Três corações acertados pela cultura do machismoConheça o enredo de violência e os personagens do caso ocorrido esta
semana em Minas, em que a vigilante Edvania é brutalmente agredida ao
tentar ajudar a delegada da Mulher, que apanhava do namorado
Mirelle Pinheiro e Daniel Ferreira, enviados
especiais a Três Corações (MG)
Três Corações (MG) - No último sábado (17/12), uma
cena bárbara de agressão contra uma mulher na cidade de Três Corações,
Minas Gerais, chocou os brasileiros. As imagens que rapidamente caíram
nas redes sociais mostram um recorte do que ocorreu naquela tarde.
Edvania Nayara Ferreira Rezende, 23 anos, fazia a segurança no clube
de sua cidade quando foi atacada com um bofetão no rosto, caiu no chão
e levou um violento chute na cabeça. O vídeo é forte e as imagens,
revoltantes, mas revelam apenas o desfecho de um processo degradante
de violência contra a mulher. Não uma. Todas. Naquele dia, aliás,
Edvania não foi a única vítima. Antes de ela ir ao chão, a namorada do
agressor já havia apanhado. Edvania testemunhou tudo. Viu quando Luiz
Felipe Neder Silva, 34, descrito pelos moradores da cidade como um
cara “problemático” e "esquentadinho", bateu no rosto de sua namorada.
Flagrou quando ele a puxou para dentro do carro pelos cabelos. E
atendeu ao pedido de socorro da vítima.
Ana Paula Kich Gontijo, 44, é titular da Delegacia de Mulher da
cidade. É ela quem dá voz de prisão para homens violentos que batem em
mulheres. Os colegas de trabalho disseram ao
Metrópoles que a delegada é uma boa profissional. No
sábado, ela apanhou de seu namorado. E não conseguiu impedir que ele
machucasse também a mulher que lhe estendeu a mão. A delegada fugiu da
cena do crime, sem ter, talvez, condições psicológicas, físicas ou
emocionais para se defender ou proteger Edvania. Em entrevista ao
Metrópoles, a vigilante disse que sente raiva da
atitude de Ana Paula. Não entende por que ela se esquivou. “Tenho mais
raiva dela do que dele”, desabafou. Mas Ana Paula também é vítima. E
esse é um caso emblemático da cultura do machismo, que parece não ser
novidade na cidade onde, diariamente, uma média de sete mulheres
denunciam seus companheiros à delegada. Além das duas mulheres,
descontrolado, Luiz Felipe ainda agrediu o caminhoneiro Enioberto José
de Jesus, que tentou ajudar Edvania. O homem perdeu dois dentes.
Ao explicar o que ocorreu aos repórteres, um amigo do caminhoneiro nos
dá, com sua fala simplória, sinais do tamanho do problema que ainda
temos de enfrentar. Escute o relato dele sobre o episódio:
Poucos se mobilizaram
Na cidade mineira, todos comentavam o caso, mas pareciam não se chocar
com a ação de Luiz Felipe, que está preso preventivamente por decisão
da Justiça. Considerado “brigão”, no dia em que agrediu Edvania, ele
se encontrou com a vítima na delegacia. E mesmo detido, não economizou
ironias. “Me chamou de guardinha de merda, segurança de merda e disse
que não ia dar nada para ele, pois a mulher dele era delegada”, contou
a vigilante.
Daniel Ferreira/Metrópoles
Na noite desta segunda (19), 40 moradores se reuniram em protesto na
praça principal pedindo justiça. Pouca gente se mobilizou em favor de
Edvania no município de quase 80 mil habitantes, localizado a 287 km
de Belo Horizonte, capital do estado.
Se esse fato não fosse filmado, o meu caso seria igual ao de tantas
outras mulheres. Não daria em nada.Edvania Nayara Ferreira Rezende
Edvania tenta voltar à rotina simples. Uma tarefa difícil, pelo menos
neste momento. A repercussão da agressão foi grande. Prova disso é
que, durante a entrevista concedida na casa em que mora com a mãe e
uma amiga, o celular da jovem segurança não parava de tocar. As
ligações e mensagens vinham do mundo todo.
Daniel Ferreira/Metrópoles
Daniel Ferreira/Metrópoles
Daniel Ferreira/Metrópoles
Daniel Ferreira/Metrópoles
Daniel Ferreira/Metrópoles
“Espero que isso se torne uma mensagem positiva, de coragem. Não me
arrependo do que fiz. Se eu voltar a presenciar qualquer outra cena de
covardia, vou agir da mesma forma”, contou. Ela ficará afastada do
trabalho por uma semana, mas não pensa em desistir da profissão. As
marcas da agressão foram cicatrizadas e o que restou, segundo ela, é
ainda mais força de vontade para continuar.
O caso
No sábado (17), Edvania, que estava há um mês no emprego, foi
convocada para trabalhar fazendo a segurança do clube. O expediente
começou às 8h e seguiria até as 18h. Ela disse que sairia no horário,
se não tivesse recebido o pedido para que aguardasse mais um pouco.
“Como algumas pessoas estavam na piscina, me pediram para ficar de
olho. Cerca de 20 minutos depois, ouvi os gritos. Ele (Luiz Felipe)
puxava a mulher pelos cabelos”, lembra. O episódio não durou mais do
que cinco minutos.
Testemunhas contam que Luiz Felipe chegou a colocar a delegada no
carro e sair com o veículo. No entanto, a mulher teria se jogado para
fora do automóvel, provocando ainda mais a ira do agressor. “Ela pegou
a chave do carro e me pediu para sumir. Nesse momento, ele veio falar
comigo. Dizia que tinha vergonha dela. Eu avisei que pedi reforço na
segurança e que chamaria a polícia se ele continuasse com a covardia.
Foi aí que ele me deu um soco. Naquele momento, pensei que tinha
quebrado a boca”, detalhou a vigilante. O ataque foi seguido de
pontapés. Só então, Luiz Felipe foi contido pelos populares. O
caminhoneiro Enioberto José de Jesus também levou um soco na boca
quando tentou separar os dois. "Quando caí no chão, veio uma força tão
grande, que mesmo sem saber se conseguiria levantar, queria falar com
ele, dizer que a justiça vai ser feita. No fim das contas, 10 pessoas
tiveram que me segurar. Foi Deus quem me ajudou", contou a vigilante.
Revolta
Edvania diz que poucas pessoas ofereceram ajuda a ela. “Talvez, se
alguém tivesse o segurado logo no começo, isso não teria acontecido”,
acredita. A postura da delegada também revoltou a agente de segurança.
A jovem disse que esperava uma atitude mais enérgica da policial. “Fui
ajudar e acabei virando vítima. Ela fugiu, me deixou sozinha com ele.
Eu tenho mais raiva dela”, destacou. A vigilante lembra que, durante a
sua infância e adolescência, nunca foi agredida pela mãe ou por
qualquer outra pessoa. Com apenas 1,60m, Edvania se mostra gigante ao
encarar os problemas. O pai faleceu enquanto a mãe estava grávida
dela. O irmão morreu 16 anos depois. Desde então, uma cuida da outra.
A renda da família vem da pensão, deixada pelo pai, e do salário
mínimo que recebe pelo trabalho de segurança. A casa de construção
simples é alugada.
Daniel Ferreira/Metrópoles
Edvania gosta de trabalhar. Mesmo jovem, já foi dona de uma
lanchonete. Há dois meses, ela entregou a parte que tinha na sociedade
e se arriscou em outras áreas. “Eu me encontrei nessa profissão.
Sonhava em ser policial, mas, com o tempo, fui desistindo. Agora,
quero me especializar cada vez mais para ser melhor no que faço”,
disse. Por causa da repercussão do vídeo, Edvania ganhou um curso de
segurança no Rio de Janeiro.
Não vou deixar que ele (Luiz Felipe) estrague o meu sonho. É isso
que gosto de fazer e vou continuar. A profissão é de risco, mas é o
que me completa. A frase que levo para minha vida é: não adianta ter
vontade se não tiver coragem.Edvania Nayara Ferreira Rezende
A delegada
Ana Paula Kich Gontijo chegou há nove anos em Três Corações. A
princípio, comandou a Delegacia de Narcóticos e, há cinco, está à
frente da Delegacia da Mulher.
Daniel Ferreira/Metrópoles
É respeitada e admirada pelos colegas de profissão. A reportagem
conversou com agentes, que não quiseram se identificar. Os policiais
descrevem Ana Paula como uma mulher dedicada e comprometida com o
trabalho. "Por dia, recebemos uma média de sete flagrantes de Maria da
Penha. Ela conduzia os casos com seriedade e já ajudou muita gente
aqui", disse uma servidora. A equipe é unânime em afirmar que Ana
Paula é uma das melhores delegadas que a especializada já teve. Ela
entrou de férias na última quarta-feira (14/12). Desde o episódio de
violência no clube, está proibida de dar entrevista pela corporação e
ficou reclusa em casa.
Daniel Ferreira/Metrópoles
"Ficamos sensibilizados quando vimos o vídeo. Porque não imaginávamos
que ele chegaria a esse ponto. Ficamos com dó dela", disse um policial
que atua na cidade.
O agressor
Ana Paula e Luiz Felipe namoram há um ano e dois meses. Amigos
próximos contam que, com o relacionamento, acreditavam que o vendedor
de tijolos iria se “endireitar”.
Arquivo pessoal
Policiais da cidade reconhecem que, desde criança, ele era
“problemático". "Sempre foi esquentado. Crescemos juntos. Chegou a ser
contratado como agente penitenciário em Belo Horizonte, mas foi
exonerado", relatou um policial. O motivo seria o fato de ele ter sido
flagrado com armas e drogas. O homem que agrediu Edvania, a delegada e
o caminhoneiro já foi preso em outra situação, por lesão corporal. Ele
teria agredido o filho de um juiz de Lambari, cidade vizinha. Em outro
caso, foi levado à delegacia acusado de associação ao tráfico de
drogas. Luiz Felipe tem pai, servidor aposentado da prefeitura de Três
Corações, e duas irmãs. A mãe morreu há cerca de três anos, vítima de
câncer. Amigos dizem que ele ficou “bastante transtornado” depois do
falecimento de dona Bia. A família dele é muito conhecida na cidade.
Arquivo pessoal
Ele já foi casado e tem um filho de 10 anos, que mora com a mãe em
Belo Horizonte. A ex-mulher trabalha na Federação Mineira de Futebol.
Os amigos dizem que “Felipe da Bia (nome da mãe)” é brincalhão, gosta
de sair e teve muitas namoradas na região. “Mas, quando ele bebe, se
transforma. Ninguém segura”, conta um deles. Talvez por isso, ele crê,
ninguém interferiu no episódio em que Luiz Felipe bateu na namorada e
em Edvania. Felipe e as duas irmãs foram criados efetivamente pelos
avós. Nos anos 1990, o rapaz formou um grupo chamado “Companhia da
cachaça”. Os integrantes eram conhecidos na região por serem brigões.
Por isso, “Felipe da Bia” virou “Felipe da Briga”. Os amigos tinham um
código, um assovio semelhante ao de um Bem-te-vi. Foi esse assovio,
inclusive, que ele fez no vídeo, após agredir a vigilante. Segundo os
amigos ouvidos pelo Metrópoles, era sinal de que ele
pedia ajuda, mas ninguém apareceu.
Enioberto José de Jesus, caminhoneiro, 30 anos, que também é sócio do
clube onde ocorreu o episódio de agressão, foi o único a interferir na
situação. "Na hora que eu vi ela (Edvania) caída e ele chutando a
cabeça dela, fiquei abismado. Todo mundo olhando e ninguém ajudou.
Tanto homem olhando". O caminhoneiro lembra que a todo momento pedia
para ele ficar calmo. "Ele passava a mão na cintura o tempo todo. Como
se estive armado. Dizia que não dava nada para ele porque a mulher era
delegada", confirmou.
Daniel Ferreira/Metrópoles
Daniel Ferreira/Metrópoles
Daniel Ferreira/Metrópoles
"Na delegacia, o advogado pediu para o delegado soltar o Felipe, mas o
próprio policial falou que não poderia fazer aquilo por conta da
repercussão da história. O vídeo já estava rodando na internet",
acrescentou o caminhoneiro. Luiz Felipe foi transferido, por questões
de segurança, para um presídio de Belo Horizonte. Ele deve responder
por lesão corporal e agressão a duas mulheres (Lei Maria da Penha).
Repercussão
O caso ocorrido em Três Corações repercutiu entre autoridades de
outros municípios. A Procuradoria Especial da Mulher do Senado
repudiou a ação de Luiz Felipe. “A circunstância mostra o grau de
extensão social da cultura machista que semeia a violência de gênero
em domínios privados e em domínios públicos, desafiando qualquer
autoridade que tente lhe conter, na casa ou na rua”, diz a nota. O
governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, também condenou o
episódio. Além de solidarizar com a vigilante Edvania, ele deu um dado
estarrecedor. “Como Edvania, que cumpria bravamente seu papel como
agente de segurança, cerca de 130 mil mulheres em Minas Gerais sofrem
com a violência de gênero”, disse.
A impunidade pela violência contra a mulher agrava os efeitos de
dita violência como mecanismo de controle dos homens sobre as
mulheres. Quando o Estado não responsabiliza os autores de atos de
violência e a sociedade tolera, expressa ou tacitamente, tal
violência, a impunidade não só estimula novos abusos, como também
transmite a mensagem de que a violência masculina contra a mulher é
aceitável, ou normalDiretrizes Nacionais Sobre Feminicídio da ONU Mulheres