A cabine de um caminhão Scania R440 mede 3,61 metros. Andréia Damasceno, 33 anos, tem 1,58m de altura. Quando ela abre a porta e desce do veículo, de tênis rosa e cabelo comprido, não há quem deixe de prestar atenção à cena. Vinda de uma família de caminhoneiros, a profissional é a única mulher entre os três filhos de Íris e Vera. Da prole, somente Andréia abraçou a estrada e as carretas como meio de vida.
A reportagem encontrou Andréia em São Joaquim de Bicas, município a cerca de 40km da capital mineira, Belo Horizonte. É onde fica a garagem da transportadora Expresso TS, empregadora da motorista. Ela deixará seu veículo ali para ser encaminhado à revisão.
Para seguir viagem, a trabalhadora recebe as chaves de outro veículo, exatamente igual ao seu, e começa a mudança. São três mochilas, mala, cobertores, lençóis, travesseiros, tênis, chinelo, casaco, bandeira, capacete, macacão, luvas, botas e botina. O caminhão é a casa do caminhoneiro – e a maior parte do lar de Andréia é cor-de-rosa.
A Expresso TS tem histórico de contratar mulheres e já chegou a assinar a carteira de nove empregadas simultaneamente. Hoje, são quatro funcionárias na empresa. A diretoria enumera a vantagem da mão de obra feminina: elas são muito cuidadosas com o caminhão, mantêm tudo organizado, respeitam as leis de trânsito, são fiéis às regras da companhia, sabem lidar com os clientes e, principalmente, estão sempre atentas. “Porque quando se perde a prudência, o caminhão te mata”, explica Sebastião Campos, um dos sócios do negócio.
A equipe do Metrópoles segue com a caminhoneira até a porta de uma siderúrgica em Itaúna (MG). Lá, Andréia estaciona o caminhão para dormir. Ela fecha todas as cortinas, deita na cama e, se a internet deixar, conversa com parentes e amigos antes de pegar no sono. Cedinho, será a primeira a carregar a caçamba com ferro-gusa.
Entre os preparativos pré-descanso, ela conta que a família sempre teve contato com caminhões, mas hoje só um irmão é caminhoneiro como ela (dirige um veículo menor); o outro é diretor de escola. “Quando eu era pequena, o pai de uma amiga era caminhoneiro e a carreta dele parecia uma árvore de Natal, linda. Eu ficava encantada, pedia a chave emprestada só para ficar lá dentro”, lembra.
O primeiro contato com uma caminhoneira foi pelas páginas de uma revista, na qual era contada a história de Nahyra Schwanke – veja perfil a seguir. Andréia guarda o exemplar até hoje. Mas, quando uma amiga começou a namorar um caminhoneiro e ela os acompanhou em uma viagem, descobriu a rotina pesada da profissão, cheia de sacrifícios, e uma realidade bem distante do sonho de estar sem rumo na estrada.
“Até tentei estudar para tirar essa ideia da cabeça. Fiz curso técnico de metalurgia, me preparei para o vestibular, mas nunca fui muito de estudo. Era aluna malandra. Tentei trabalhar com outras coisas, mas o que eu queria mesmo era ser motorista. Queria a liberdade.”Andréia Damasceno, 33 anos
Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles
Lidar com a sujeira da carga é desafio: “A vaidade vai para o lixo, não consigo nem ficar muito tempo com a unha arrumada”
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Na hora de preparar a caçamba para receber a carga a ser transportada, motorista troca os tênis cor-de-rosa por um par de botinas
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A caminhoneira não foge do trabalho pesado: família sempre lidou com grandes veículos e Andréia sonhava, desde menina, assumir o volante de um desses gigantes das estradas
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Andréia se acomoda para dormir na boleia do caminhão: boa parte da decoração da “casa” móvel é cor-de-rosa
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Motorista se refresca: entre os colegas, seu QRA é Miss-tério; ela recebe muitos galanteios, mas reclama das dificuldades de manter um relacionamento por conta da profissão
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O Scania é a casa de Andréia, e ali ela dorme, come e faz a higiene pessoal. Por motivo de segurança, não abre a porta do veículo de madrugada e tem spray de pimenta sempre à mão
Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles
Detalhe dos calçados cor-de-rosa da motorista: para o futuro, ela sonha ter o seu próprio caminhão; além de flexibilidade para voltar para casa, em Barroso (MG), e partir quando bem entender
Andréia tentou estudar, prestar vestibular e deixar de lado o desejo de ganhar a vida ao volante, mas não teve jeito: “Esse amor pelo caminhão e pela estrada só pode ser doença, não tem explicação”
Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles
Chegada à siderúrgica em Itaúna (MG), onde Andréia Damasceno vai abastecer seu caminhão com ferro-gusa, a ser transportado até Resende (RJ)
Com 1,58m de altura e cabelos compridos, a caminhoneira chama a atenção ao desembarcar da cabine de sua Scania, que mede 3,61 metros
Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles
Cedinho, ela veste roupa de proteção para abastecer o veículo com ferro-gusa. Geralmente transporta também carvão e cal
Um dos primos de Andréia é dono de uma transportadora e resolveu dar chance ao sonho dela. Foi assim que a motorista começou no ramo: dirigindo um “cebolão”, como é conhecido o veículo que leva cimento em pó para construções. No início, eram só viagens curtas, com percurso de 30 quilômetros, até quatro vezes por dia.
A novata aprendeu tudo com um amigo, o Boi – assim apelidado pelos caminhoneiros. Um homem “das antigas”, experiente, que instruiu a aprendiz com toda a paciência do mundo, revelando os segredos da vida na estrada. Logo, a jovem mudou de empresa. Ainda conduzia o cebolão, mas as viagens ficaram mais longas.
Em setembro de 2017, em uma reviravolta na carreira, Andréia começou a trabalhar na TS com caçambas. Atualmente, transporta ferro-gusa, carvão e cal (este último, inflamável se entrar em contato com água). O maior desafio é lidar com a sujeira dos materiais e a lona, que precisa ser bem amarrada e é pesada. “A vaidade vai para o lixo, não consigo nem ficar muito tempo com a unha arrumada”, brinca.
QRA Miss-tério
Na manhã seguinte, às 6h30, a reportagem encontra Andréia já pronta para o novo dia. Ela veste macacão e equipamento de proteção a fim de retirar os arcos da caçamba, que dão estrutura à lona, e preparar o espaço para a carga. Vazio, o caminhão tem 17.380kg. Carregado, chega a 45 toneladas. Por conta do peso, a motorista viaja devagarzinho. Nas subidas, não ultrapassa os 40km/h. Nas descidas, limita-se a, no máximo, 80km/h.
Nas rodovias, o QRA de Andréia é Miss-tério. Ela é chamada pelos amigos de Miss TS por causa da transportadora. Uma colega considera um mistério a motorista ser tão alegre, de bem com a vida e despreocupada. Juntou-se tudo e nasceu o apelido de estrada da caminhoneira, mesmo ela não usando rádio – meio pelo qual os QRAs são popularizados –, pois sua empresa não permite o equipamento, e, além disso, a trabalhadora se incomoda com a quantidade de besteiras ditas pelos caminhoneiros.
Segundo Andréia, os colegas nunca lhe faltaram com o respeito, mas ela já cansou de ouvir cantadas. Buzinadas, então, nem se fala: a motorista não dá mais atenção. Mas, enquanto a equipe do Metrópoles a acompanhou pelas estradas mineiras, foram muitas as “manifestações” de outros caminhoneiros ao perceberem o veículo com uma mulher ao volante e outras duas ao seu lado, na boleia.
“Eles falam que acham a coisa mais linda quando desce uma mulher do caminhão gigante. Adoram pedir lugar na boleia. Mas, na hora que o relacionamento fica sério, na hora do ‘vamo ver’, dizem que lugar de mulher é em casa, que não pode viajar para não ficar longe da família”, reclama Andréia. Até entre as amigas que se casaram com caminhoneiros, conta, é difícil lidar com o machismo: a maioria só consegue viajar se for com o marido, cada um em seu caminhão, mas percorrendo a mesma rota juntos.
O problema é recorrente. “Ao fazerem história na emancipação da mulher e contribuírem, assim, para transformações sociais, dentro e fora do mercado, essas trabalhadoras sentem os impactos dessa profissão em seus relacionamentos”, analisa Luna Gonçalves da Silva. “Muitos foram os relatos [durante a pesquisa para seu doutorado] sobre divórcios, separações e conflitos conjugais devido à escolha e/ou necessidade em trabalhar com o caminhão”, conta a especialista.
Namorando há três meses um caminhoneiro da mesma transportadora, Andréia se diz pé no chão. Sabe bem como são os homens de sua profissão, como enxergam o papel da mulher e a dificuldade de manter um relacionamento quando os encontros dependem de as rotas coincidirem. Mesmo assim, gosta de ter quem se preocupe com ela. Quando está sozinha, dirigindo há horas, longe de casa, para a motorista é bom poder pensar em alguém que está pensando nela.
O maior medo de Andréia na estrada são os assaltos. “Se quiser roubar tudo, pode levar. O negócio é mexer comigo. Não gosto nem de pensar”, diz. Com a intenção de evitar se colocar em situação de risco, ela não abre a porta do veículo de madrugada de jeito algum. Se precisa parar à noite na hora de dormir, não sai do caminhão: ela leva até um penico a bordo para emergências e tem um spray de pimenta sempre à mão.
Para o futuro, Andréia tem dois desejos. O primeiro é ter o próprio caminhão. Muito apegada aos pais e à vida em cidade de interior (na mineira Barroso), da qual pode usufruir das benesses a cada 15 dias, ela gostaria também de ter mais flexibilidade de horário: ficar mais tempo em casa e ir embora quando quiser. Hoje, a profissional vive no meio-termo: ama a liberdade que a estrada oferece, mas sente falta da família. Quer ter filhos, porém não pensa em largar as andanças da profissão: “Esse amor pelo caminhão e pela estrada só pode ser doença, não tem explicação”.
