Rosalvo Streit Júnior passou a viver um inferno após fotos e vídeos dele publicados no Instagram virarem instrumento para a prática de crimes

Thalita Vasconcelos
30/03/2025 2:00

Sem que ele mesmo soubesse, o pediatra Rosalvo Streit Júnior, de 38 anos, virou Richards Carson Streit, um obstetra morando em Guadalajara, no México; John Steven Mason, integrante do Exército britânico em um campo de guerra na Síria; e Cole Benson, profissional de saúde do Corpo Médico do Exército Real do Reino Unido.

Os personagens se valeram da aparência de Rosalvo para seduzir mulheres e envolvê-las em tramas afetivas que culminaram em golpes financeiros. O médico, que mora no Distrito Federal, só descobriu que era um “estelionatário amoroso” quando as vítimas, cheias de raiva por terem sido enganadas, passaram a procurá-lo nas redes sociais.

Por meio de deepfakes – truques de inteligência artificial cada vez mais comuns e acessíveis –, a imagem do pediatra foi utilizada para causar prejuízos financeiros e emocionais em mulheres de diferentes países. Comunicando-se em inglês por meio de aplicativos de trocas de mensagem, Rosalvo fez juras de amor, pediu colaboração para causas humanitárias e até solicitou ajuda financeira para ser resgatado em uma zona de guerra.

O caso ganhou contornos de filme de terror quando o brasiliense se viu na mira do FBI — a Polícia Federal dos Estados Unidos —, sob suspeita de estar por trás de crimes que incluíam a participação em uma rede internacional de produção de pornografia infantil.

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Clique e veja: o que é deepfake?

O termo deepfake refere-se a conteúdos sintéticos (não reais), como áudios e imagens, produzidos com auxílio de inteligência artificial (IA). As deepfakes são geradas a partir de uma grande quantidade de arquivos reais de determinada pessoa, com o uso de um algoritmo de aprendizado de máquina (machine learning).

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O estelionato amoroso com uso de deepfake é uma combinação de fraude emocional com manipulação digital. Além das táticas usuais para ganhar a confiança das vítimas, os criminosos se valem da tecnologia para tornar o enredo de mentiras mais crível.

O golpe começa com a criação de perfis falsos em plataformas de namoro ou redes sociais. Nesse momento, são escolhidas imagens de pessoas com características físicas que possam atrair a vítima.

Após um match e algumas mensagens no direct, a vítima é levada a acreditar que está se envolvendo romanticamente com uma pessoa que, na verdade, não existe ou é diferente daquela apresentada no perfil falso.

Em seguida, o golpista começa a construir uma relação emocional com a vítima, cultivando a confiança dela e criando vínculos que, frequentemente, envolvem histórias de dificuldades ou situações dramáticas.

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Quando a vítima já está envolvida, o golpista anuncia uma emergência financeira ou pessoal. Caso as ordens não sejam cumpridas, o estelionatário pode constrangê-la com chantagens emocionais, sob a alegação de que teve a confiança traída, ou até ameaçá-la com a divulgação de fotos ou vídeos íntimos, manipulados ou obtidos no contexto do relacionamento.

Principais golpes com deepfake

O uso de deepfake tem sido explorado de várias formas para fins fraudulentos. Além do estelionato amoroso, os principais golpes associados a essa técnica são:

Golpes financeiros:

Imitação de voz: golpistas usam deepfake de áudio para imitar a voz de executivos, familiares ou outras pessoas de confiança, com o objetivo de levar as vítimas a transferirem grandes somas de dinheiro.

Golpes de investimentos: vídeos falsos de figuras públicas, como investidores famosos, são usados para promover esquemas fraudulentos, como pirâmides financeiras.

Golpes de extorsão (sextortion):

Criação de vídeos comprometedores: golpistas criam vídeos de conteúdo sexual falso, usando deepfake para colocar a imagem da vítima em situações comprometedoras. Em seguida, ameaçam divulgar esses vídeos, a menos que recebam um valor em dinheiro.

Fraudes em eleições e campanhas políticas:

Desinformação e manipulação de opinião pública: deepfakes são fabricadas para divulgar declarações falsas de políticos ou figuras públicas, distorcendo as palavras para influenciar eleitores ou desinformar a população.

Golpes de celebridades e influenciadores:

Falsificação de produtos ou promoções: deepfakes são usadas para criar vídeos falsos de celebridades ou influenciadores promovendo produtos ou serviços que eles nunca endossaram, levando fãs a caírem em fraudes.

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Os perfis falsos com imagens de Rosalvo começaram a aparecer em meados de 2018 e, quase simultaneamente, surgiram mulheres que o acusaram de estelionato amoroso. Ele foi procurado por vítimas – provenientes de países como Rússia, Colômbia, Argentina e Estados Unidos – que exigiam esclarecimentos após serem enganadas.

“Elas encontraram minha conta verdadeira e enviaram mensagens pedindo explicações. As mais agressivas afirmavam que eu seria preso pelo prejuízo causado, que o FBI iria atrás de mim”, relembra.

No começo, Rosalvo fazia questão de responder aos e-mails das vítimas. Explicava que, na verdade, alguém tinha usado as fotos dele, e orientava as mulheres a denunciarem os casos à polícia. No entanto, o esforço era inútil, pois o número de vítimas só aumentava.

“Eram muitas mulheres, com histórias distintas, de diversos países, afirmando que tinham se relacionado comigo”, conta o pediatra.

Veja mensagens de mulheres que denunciaram os golpistas ao médico

clique e entenda mais

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À época, o médico brasiliense procurou a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) para registrar uma ocorrência por uso indevido de imagem. “O delegado me disse que não podia fazer nada, porque se tratava de um crime fora do Brasil e não tinha como provar que eu estava sendo lesado por conta dos perfis falsos. Ao mesmo tempo, senti que essa rede criminosa estava cada vez mais perto de mim”, relembra.

A dependência emocional que algumas vítimas criavam com os personagens falsos também amedrontava o pediatra. Algumas ficaram mais de um ano tentando restabelecer contato com o namorado fake, ainda que Rosalvo garantisse que não era a pessoa com quem elas tinham se relacionado.

“Houve casos de mulheres que, para ter notícias minhas, enviaram mensagens ao perfil da barbearia que eu frequentava. Quando fiz um intercâmbio para estudar em uma faculdade no México, uma mulher que viu uma foto minha usando o moletom da universidade, pesquisou na internet o lugar onde eu estava e entrou em contato com a instituição para obter notícias”, conta o médico.

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Nos enredos fantasiosos inventados pelos golpistas, um detalhe verdadeiro se repetia: os perfis fakes de Rosalvo sempre se apresentavam como médicos. Ele acredita que a profissão era usada para dar credibilidade às mentiras.

“Na maioria dos golpes, eles aproveitavam a minha relação com a pediatria. Em prints de conversas que algumas dessas mulheres me mostraram, os criminosos pediam desculpa pela demora em responder, dizendo que estavam realizando partos. Em outros, solicitavam dinheiro para equipar hospitais carentes, alguns deles no Brasil.”

Rosalvo julga que foi uma presa fácil para os golpistas, pois usava as redes sociais como ferramenta de trabalho. Apenas no Instagram, ele reúne mais de 42 mil seguidores. O aprendizado da máquina para a criação de deepfakes se vale justamente da quantidade de material disponível sobre a pessoa para produzir as farsas.

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Em junho de 2024, seis anos após tomar conhecimento dos primeiros perfis falsos com sua imagem, Rosalvo viu a tensão e o aborrecimento provocados pelos personagens escalarem assustadoramente.

O pediatra estava em seu consultório quando recebeu uma intimação para prestar esclarecimentos na Delegacia de Repressão a Crimes Cibernéticos da Polícia Federal (PF) do Brasil.

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“Inicialmente, achei que fosse um trote, mas me enganei. Pesquisei informações sobre a delegada que havia me convocado e vi que o assunto era sério. Dessa vez, para minha surpresa, meu nome estava envolvido em uma investigação do FBI, em conjunto com a PF, sobre pedofilia. Foi como se eu estivesse vivendo um filme de terror”, revela.

 O FBI requisitou uma cooperação internacional com as autoridades policiais brasileiras para uma investigação que estava em curso nos Estados Unidos contra o pediatra. A suspeita era que o médico, por meio de apelos emocionais, estivesse coagindo mulheres a fazerem fotos de crianças nuas.

“A delegada da PF que me ouviu disse que havia duas mulheres presas nos EUA porque fotografaram as filhas delas, duas crianças, nuas, e colocaram o conteúdo na internet. Elas teriam sido seduzidas e coagidas por um golpista se passando por mim”, lembra o pediatra

Em depoimento ao FBI, uma das mulheres detidas contou que se relacionava com um fake de Rosalvo desde 2021. Segundo a investigada, ele morava na Carolina do Norte e era pediatra. O arquivo da investigação mostrava um mural na residência dela com diversas fotos do médico brasiliense e declarações de amor.

As investigações do FBI revelaram que um homem utilizou as imagens de Rosalvo para cometer crimes de pedofilia. O golpista apresentou fotos e vídeos manipulados para conquistar as vítimas. Em uma das imagens incluídas na investigação, Rosalvo aparece com um jaleco no qual estava escrito o nome do farsante: Anderson.

No depoimento à PF, ao se dar conta, mais uma vez, dos absurdos que estava vivendo, o médico desmontou: “Eu disse que também era uma vítima desse crime, que não tinha qualquer vínculo com esse bando. Mostrei todos os boletins de ocorrência registrados na polícia ao longo dos anos, os pedidos de ajuda às autoridades e todos os arquivos de perfis falsos e de mensagens de vítimas que recebi”.

Depois de registrar os esclarecimentos prestados pelo pediatra, a PF arquivou a notícia-crime instaurada, em razão da inexistência de delito a ser investigado. “Pelos elementos de informação até então colhidos, trata-se, a bem da verdade, de mais uma situação na qual o médico foi vítima da utilização indevida de sua imagem”, justificou a delegada responsável pelo caso.

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Rosalvo hoje vive com medo e tem inseguranças até para exercer sua profissão. Ele teme que uma das vítimas resolva se vingar ou que um dos criminosos surja para ameaçá-lo. Desde que a história sobre a produção de pornografia infantil veio à tona, ele deixou de fazer viagens internacionais, por exemplo.

“Os criminosos usavam fotos minhas com os meus sobrinhos para dizer que eram meus filhos, imagens de aniversário do meu pai. Nem o meu cachorro escapou: até fotos que postei dele foram parar nessas mensagens”, comenta.

Fizeram um vídeo em inglês, com a minha voz, para seduzir aquelas mulheres”

DECLARA ROSALVO

O pediatra também tem receio de que alguma vítima apareça no consultório dele. “Tenho medo de que essas mulheres prejudicadas apareçam de surpresa no meu local de trabalho. Por isso, desenvolvi crises de ansiedade a ponto de precisar me tratar com terapeutas e psiquiatras”, desabafa.

O médico acredita ser constantemente monitorado pelos criminosos que aplicam golpes usando a identidade dele. “Sinto-me vigiado. Eles sabem minhas marcas preferidas, lugares para onde viajei e roupas que gosto de usar. São pessoas que estudaram muito bem quem sou para passar veracidade nos perfis falsos. Tem até um vídeo que gravei para orientar as minhas pacientes e que foi tirado de contexto em manipulações de deepfake”, relata.

No vídeo original, postado em seu perfil, Rosalvo fornece orientações sobre como evitar o uso excessivo de telas por crianças. Já nas imagens manipuladas pelos golpistas mediante ferramentas de IA, o pediatra faz declarações de amor em inglês.

Vídeo original: “Quase não estou aparecendo por aqui, mas, olha só, essa é do consultório de hoje, achei muito interessante. Eu já tinha ouvido falar de mães e pais que têm problemas em controlar o uso excessivo de telas para crianças. Uma mãe me mostrou um aplicativo que se chama Family Link – e ela falou que não tem tempo, a vida é muito corrida, às vezes, os filhos ficam com os avós – e ela me falou que consegue controlar tudo do celular deles, inclusive o tempo que ela permite por dia.”

Vídeo adulterado (traduzido): “Olá, amor! Não deveria estar enviando vídeo, por questões de segurança, mas eu tinha que arriscar. Só queria que você me visse. Acabei de jantar e estou indo dormir. Te amo demais, baby.”

Compare:

Clique nos vídeos para ativar o som.

Original

Deepfake

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Em algumas versões, o fake que assumia a personalidade de Rosalvo dizia ser um profissional de saúde do Exército britânico que estava servindo na Síria.

O falso médico convencia as vítimas de que precisava de uma licença para sair da zona de guerra. Para ele obter o documento de liberação, no entanto, a vítima deveria ajudá-lo a pagar uma taxa. A promessa era que o reembolso do valor ocorreria assim que ele deixasse o conflito em segurança.

Com o objetivo de dar mais credibilidade à história, o golpista enviou à vítima uma identidade falsa do Exército britânico, bem como documentos manipulados digitalmente para mostrar que a licença dependia do pagamento de 3.080 libras – o equivalente a R$ 22 mil na cotação atual.

Mensagens enviadas pelo personagem John Steven Mason a uma das vítimas alegavam que ele estava em um acampamento chamado Camp Damascus – mesmo nome de um livro de ficção que se passa em um local de treinamento militar. 

À vítima o personagem dizia que não era permitido realizar ligações de áudio ou vídeo no local, pois eles lutavam diretamente contra a organização terrorista Estado Islâmico no Iraque e na Síria (Isis). A troca de mensagens à qual a reportagem teve acesso mostra que, em dado momento, John fala que a mulher o faz muito feliz. 

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Desconfiada da declaração repentina, a vítima pede que ele envie fotos da vida antes do Exército. Prontamente, o personagem envia 20 imagens de Rosalvo, incluindo a do cachorro dele. “Você é muito bonito. Lindo sorriso. O cão é fofo também”, elogia a mulher.

Quando a vítima encontra o perfil verdadeiro do médico brasileiro no Instagram, o golpista tenta amenizar as inseguranças dela, argumentando que leva uma vida dupla para enganar os terroristas. Ele também tenta deixá-la culpada pelas desconfianças.

Breno Esaki / Metrópoles

Criminosos manipularam imagens compartilhadas por Rosalvo nas redes sociais. Objetivo era aplicar "estelionatos amorosos"

Criminosos manipularam imagens compartilhadas por Rosalvo nas redes sociais. Objetivo era aplicar “estelionatos amorosos”
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“Pensei que você seria a mulher que me ajudaria, mas parece que a perdi. Só queria estar com você e começar uma vida nova, essa era a minha chance, mas agora acabou tudo. O que senti por você foi real. Quando as coisas ficam perigosas aqui, o Departamento de Segurança publica fotos minhas naquele perfil, para confundir os terroristas”, argumenta o personagem John, tentando se justificar.

Tentando sustentar suas mentiras, o golpista diz que a conta de Rosalvo é falsa, que foi criada pelo departamento de segurança para protegê-lo dos terroristas. Segundo o fake, revelar esse segredo era um risco que ele estava correndo para salvar o relacionamento dos dois. A mulher, no entanto, já não acreditava mais na história do fake e encaminhou todas as mensagens ao médico.

Camp Damasco, onde sirvo, é um campo muito hostil, onde fotos ou chamadas de rádio não são permitidas, porque enfrentamos diretamente o grupo ISIS. Nossos superiores encontraram uma maneira de tirá-los das nossas costas. Estou no sistema há 10 anos e vivemos vidas duplas como agentes infiltrados.

Aquele Instagram que você encontrou sou eu, e ele é operado pelo Departamento de Defesa (DOD). Tenho que aparentar viver outra vida no mundo real, para que, quando colocam um APO sobre minha cabeça aqui, os terroristas procurem uma pessoa falsa em outro mundo.

Eles pensaram que essa era a única coisa que poderiam fazer para nos tirar da mira, bem como nossas famílias.

Essa é uma das razões pelas quais não consegui ter minha própria vida, e eu planejava me aposentar e parar com tudo isso.

Achei que você seria essa mulher para mim, mas agora parece que a perdi.” Estou realmente arrependido se você se sentiu desapontada ou enganada. Nunca tive a intenção de causar nenhum mal. Eu só queria estar com você e recomeçar minha vida. Essa era a minha chance, mas agora se foi. Vou simplesmente voltar para minha concha e continuar com minha vida falsa e meu trabalho falso. Estou realmente e sinceramente arrependido, minha joia. Gostaria que você encontrasse um lugar no seu coração para me perdoar, porque o que senti por você foi real. ❤️

Todas as fotos daquela conta são tiradas por fotógrafos profissionais e, quando as coisas ficam realmente loucas aqui, com assassinatos, eles carregam uma ou duas fotos para confundir os terroristas. Tudo isso é apenas uma grande reviravolta em uma enorme teoria da conspiração.

Eu não queria te contar que não poderia enviar nenhuma foto porque você me deixaria se eu não pudesse. Por isso menti, e eu planejava contar tudo quando estivéssemos juntos.

O que senti por você foi real, e eu achava que você era a minha salvação de toda essa merda.

Mas agora eu te perdi.

Sei que você deve ter pesquisado muito online, mas tudo o que encontrou são mentiras criadas pelo DOD para nos proteger.

Eu não deveria estar te contando isso, mas estou disposto a arriscar tudo para salvar o que tenho por você.

Obrigado, minha joia.

Gostaria muito que você pudesse iluminar meu rosto com risadas novamente.

O Metrópoles localizou uma das vítimas enganadas pelas pessoas que usaram a imagem do médico. Ela é uma norte-americana, de meia-idade, residente no Texas. Emma (nome fictício) chegou a depositar mais de US$ 16 mil para o golpista que a enganou. No caso dela, o pedido de ajuda era para equipar um hospital infantil. Leia a história da vítima aqui.

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Segundo a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), a produção não autorizada de fotos ou vídeos por meio de IA para a prática de crimes resultou em 48 ocorrências em 2024. No ano anterior, foram registradas 21 ocorrências, ou seja, houve um aumento de 128%. Em 2022, apenas três casos tinham sido anotados.

O delegado Eduardo Del Fabbro, da Delegacia de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DRCC), da Polícia Civil do DF, atribui o crescimento dos casos à popularização da tecnologia. Os estelionatos amorosos são apenas uma das modalidades de cibercrimes. As narrativas mentirosas também são usadas para vendas de produtos, aplicações financeiras enganosas, pedidos de Pix, apostas on-line e pirâmides financeiras.

No caso dos estelionatos amorosos, o delegado chama a atenção para o poder destrutivo dos relacionamentos.

“Eles [golpistas] não vão parar enquanto a vítima tiver dinheiro. Eles vão fazê-la gastar todo o dinheiro que juntou, vão fazê-la vender imóveis, pegar empréstimos. Eles vão acabar com a vida financeira e mental dela. Imagine perder aquela pessoa que supostamente seria o amor da sua vida e, além disso, perder seu dinheiro também?”, comenta o delegado.

O delegado da DRCC destaca que as fraudes com uso de IA estão cada vez mais elaboradas. No entanto, alguns sinais podem ajudar a identificar deepfakes.

“O olhar da pessoa sempre fica fixo, ele não mexe. O movimento da boca é muito travado, não condiz com o que a pessoa está falando, não é normal. O tom de voz também não muda, é sempre o mesmo. Tem momentos que a fala também acelera e, do nada, freia bruscamente”, exemplifica.

Clique e veja: Quais as penas para uso indevido de imagem e fraude na internet

O direito de imagem é garantido pelo artigo 5º, inciso X, da Constituição Federal. A norma assegura indenização proporcional ao agravo quando há dano material ou moral à pessoa.

O artigo 20 do Código Civil disciplina o assunto, proibindo a exposição ou utilização da imagem de alguém sem autorização prévia, especialmente quando o uso compromete a honra, a boa fama, o respeito, ou é destinado a fins comerciais.

No caso de Rosalvo, além de as fotos terem sido utilizadas sem autorização, elas também serviram de ferramenta para que os golpistas cometessem crimes, ou seja, se os ladrões da imagem do médico forem descobertos, eles podem ser enquadrados no § 2º-A do artigo 171 do Código Penal.

Esse crime é chamado de fraude eletrônica e prevê pena de reclusão de 4 a 8 anos, além de multa.

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No início de 2025, Rosalvo e sua advogada, Camila Lopes Quaresma dos Santos, fizeram uma varredura online com o objetivo de verificar se havia perfis ativos usando a imagem do médico.

Com o uso de inteligência artificial, a dupla localizou seis perfis falsos que estavam sendo alimentados. Havia contas no Instagram, no X (antigo Twitter) e no Pinterest.

Os perfis encontrados no Pinterest foram considerados especialmente preocupantes, pois a plataforma funciona como um banco de imagens, possibilitando que criminosos encontrem ali fotos que poderão ser utilizadas na criação de novos personagens.

A advogada de Rosalvo explica que a estratégia para recuperar a imagem do médico e protegê-lo de novos ataques se divide em três frentes: civil, criminal e administrativa.

Ajuizamos ações para remoção dos perfis falsos, identificação dos responsáveis e imposição de medidas preventivas, além de representação na Delegacia de Crimes Cibernéticos e em autoridades internacionais, visando à proteção do cliente”

informa a advogada.

Em fevereiro, eles obtiveram uma decisão liminar favorável do Tribunal de Justiça do DF e dos Territórios (TJDFT). Os magistrados determinaram que as plataformas suspendessem os perfis falsos que usam a imagem de Rosalvo, estabelecendo multa diária de R$ 1 mil caso a ordem não fosse cumprida.

A Justiça também ordenou que as empresas apresentem todas as informações dos usuários envolvidos na criação de perfis falsos, incluindo registros de login, nomes, dados pessoais e endereços de IP.

A advogada salienta que a omissão das plataformas em relação a perfis falsos contribui para casos como o do médico. “A falta de controle sobre a veracidade dos perfis facilita a atuação dos criminosos, e a ausência de regulamentação específica para os crimes cibernéticos dificulta a responsabilização rápida dessas quadrilhas”, lamenta.

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O especialista em tecnologia e informação Alexandre Del Rey considera que, com o avanço da tecnologia, as ferramentas de manipulação de imagens se tornaram mais acessíveis e baratas. Hoje, qualquer pessoa com algum conhecimento técnico pode produzir conteúdos que, à primeira vista, parecem extremamente profissionais. “O lado ruim da democratização da tecnologia é que ela facilita a prática de golpes com emprego de deepfakes”, comenta ele, que é fundador da Associação Internacional de Inteligência Artificial (I2AI), entidade que se dedica a promover o conhecimento sobre IA.

“Pessoas com más intenções têm acesso a essas ferramentas e conseguem usá-las para aplicar golpes com uma facilidade que antes não existia. O criminoso digital pode criar áudios e vídeos manipulados de forma tão realista que, para o olho desatento, parecem completamente autênticos”, explica Del Rey, que também atua como professor e consultor.

De acordo com o especialista, a diferença entre uma voz gerada artificialmente e a de uma pessoa real é quase imperceptível. Isso também se aplica aos vídeos, que podem ser tão convincentes quanto os registros originais. O aprimoramento da tecnologia torna a detecção de fraudes cada vez mais difícil para o público em geral, que não possui as ferramentas adequadas para verificar a autenticidade do conteúdo. “Infelizmente, muitas pessoas nem sequer percebem que estão sendo enganadas”, lamenta Del Rey.

Quando uma imagem é postada online, ela pode ser facilmente copiada e compartilhada em múltiplos sites e plataformas, sem o consentimento do autor. Isso dificulta a preservação da autoria e dos direitos sobre imagem, bem como atrapalha o rastreamento dos culpados para uma possível responsabilização.

Além disso, o ambiente digital transcende fronteiras nacionais, e os criminosos frequentemente operam de um país para outro, o que impossibilita que uma única nação lide com a questão. Especialistas da Polícia Federal, que trabalham no Núcleo de Cooperação Internacional (NCI), consideram a proteção da identidade e da imagem pessoal uma batalha praticamente perdida nos tempos atuais.

“A dificuldade de localizar os criminosos virtuais e a facilidade com que as imagens são compartilhadas sem autorização permitem a prática de crimes em série, desafiando a nossa capacidade de repressão”, comenta o delegado da NCI, que terá sua identidade preservada, a pedido.

Os investigadores do NCI têm observado com preocupação o crescente uso de deepfakes em práticas ilícitas como a produção de pornografia infantil e a aplicação de fraudes financeiras. Segundo eles, embora os mecanismos de repressão a esses crimes cibernéticos estejam em constante aprimoramento, a criminalidade tem avançado com muita rapidez.

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Apesar de ter verificado diversos golpes em que sua imagem foi usada indevidamente e de ter denunciado para as autoridades competentes, Rosalvo continua refém de criminosos, pessoas que ele nem sequer sabe onde estão.

O médico se sente desamparado ao continuar testemunhando o surgimento de novas versões fakes dele mesmo. Para o pediatra, o pesadelo iniciado há sete anos ainda não acabou.

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