelada, precisou ser resgatado pelos bombeiros após sofrer uma descarga elétrica enquanto prestava serviço em um posto de combustíveis às margens da BR-251, em Unaí, Noroeste de Minas. Após a eletrocussão, ele caiu sobre a estrutura onde trabalhava e ficou preso a cerca de cinco metros de altura.
Entre as ocupações com mais registros de acidentes de trabalho estão atividades ligadas ao trabalho manual, à operação de máquinas e à funções que exigem esforço físico constante.
Os maiores números foram registrados entre trabalhadores agropecuários (1.476 notificações), pedreiros (1.262) e alimentadores de linha de produção (865).
Também aparecem entre os grupos mais vulneráveis técnicos de enfermagem (643), faxineiros (642), serventes de obras (490), operadores de máquinas fixas (439), motoristas de caminhão (426) e soldadores (399).
O Perfil
Os homens representam 73,58% das vítimas de acidentes de trabalho no estado, segundo a SES-MG. Os casos também se concentram entre adultos em idade produtiva: a faixa de 20 a 29 anos lidera as notificações, seguida pelos grupos de 30 a 39 anos e de 40 a 49 anos.
Em relação à escolaridade, a maioria das vítimas tinha ensino médio completo (37,66%). Em seguida aparecem trabalhadores com ensino médio incompleto (17,12%), ensino fundamental incompleto (15,39%) e pessoas analfabetas (10,94%). “Infelizmente, ainda parece existir uma cultura de pouca valorização da vida de quem trabalha e produz riqueza para a sociedade”, explicou o desembargador.
Subnotificação
Os dados também mostram que a maior parte dos acidentes envolve trabalhadores inseridos formalmente no mercado. Entre as notificações, 12.942 eram de empregados com carteira assinada, número muito superior ao observado entre autônomos ou trabalhadores por conta própria (3.832 casos) e empregados sem registro (1.461 casos).
Contudo, o desembargador chama a atenção para a subnotificação desses casos. “Os trabalhadores com carteira assinada aparecem em maior número porque são justamente os casos que costumam ser notificados. Há uma subnotificação crônica dos acidentes de trabalho no Brasil, e os números reais certamente são muito maiores. Além disso, muitos acidentes envolvendo motociclistas, por exemplo, acabam sendo registrados apenas como acidentes de trânsito, e não como acidentes de trabalho, mesmo quando ocorrem durante o exercício da atividade profissional”, disse.
Segundo ele, os dados apresentados retratam os acidentes e adoecimentos físicos relacionados ao trabalho, mas não refletem totalmente os impactos da atividade profissional sobre a saúde mental.
“Além das atividades que impõem maior risco físico aos trabalhadores, há um outro problema que tem crescido de forma preocupante: o adoecimento mental relacionado ao trabalho. No ano passado, os transtornos mentais e comportamentais, como ansiedade, depressão e burnout, foram a principal causa de afastamentos pelo INSS”, alerta Marcelo Pertence.
O desembargador afirma que, em 2025, foram cerca de 540 mil benefícios concedidos em todo o país, um aumento de 15% em relação a 2024. “Isso demonstra que a precarização e a pressão no ambiente de trabalho não afetam apenas a integridade física do trabalhador, mas também sua saúde mental”, alerta.










