Liniker encerra o ano em estado de graça no Festival Estilo Brasil
No último show de 2025, a cantora transforma o palco em território de poesia, afeto e celebração coletiva
atualizado
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Liniker entrou em cena como quem sabe exatamente o peso e a beleza daquele momento. Não era apenas mais uma noite: era o último show do ano de uma travessia intensa chamada CAJU. Desde os primeiros minutos, o clima estava dado — a banda afiadíssima, o público completamente entregue e uma artista em plena conexão com obra, história e quem estava ali para ouvi-la.

A abertura com “Negona dos Olhos Terríveis” já deixou claro que o espetáculo seria conduzido em alto nível.
A banda — entrosada, precisa e cheia de personalidade — funcionava como um organismo vivo: cada músico com brilho próprio, mas sempre a serviço da canção.
O grupo de sopros, com destaque para a flauta em consonância delicada com os backing vocals, desenhava camadas que hipnotizavam a plateia.

Entre uma música e outra, Liniker falava com o público como quem conversa com gente próxima. Em um dos momentos mais marcantes da noite, ela agradeceu o carinho de Brasília e situou o show no tempo e no corpo.
“É uma honra poder voltar à cidade mais uma vez. Muito obrigada por lotarem esta casa. Este é um show muito importante pra gente porque hoje é o nosso último show do ano.”
A artista lembrou que foram 64 shows rodando o mundo desde a estreia de CAJU, e destacou o significado desse percurso para uma cantora, compositora, travesti preta brasileira que usa a palavra como ferramenta de existência.
A sequência romântica trouxe “Veludo Marrom” em versão intensa e apoteótica, seguida por “Papo de Edredom” e “Caju”, cantadas em coro por um público completamente entregue.
Liniker sorriu ao notar algo especial na plateia: muitas crianças. Agradeceu às famílias e foi direta ao ponto: “É importante que as crianças saibam que diversidade acontece aqui no palco, na rua, em todos os lugares”.
O discurso arrancou aplausos longos e emocionados.

Em “Me Ajude a Salvar os Domingos”, o show ganhou contornos ainda mais vibrantes, com direito a solos arrebatadores da baixista Ana Karina Sebastião e do trombone de Ed Trombone, dois dos momentos mais celebrados da noite.
Logo depois, Liniker abriu o coração ao falar sobre o saldo desse processo artístico: amadurecimento coletivo, coragem poética e a responsabilidade de existir e criar em um país que ainda mata pessoas LGBTQIA+ e pretas.
A poesia, como ela mesma disse, é onde ela se encontra — mesmo quando exige mais tato, mais escuta, mais mergulho.
O clima mudou de temperatura com “Psiu”, precedida por um pedido de atenção quase solene. O silêncio respeitoso da plateia abriu espaço para os solos de trompete de Filipe Aires e da backing vocal Ingrid Valentine, arrancando suspiros antes da explosão seguinte.
“Baby 95” encerrou a parte com um pagodão baiano contagiante, colocando todo mundo para dançar.
A reta final foi um desfile de potência e afeto. “Popstar” veio acompanhada de solos marcantes de Vitor Arantes no teclado e Sérgio Machado na bateria. Os backing vocals — carinhosamente chamados por Liniker de Black Dolphins (Lucas Samuel, Thaís Ribeiro, Paulo Zuckini e Ingrid Valentine) — foram ovacionados.
Em “Febre”, a encenação trouxe ainda mais dramaticidade ao palco.

Quando “Pote de Ouro” começou, não houve quem ficasse sentado. O público inteiro se levantou, e o solo de saxofone de Bira coroou um dos pontos mais altos do show.
Em seguida, Liniker apresentou “Charme”, tocada pela primeira vez ao vivo após o Tiny Desk Brasil, em clima de estreia íntima e celebrada.

O encerramento com “Deixa Estar” foi simbólico: várias crianças subiram ao palco, transformando o fim do show em uma imagem poderosa de futuro, diversidade e pertencimento.
Liniker saiu ovacionada, visivelmente emocionada, deixando no ar a sensação de missão cumprida. O último show do ano foi a confirmação de um momento histórico na carreira de uma artista que segue ampliando o alcance da música brasileira com poesia, coragem e verdade.

