A aviação civil se tornou mais democrática com o passar dos anos. A cada dia, mais pessoas têm acesso a esse meio de transporte, antes reservado apenas as elites.
Guilherme Waltenberg
Mas o sonho realizado, ao ser calcado na realidade de um mundo que
precisa lucrar, e que precisa ser regulamentado por governos para
tal, trouxe em si um novo obstáculo: o preço para encurtar essas
distâncias. Passagens custam. Deslocamentos custam. No Brasil esses
valores, desde a década de 2000, vêm caindo. Menos estado e mais
competição estatisticamente fizeram bem ao setor no país. Mas não
tão bem quanto em outras regiões do mundo.
Desde os anos 1980, Europa e Estados Unidos viram nascer um fenômeno
chamado "empresas low cost". Com serviços reduzidos, cadeiras
enxutas e o atrativo de tarifas abaixo da média, a aviação nesses
lugares vem se tornando o transporte de médias distâncias por
excelência. O Brasil também pode trilhar esse caminho. Mas há
desafio adiante. O Metrópoles, nesta reportagem
especial, vai recontar como foram os passos da aviação civil
brasileira. Embarque nesse voo pelas asas do passado rumo a um
futuro que guarda em si tantas esperanças como no passado também
guardou.
DESCOBRI QUE AS COISAS MUDAM E QUE TUDO É PEQUENO NAS ASAS DA PANAIR”Milton Nascimento“Entrar no avião era um luxo”, recorda Alcinda Monteiro, empresária aposentada de São Paulo. Sua primeira viagem de avião foi ainda nos anos 1960, de São Paulo para o Rio de Janeiro. Mesmo com o clima quente da Cidade Maravilhosa, usar ternos e saltos altos durante o trajeto eram a regra, assim como bandejas de prata, champagne e caviar. Excêntrico? Sim. E olha que nem faz tanto tempo assim. Até o fim dos anos 1980, a aviação civil não era um meio de transporte coletivo. Sua agilidade e rapidez eram parte do pacote. Mas o status marcava a tônica. Alcinda não se lembra do preço, apenas da empresa: Panair.
ANDAR DE AVIÃO ERA UM LUXO!”Alcinta Monteiro, empresáriaA associação entre status e aviação era tão forte no século passado que até mesmo o proprietário da extinta Transbrasil, Omar Fontana, herdeiro da Sadia, tinha uma frase célebre que até hoje amigos próximos repetem: “Aviação não dá dinheiro, mas dá um status”, comentava, segundo interlocutores. Foi nos anos 1990 que os primeiros sinais de mudança vieram. Um pacote que quebrou o monopólio das viagens para o exterior da Varig – então maior companhia aérea brasileira – foi revisto. Até então, o setor era altamente regulado e a concorrência não existia.
AVIAÇÃO NÃO DÁ DINHEIRO, MAS DÁ UM STATUS”Omar Fontana, proprietário da extinta TransbrasilFoi em 4 de setembro de 1990 que um novo personagem saiu das estradas do Centro-Oeste para tentar ganhar os ares do país e do mundo. Seu nome: Wagner Canhedo. O então empresário do ramo de transporte rodoviário foi o vencedor do leilão de privatização da Vasp, uma empresa estatal que pertencia ao governo do estado de São Paulo. Mais de dez anos após o fechamento da companhia aérea, o ex-proprietário de uma das maiores marcas do país ainda divide opiniões. Ex-auxiliares seus, que pedem para não serem identificados, são unânimes em dizer que ele trabalhava muito. Mas as confluências param por aí. Canhedo chegou no Centro-Oeste, saindo do interior de São Paulo, com uma pequena frota de caminhões no início da construção de Brasília. Apesar de ter estudado até os 12 anos e se aventurado por oficinas mecânicas, tomou gosto pelos negócios e rapidamente construiu um império. Com isso, desbancou nada menos que os proprietários da TAM e Transbrasil, duas empresas tradicionais da aviação, na concorrência pela Vasp. Na época, o mercado era altamente regulado pelo governo e as tarifas e rotas eram controladas pelo Estado. Havia muita dificuldade de novas empresas entrarem para esse ramo de atividade, que era caro e elitizado.
Os agentes de viagem adoravam o Canhedo, aplaudiam quando chegava. Especialmente logo que comprou a Vasp”Eduardo Sanovicz, presidente da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear)“Os agentes de viagem adoravam o Canhedo, aplaudiam quando chegava. Especialmente logo que comprou a Vasp”, conta. A intenção era clara: ampliar o número de passageiros e tentar desbancar a concorrência.
COMO UM CONCORDE APRESSADO CHEIO DE FORÇA VOA, VOA MAIS PESADO QUE O AR E O AVIÃO, O AVIÃO, AVIÃO DO TRABALHADOR"O RappaO ano de 2001 foi fundamental para a decolagem da aviação civil brasileira. Foi nesse ano que a portaria nº 248 do Ministério da Fazenda entrou em vigor. As tarifas aéreas, que antes eram controladas pelo governo, foram liberadas. A partir de então, as empresas puderam construir a sua própria política de preços. A medida foi polêmica, como lembra Cristian Vieira dos Reis, gerente de acompanhamento econômico da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). “Algumas pessoas diziam: vão autorizar o que as empresas quiserem? Rebatíamos dizendo que ia cair o preço. Diziam então: quem assegura? Hoje, passados 15 anos, verificamos que a tarifa caiu em torno da metade de 2001 para cá”, recorda. De fato, um levantamento da Anac mostra que a tarifa média caiu 53% entre 2002 e 2015, passando de um preço médio de R$ 616 o bilhete para R$ 289, descontada a inflação do período. Somado a isso, houve um incremento no volume de passageiros. Em 2002, eram transportados, em média, 30 milhões de pessoas por ano. Em 2014, foram aproximadamente 100 milhões.
ALGUMAS PESSOAS DIZIAM: VÃO AUTORIZAR O QUE AS EMPRESAS QUISEREM? REBATÍAMOS DIZENDO QUE IA CAIR O PREÇO. DIZIAM ENTÃO: QUEM ASSEGURA?”Cristian Vieira dos Reis, gerente de acompanhamento
econômico da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac)
RELAXA E GOZA"Marta SuplicyOs preços caíram e as rotas estavam liberadas. O número de passageiros, entre 2001 e 2006 aumentou de 38 milhões para 54 milhões, chegando em 117 milhões em 2015. Dessa forma, como lembra o professor Otto Nogami, apesar do aumento substancial na procura por voos, a infraestrutura que dava suporte ao sistema não cresceu igualmente. O volume de cancelamentos e atrasos aumentou vertiginosamente e o momento ficou conhecido como “caos” ou “apagão” aéreo.
O PRÓPRIO VOLUME DE VOOS ACABA EXIGINDO USO INTENSO DA INFRAESTRUTURA DE TERRA E, COMO NÃO HOUVE UMA MODERNIZAÇÃO NESSA ÁREA, COMEÇOU A POTENCIALIZAR O RISCO DE ACIDENTES”Otto Nogami, professor
Paralelamente, empresas como a Vasp e a Varig enfrentavam crises
profundas. Em 2005, por determinação judicial e atolada em dívidas, a
Vasp parou de voar. No ano seguinte, foi a vez da Varig. O
superintendente de serviços aéreos da Anac, Ricardo Catanant, avalia
que o buraco deixado por essas empresas influenciou negativamente a
aviação num primeiro momento. “A quebra de Varig e a luta para assumir
os espaços dela foi muito complexo para o setor. É um pacote de
coisas, não é uma coisa só (que gerou o caos)”, lembra. Ainda esse
ano, no entanto, um trágico acidente despertou toda a sociedade para
os riscos de ter um sistema aéreo desestruturado. Em 29 de setembro de
2006, um Boeing 737 da Gol que voava de Manaus para o Rio, com escala
em Brasília, teve a sua rota invadida por uma aeronave de uso privado.
Segundo o diretor do Sindicato Nacional dos Aeronautas (SNA), Carlos
Jason, alguns equipamentos da época eram deficientes na percepção de
aeronaves em alguns locais como o sobrevoo de florestas. Foram 154
mortos no acidente, que foi rigorosamente apurado pelo Ministério
Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT). O então procurador
Diaulas da Costa Ribeiro foi o responsável por conduzir o caso que
chamou a atenção do país.
Com o agravamento da crise aérea em 2007, a então ministra do Turismo
Marta Suplicy foi questionada sobre quais recomendações daria aos
usuários do transporte aéreo que podiam enfrentar atrasos e
cancelamentos. Sua resposta tornou-se icônica: “relaxa e goza”. Na
sequência, ações foram desenvolvidas para melhorar a formação dos
controladores de voo, como recorda Carlos Jason. “Os cursos foram se
adaptando à nova realidade e também houve mudanças no dia a dia deles,
com cargas de trabalho adaptadas ao estilo de trabalho”, avaliou. Por
outro lado, houve maior distribuição dos voos pelo território
nacional. “Quando começa a diminuir o intervalo entre voos, qualquer
problema na operação tem um efeito dominó em toda a rede nacional. Uma
solução na época foi a descentralização de alguns aeroportos, com a
criação de hubs regionais”, destacou Otto Nogami. O movimento deu
certo. Um estudo recente da Abear mostrou que a Copa do Mundo de 2014
e as Olimpíadas do Rio, em 2016, tiveram índices altos de
pontualidade: 91,2% e 94,8%, respectivamente.
SE CRESCER DEMAIS A DEMANDA COM A MELHORA DA ECONOMIA, NÃO TENHO SEGURANÇA QUE O SISTEMA ESTEJA TOTALMENTE ORGANIZADO”Otto Nogami
E O FUTURO É UMA ASTRONAVE QUE TENTAMOS PILOTAR"Vinicius de Moraes e ToquinhoA evolução que o setor experimentou na última década é o que o presidente da Abear, Eduardo Sanovicz, chama de “primeira parte da lição de casa”. Resta agora uma segunda parte, que inclui novas medidas polêmicas que prometem baratear as passagens e, caso sua previsão esteja certa, o país poderá registrar uma média de 200 milhões de passageiros transportados anualmente em até 10 anos. “Nós precisamos alinhar o Brasil às práticas que estão dando certo no mundo”, avaliou. Entre os pontos que ele destaca como fundamentais estão a revisão da obrigatoriedade de franquia de bagagens e a discussão em torno da cobrança de Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre o querosene de aviação – que varia entre 12% e 25% dependendo do estado. Além disso, especialistas da Anac colocam outra discussão como fundamental em um futuro próximo: a abertura do capital das empresas de aviação para investidores de outros países.
Na visão de analistas do setor, essa obrigatoriedade incide justamente
em um ponto que é caro aos passageiros: o preço. A rubrica “outros
custos operacionais”, na qual está inclusa a bagagem, responde por
cerca de 10% dos custos das aeronaves e, caso não houvesse essa
obrigatoriedade, poderia haver uma queda nos valores das passagens de
viajantes que optassem por não carregar malas.
O Brasil está na contramão do mundo no que tange a franquia de bagagem. Não há mercados médios que tenham uma regra semelhante”Jain Chaitan, diretor assistente para assuntos externos da Associação Internacional de Transportes Aéreos (Iata, na sigla em inglês)
É um prejuízo frontal ao consumidor e que só vai beneficiar as empresas aéreas”Marié Miranda, presidente da Comissão de Defesa do Consumidor
Na visão de Cristian Vieira dos Reis, gerente de acompanhamento
econômico da Anac, essa medida poderia favorecer, sobretudo, a aviação
regional. Ele destaca que as empresas em atuação no país buscam ter
frotas homogêneas para economizar na manutenção e no treinamento de
pessoal. Dessa forma, abrir um novo nicho implicaria tornar mais
complexo o negócio, além de demandar investimentos altos. “Ao redor do
mundo, será que não tem uma empresa ou investidor interessado em
investir em uma frota de turbo hélice para voos curtos?”, questiona.
“Essa limitação de capital estrangeiro inibe a entrada de investidores
com modelos de negócio diferentes daqueles já estabelecidos”,
prossegue. Na mesma linha, Otto Nogami ressalta que, por mais coerente
que possa parecer guardar uma reserva para o capital nacional em
setores como aviação e automobilismo, atualmente não há muita
disponibilidade de capital no país para esse tipo de investimento,
tomando como base o desenvolvimento das últimas décadas. “Se quisermos
manter a competitividade em benefício do usuário, a necessidade de
permitir capital estrangeiro nas aéreas é fundamental. Corremos o
risco de ficar defasados”, destacou. Algumas empresas, no entanto, se
colocam contrárias a abertura. Alguns dos argumentos é que seria
necessário haver pelo menos uma contrapartida dos países que pretendam
investir no Brasil, de modo que grupos nacionais também possam fazer o
mesmo tipo de operação nesses países. Dessa forma, nem Abear nem Iata
se pronunciam sobre o assunto.
SE QUISERMOS MANTER A COMPETITIVIDADE EM BENEFÍCIO DO USUÁRIO, A NECESSIDADE DE PERMITIR CAPITAL ESTRANGEIRO NAS AÉREAS É FUNDAMENTAL. CORREMOS O RISCO DE FICAR DEFASADOS”Otto Nogami