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No mundo bilionário da pirataria não existe espaço para amadores. Organizações criminosas chinesas alimentam o mercado da informalidade com toneladas de produtos falsificados. As mercadorias cruzam o Oceano Atlântico escondidas em contêineres e são despejadas nos portos brasileiros. De lá, são distribuídas para todas as regiões do país, inclusive para o Distrito Federal.

 
Rafaela Felicciano/Metrópoles
 

Em três meses de apuração, a reportagem do Metrópoles mapeou o caminho percorrido pelos produtos vendidos de forma irregular na Feira do Importados, o maior polo de itens piratas na capital da República. O esquema fraudulento envolve desde a emissão de notas frias usadas para esquentar as mercadorias até a criação de uma hierarquia que classifica os novos chefes da organização no Brasil. O mais importante, baseado em São Paulo, é chamado de Cabeça de Dragão. Em Brasília, o mandatário se escondia por trás de bancas de óculos e tênis falsificados.

Wu Zhaoxiao foi preso nesta terça-feira (29/9) em seu local de trabalho. A Operação Paraguai, desencadeada pela Polícia Civil, apreendeu material falsificado em 16 boxes. Durante a ação, 13 pessoas foram presas por pirataria e contrabando.

 
 

A Feira dos Importados, palco da operação, está nas mãos de uma cooperativa que representa 2,1 mil bancas. O centro comercial é avaliado em R$ 400 milhões – quase 10 vezes mais do que os R$ 47 milhões cobrados pela Terracap em 2009, por meio de licitação. O volume de dinheiro que circula pela feira acompanha a origem de grande parte dos produtos vendidos por lá: são desconhecidos. Mas, uma única banca chegaria a faturar R$ 100 mil por mês, segundo a direção da cooperativa.

 

Entre os mais de 100 mil itens comercializados na feira, muitos fogem ao cerco da Receita Federal. Pirateados, eles chegam em ônibus fretados que fazem a rota São Paulo – Brasília. O trajeto é perigoso e para garantir a chegada dos produtos, contam com o apoio de carros batedores conduzidos por policiais militares de Goiás.

Com um prejuízo estimado em R$ 100 bilhões por ano, o contrabando no Brasil é pouco combatido. No DF, não é diferente. Além de ações isoladas da Polícia Civil na Feira dos Importados, o esforço feito pelo governo é pulverizado em ações pontuais. Nem de perto elas enfraquecem os grandes donos do mercado pirata.

 
Rafaela Felicciano/Metrópoles
 

A   Feira dos Importados tem novos donos. Eles não falam português e muito menos têm traços latinos. Impondo uma política de medo e de ameaça, integrantes de uma máfia chinesa detêm aproximadamente 40% dos 2,1 mil boxes. Com grande poder econômico, os asiáticos pressionam comerciantes brasilienses a venderem seus pontos. Pagam até R$ 1,5 milhão, em dinheiro, por uma banca que custa R$ 700 mil.

 
 

O chinês preso nesta terça-feira (29/9) é um dos líderes dessa organização. Usa, na maioria das vezes, roupas claras e andava quase anônimo pelos corredores do complexo de compras. Wu Zhaoxiao tem 47 anos. Respeitado e temido pelos compatriotas, atuava como simples vendedor de óculos e tênis falsificados em dois boxes no Bloco A, estrategicamente localizados no coração da feira – o corredor principal.

 
Integrantes da máfia chinesa detêm aproximadamente 40% dos 2,1 mil boxes da feira
 

Zhaoxiao escondia uma função bem mais importante: era um dos coordenadores do esquema logístico do braço da organização criminosa na maior feira da capital. Era responsável pelas transações financeiras e pelo controle de chegada e distribuição dos chineses que desembarcam constantemente no DF.

O alto poder aquisitivo de Wu Zhaoxiao vai além das bancas que o asiático detém na Feira dos Importados. Carros importados, casa em condomínio fechado e apartamentos em Águas Claras são apenas alguns dos bens que foram identificados pela reportagem. O chinês mais poderoso da feira também possui uma sala no prédio comercial que fica localizado ao lado do complexo de vendas.

 

A filha mais velha do oriental ganhou um apartamento em Águas Claras de presente de casamento, há dois anos, quando engravidou do namorado. Para ficar perto da filha, Zhaoxiao comprou uma casa espaçosa em um condomínio fechado, no setor de chácaras Vicente Pires.

A residência, com dois pavimentos, tem estacionamento para, pelo menos, seis veículos. Os filhos do homem mais poderoso da Feira dos Importados estudam em colégios particulares. Outras duas filhas do chinês, de três e cinco anos, estudam no Lago Norte, em uma escola onde a mensalidade de um aluno chega a R$ 1,2 mil para o período integral.

Essa não é a primeira vez que Zhaoxiao é preso. Em outras três detenções, recebeu punições leves por crimes de sonegação de impostos e violação do direito de marcas. Foi solto ao pagar fiança. Agora, ele deve ficar atrás da grades. Além dos crimes anteriores, foi enquadrado por crime contra a ordem tributária e as relações de consumo. Cada um dos crimes prevê prisão de dois a cinco anos. Ele perdeu o direito de pagar fiança. A lei concede o benefício apenas para delitos com pena máxima estimada em até quatro anos de detenção.

 
 
Minjie Mao tem um patrimônio milionário que inclui uma bela casa e carros luxuosos
 

Apesar da importância na máfia chinesa, Zhaoxiao dividia a liderança da organização na Feira dos Importados com outros compatriotas. É o que revelou uma operação da Delegacia de Combate aos Crimes Contra a Propriedade Imaterial (Dcpim) em 19 de agosto no Bloco E do centro de bancas. Um desses líderes tem apenas 29 anos e possui um patrimônio milionário.

 

Minjie Mao teve R$ 3 milhões em mercadorias apreendidas, como capas, películas e acessórios para celulares. Nada tinha nota fiscal. Além das mercadorias contrabandeadas, Minjie teve seus carros luxuosos apreendidos – um Porsche e um Volvo. Ele mora em uma bela casa em Vicente Pires.

Depois que pagou R$ 25 mil de fiança e foi liberado, Minjie retornou para a feira e não demorou muito para reabrir suas lojas. De acordo com os comerciantes, ele costuma distribuir mercadoria sempre às terças-feiras pela manhã. “Encosta um caminhão e descarrega a mercadoria”, informou um proprietário de boxe que pediu anonimato.

 
 

“Xiao” e Minjie assumiram a cúpula da máfia depois da única grande operação desencadeada pela Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Deco) na Feira dos Importados, realizada em 2010. Na ocasião, o líder do esquema de contrabando internacional era Chen Baomin, que acabou substituído após ser preso. A saída dele foi a forma encontrada pela máfia para se manter viva e à sombra do anonimato.

O general do exército chinês da pirataria está a 1 mil quilômetros do DF e atende pelo nome de Mário Yê Sui Yong*. Baseado em São Paulo, o oriental comanda, em todo o Brasil, os braços do esquema criminoso que alimenta o comércio do contrabando e a venda de produtos falsificados no Brasil.

 

 

A   rota das mercadorias que saem da China para o Brasil é quase sempre a mesma: pelas águas do Oceano Atlântico. Armazenadas dentro de contêineres, são colocadas em navios que levam aproximadamente 30 dias para chegar ao país. Um dos pontos de descarga é o Porto de Santos (SP), o maior da América Latina. De lá, as mercadorias passam pelo batismo dos chefes da máfia na capital paulista e seguem para o Distrito Federal por diversos meios. Os principais são ônibus de sacoleiros e transportadoras. Além de procurarem caminhos alternativos para driblar a fiscalização, eles usam notas falsificadas para tentar legalizar as mercadorias contrabandeadas.

 
Michael Melo / Metrópoles
 

Dentro de um ônibus fretado, a reportagem do Metrópoles fez o perigoso trajeto dos sacoleiros até o principal polo de pirataria no Brasil: o Centro de São Paulo, onde estão a Rua 25 de Março e a Feira da Madrugada. Na ida, os viajantes percorrem os 1.008 quilômetros até a capital paulista com medo de quadrilhas especializadas em roubos nas rodovias. Na volta, ainda convivem com o receio de serem flagrados pelos agentes da Receita Federal. Na tentativa de diminuir os riscos, o valor da passagem inclui o pagamento extra de R$ 10 para policiais militares de Goiás, que fazem a escolta armada.

 
Daniel Ferreira/Metrópoles
 

A excursão sai sempre aos domingos e às quartas-feiras. Na concentração, em um posto de combustíveis no centro de Taguatinga, os passageiros recebem o número da poltrona e começam a se acomodar. A bagagem é pequena, já que a viagem dura 24 horas. O ônibus semi leito de cor azul, com 54 lugares, percorre a BR-040, que liga Brasília ao sudeste do país. Entre o Recanto das Emas e Valparaíso (GO), faz diversas paradas para pegar passageiros. A partir dali, o ônibus se une a uma caravana com outros três veículos, repletos de moradores da região de Goiás. Uma dupla de policiais à paisana faz a escolta em um carro particular. Um deles é apontado como integrante do Batalhão de Choque de Luziânia e outro, do batalhão de Água Fria em Goiás.

 

Na parada para o jantar, às 21h, brasileiros e chineses de vários ônibus se misturam no restaurante. Menos de duas horas depois, a viagem é retomada. Segue tranquila. A carismática Solange, uma das responsáveis pela excursão, puxa pedidos de proteção antes de todos caírem no sono. Conhece quase todos os passageiros e os chama pelo nome. Pede que todos ergam as poltronas e participem da oração. Depois de algumas palavras, um Pai Nosso e uma Ave Maria, ela dá boa-noite a todos. Troca o uniforme da agência de turismo e coloca uma roupa confortável. Estende um colchão no corredor do ônibus e, assim como todos os sacoleiros, dorme.

 
Michael Melo / Metrópoles
 

O despertar é pouco antes das 6h. Thiago, um rapaz novo e brincalhão, com 20 e poucos anos, que também participa da venda das passagens, anuncia que o ônibus está próximo da estação Armênia, do metrô de São Paulo. Alguns desembarcam ali mesmo. A maioria, no entanto, segue para a Feira da Madrugada. A correria para as compras é grande. O tempo é curto. Às 16h de segunda-feira, o ônibus segue de volta para Brasília.

 
 

Para acompanhar a rotina dos sacoleiros, a reportagem do Metrópoles permaneceu na capital paulista durante cinco dias. Na volta, o ônibus era outro: Fidelidade, assim como chama a empresa que faz a excursão. Estava sujo, pois havia saído de Brasília um dia antes. Das 52 poltronas, 32 estavam ocupadas com caixas de mercadorias. Eram encomendas de pessoas que não viajaram, mas pagaram para recebê-las em Brasília. O banheiro ficou interditado durante toda a viagem. Lá dentro, havia apenas caixas com mídias e alto-falantes. Cerca de seis toneladas de mercadorias lotaram o Fidelidade.

 

Michael Melo / Metrópoles
 

Cansados, os sacoleiros conversam pouco na volta. O assunto é só o medo da ação de assaltantes na estrada e o alívio por dois policiais fazerem a escolta. “Também tem a Receita (Federal). Essa vida é muito difícil, mas não sei fazer outra coisa”, lamenta um deles, pouco antes do sono coletivo.

A rota muda conforme são detectadas blitzen de fiscalização. Ao entrar em Goiás, começa o pinga-pinga de passageiros. Cada um desce em um ponto mais próximo de casa.

 
 

Caminho da mercadoria

São Paulo é uma das principais portas de entrada para as mercadorias falsificadas e contrabandeadas que chegam ao Brasil. No Porto de Santos, o movimento é sempre intenso. Chegam navios de todos os cantos do mundo. Em 21 de julho, o Metrópoles esteve no porto para acompanhar a rotina. Dois navios asiáticos faziam a descarga de mercadorias guardadas dentro de contêineres de aço.

 

Michael Melo / Metrópoles
 

Tucapel, um navio de carga da Libéria com capacidade para 1.694 contêineres, atracou às 13h daquele dia e começou a descarregar uma hora depois. Só terminaria no dia seguinte. “Esse aí vem cheio daquelas coisas da China. Mas a gente nunca vai saber o que tem no meio de tantas caixas. Já vimos entrar laranja, arma, lixo hospitalar. Mas é pouca fiscalização para tanta mercadoria. Fica difícil achar tudo de errado, né?”, relatou um funcionário do porto.

 
Michael Melo/Metrópoles
 

Uma fila de caminhões espera os navios para colocar os contêineres na caçamba. De lá, seguem para várias cidades, mas o principal destino é a capital paulista. Os motoristas recebem cerca de R$ 1 mil para atravessar com a carga por aproximadamente 80 quilômetros. Na Rua 25 de Março, principal ponto de descarga, grupos de homens ajudam a retirar caixas de dentro dos contêineres -- são mais de 1 mil embalagens. Pelo trabalho braçal, recebem cerca de R$ 40. Esta atividade é sempre feita após as 22h, quando não há movimento comercial nas ruas.

 

Depois de descarregadas em grandes depósitos, localizados em cima das lojas, as mercadorias são vendidas no próprio comércio ou distribuídas para cidades como Brasília. Chegam à capital do país principalmente por transportadoras ou ônibus de sacoleiros.

 
Michael Melo/Metrópoles
 

Chegada ao Porto de Santos

Navios capazes de carregar até 1.694 contêineres viajam durante 30 dias da China até o Brasil e descarregam toneladas de mercadorias no Porto de Santos, o maior da América Latina. Os produtos asiáticos desembarcam em grandes caixas que contêm desde brinquedos e acessórios a frutas e lixo hospitalar.

 

25 de março

Na calada da noite, caminhões levam os contêineres em caçambas até o principal centro de compras popular de São Paulo. Em frente a grandes lojas, homens ajudam a descarregar até 1 mil pacotes por noite. Pelo trabalho, recebem R$ 40.

 
 

Feira da Madrugada

Os ônibus que levam e trazem os sacoleiros param na região do Brás. Os vendedores aproveitam para se hospedar em hotéis do bairro, facilitando, assim, a compra e o armazenamento dos produtos. É deste local que os muambeiros partem, de volta, para as cidades de origem.

 
Michael Melo/Metrópoles

Posto em Valparaíso (GO)

Antes de ingressar no Distrito Federal, os ônibus com os sacoleiros param em um posto de combustível a poucos quilômetros da divisa. De lá, distribuem os produtos em veículos de pequeno porte. A intenção é não levantar suspeitas e despistar, assim, qualquer fiscalização.

 

A chegada na feira

Daniel Ferreira/ Metrópoles

Depois de viajar mais de mil quilômetros, os produtos chegam ao seu destino final: a Feira dos Importados. À luz do dia e sem qualquer receio, os feirantes recolhem os pacotes e ajudam a guardar os produtos em estoques.

 
 

Entre uma venda e outra de roupas falsificadas, um jovem também atende clientes interessados em outro tipo de comércio na Feira da Madrugada, em São Paulo: o de notas frias.

 
 
Por R$ 500 é possível ter acesso a notas frias que legitimam produtos que, em tese, valeriam R$ 5,3 mil
 

O centro de bancas é a primeira parada dos sacoleiros que desembarcam dos ônibus de excursão. A Feira da Madrugada fica no Bairro chamado Brás, no centro da cidade. O local é conhecido em São Paulo por ser um polo de vendas de roupas de qualidade inferior, a preços mais baixos.

 

Às 3h, a Feira da Madrugada já está com os boxes abertos. Quando a reportagem do Metrópoles acompanhou as atividades, em uma quinta-feira de julho, um jovem de camisa vermelha com aparência de 20 anos segurava duas folhas de papel plastificadas, apresentando modelos de roupas, e oferecia sua mercadoria a dois homens.

 
 
 
 

Um deles explicou que não estava interessado na roupa. Queria, na verdade, adquirir uma nota fiscal de R$ 5 mil. O comprador explicou que precisava transportar um carregamento de acessórios de aparelhos de telefonia móvel ao Distrito Federal e que temia ser pego pela Receita Federal.

A negociação, que foi gravada com uma câmera escondida, comprova um esquema de vendas de notas fiscais falsas. Tudo ocorreu a menos de 100 metros de uma equipe da Polícia Militar. Com desconfiança, o vendedor de notas falsas disse que o “escritório” – um quiosque de lanches rápidos - que fabrica as documentações só abriria por volta das 10h daquela quinta-feira.

Acompanhado de um comparsa, o vendedor de notas falsas pediu uma entrada de R$ 200 como sinal. “(...) R$ 200, né mano. Vai pagar do bolso dele (o intermediador das notas)”, explicou. “Depois cê (sic) dá o restante dos R$ 500”, afirmou. As imagens obtidas pelo Metrópoles mostram toda a negociação.

O outro jovem explicou como seria feito o processo de confecção da nota. Por causa do valor total (R$ 5 mil), elas seriam divididas em cinco notas. Estabeleceu um prazo: “Meio-dia, já está tudo pronto para vocês (sic)”.

A negociação foi retomada por volta das 13h. De volta à Feira da Madrugada, os dois compradores se encontraram com o rapaz de camisa vermelha. Com medo da polícia, o vendedor de notas falsas pede que os dois homens o acompanhem até uma lanchonete. Lá, ele explicou que atribuiu um valor de R$ 50 a cada peça que seria transportada até Brasília.

 
Michael Melo / Metrópoles
 

 

Ao ser perguntado se a nota era quente, respondeu de forma categórica: “O cara já tem uma firma. Entendeu? Aí ele tirou no CNPJ dele”, explicou o rapaz. Após entregar as notas aos supostos compradores, o comparsa pediu que fossem conferidas. Os comprovantes tinham valores diferentes: uma de R$ 305 e as demais de R$ 1 mil cada, totalizando R$ 5, 3 mil.

Durante a contagem do dinheiro, eles pareciam preocupados. Um deles ainda pediu mais R$ 50, um dinheiro para um cafezinho.

 
 

A maioria dos chineses que trabalham no DF é considerada do "baixo clero". Andam a pé, dormem amontoados em cubículos usados como depósito de mercadorias e vivem uma dura realidade, muito diferente da vida dos chineses que fizeram fortuna com a venda de produtos piratas no Distrito Federal. Eles fazem girar as engrenagens do mercado criminoso que abastece as bancas especializadas na venda de óculos, bolsas e tênis falsificados.

 
Daniel Ferreira/Metrópoles
 

Durante dois dias, a reportagem do Metrópoles acompanhou, de perto, a rotina de uma dessas famílias, que veio para o Brasil alimentada pela esperança de fazer dinheiro com o comércio ilegal. Não existem carros importados ou casas confortáveis em condomínios fechados no mundo desses chineses. Eles trabalham seis dias por semana e cumprem, em média, uma jornada de nove horas, em algum dos boxes comandados pelos compatriotas de maior poder aquisitivo.

 
 

A rotina é quase sempre a mesma para todas as famílias que vivem no Cruzeiro Novo. Muitos moram na região administrativa, que está a poucos metros da feira. As mulheres acordam cedo, deixam os filhos no Centro de Ensino Fundamental 01 – que fica bem próximo do complexo de compras – e seguem para o centro comercial atravessando uma passarela que cruza as movimentadas vias da Estrada Parque Indústria e Abastecimento (EPIA).

A família acompanhada pela reportagem vive há um ano em um dos blocos da quadra 605. A diferença para os outros moradores não está apenas na conversa em mandarim, que pode ser ouvida ainda no estacionamento do prédio. Os chineses economizam metade do aluguel do apartamento – cerca de R$ 1,5 mil - ocupando um dos depósitos que ficam no térreo dos prédios. Além do casal, três crianças – duas meninas e um adolescente - moram no cômodo de cerca de 15 metros quadrados.

 
Daniel Ferreira/Metrópoles
 

O zelador do prédio conta que dois dos três quartinhos estão ocupados por famílias chinesas. "Hoje em dia é difícil achar um desses quartos vazios. Todos estão sendo alugados pelos chineses", garantiu. Segundo o funcionário, a opção tem um motivo: os orientais estão comprando seus próprios lotes e construindo suas casas próprias.

 
 

A informação do zelador foi confirmada momentos depois. O chefe da família chinesa dirigiu rumo à Estrutural, sentido Taguatinga. Em um veículo tipo perua, abarrotado de mercadorias, o oriental entrou na Quadra 1 da Cidade Estrutural, em rua às margens da pista.

 
Daniel Ferreira/Metrópoles
 

Atrás de um grande portão de metal, a casa de dois pavimentos está em plena construção. Toda murada, não pode ser vista por quem caminha pela rua. Desconfiado, o chinês não circula pela Estrutural e passa todo o tempo na obra. O imóvel fica em um lote de, pelo menos, 200 metros quadrados. No primeiro pavimento, há uma garagem e um depósito. No andar de cima, pelo menos três quartos deverão ser ocupados pela família.



 
 

No início dos anos 1990, ambulantes vendiam produtos eletrônicos nas imediações do Estádio Mané Garrincha. Com a fiscalização, eles migraram para a Asa Sul, mais precisamente para a Quadra 503. Em 1997, o GDF decidiu fazer a transferência deles e de outros ambulantes que atuavam no centro de Brasília. Foram levados para o Setor de Indústria e Abastecimento (SIA). A então Feira do Paraguai se transformou na Feira dos Importados. O espaço possui 25 mil metros quadrados e está avaliado em, aproximadamente, R$ 400 milhões. A feira se tornou tão lucrativa que algumas bancas, a depender de sua localização, podem custar R$ 1 milhão.


 
 

Em 18 anos, ela só cresceu. Atualmente, há 2,1 mil boxes e, pelo menos, 8 mil pessoas trabalhando no espaço. Quase 10 anos depois da transferência da área central para o SIA, em 2009, o terreno foi comprado pela Cooperativa da Feira dos Importados (Cooperfim) por R$ 47 milhões. No acordo, os cooperados se comprometeram a pagar 120 parcelas à Terracap, mas só quitaram 73. O terreno está dividido em 48 lotes – as bancas estão em 36 deles. Outros 12 lotes estão localizados no Trecho 5, onde há quatro estacionamentos administrados por 80 cooperados.

Mais de 100 mil itens são vendidos na Feira dos Importados, segundo a cooperativa. A Cooperfim se esquiva quando o assunto é o lucro das bancas. Admite, porém, que algumas chegam a faturar R$ 100 mil por mês. Na época do Natal, o lucro aumenta em torno de 30%. Responsável pela Feira dos Importados, a Cooperfim já foi alvo de investigações e ações da Polícia Civil e do Ministério Público. Atualmente, a cooperativa está com os bens bloqueados a pedido do MP, por suspeitas de fraudes na administração do local.

 
 
 
 

R$ 47 milhões

foi o valor pago pela Cooperfim pelo terreno da feira.

Atualmente, ele é avaliado em

R$ 400 milhões

 
 

A Feira dos Importados funciona a 12 quilômetros do Congresso Nacional e a 7 quilômetros do Palácio do Buriti. Apesar da pouca distância das autoridades, o maior ponto de venda de produtos falsificados e contrabandeados do Distrito Federal não é alvo de combate às irregularidades. Além da ineficiência da fiscalização, faltam dados que ilustrem o volume de dinheiro movimentado por esse comércio. Em um jogo de empurra, nenhum órgão – local e federal – procurado pelo Metrópoles conseguiu esclarecer a dimensão dessas atividades.

Os mais prejudicados são o mercado formal e a indústria brasileira. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) participa das reuniões do Comitê Nacional de Combate à Pirataria, do Ministério da Justiça, e lamenta o avanço desse comércio no país. “A indústria compete com preço muito mais baixo do que o próprio custo e as marcas que investem para fortalecer os produtos veem a imagem prejudicada pela grande quantidade de falsificação. Além disso, a imagem do país se desgasta muito”, critica João Emílio Gonçalves, gerente-executivo de Política Industrial da CNI.

 
 

A Receita Federal estima que o prejuízo de tributos não recolhidos no país, só com os produtos apreendidos, seja de R$ 1 bilhão. Somente este ano, no DF, a Delegacia de Combate aos Crimes Contra a Propriedade Imaterial (DCPIM) apreendeu pelo menos 3 toneladas de produtos falsificados ou contrabandeados na Feira dos Importados.

Para tornar a punição mais severa, a delegada da unidade, Mônica Loureiro, tenta comprovar a existência de outros crimes relacionados, como os que incidem contra a saúde das pessoas - especialmente nos casos dos brinquedos e de óculos falsificados, que podem trazer malefícios para quem os utiliza. Segundo ela, a intenção é aumentar a pena dos envolvidos no comércio ilegal, tentando coibir, dessa forma, a atividade que assola a capital.

 
R$ 1 bilhão é o prejuízo de tributos não recolhidos estimado pela Receita Federal
 

 
 

(*) Atendendo determinação de tutela antecipada deferida nos autos do Processo 1067938-59.2018.8.26.0100, expedida pela 11ª Vara Cível do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, o Metrópoles esclarece que Mario Ye Sui Yong “não é investigado, acusado, réu ou condenado pelos crimes a ele atribuídos”. As acusações partiram de fontes ouvidas pela reportagem, entre eles policiais e sacoleiros. Atualização feita em 7/12/2018

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Direção de jornalismo

Lilian Tahan

Edição

Maria Eugênia e Priscilla Borges

coordenação

Fernando Braga

reportagem

Ary Filgueira, Kelly Almeida, Carlos Carone e Caroline Bchara

Fotografia

Michael Melo, Daniel Ferreira e Rafaela Felicciano

infográficos

Cicero Lopes

Edição de vídeo

Gabriel Ramos

direção de arte

gui prímola e marcos garcia

desenvolvimento

márcio amicci e Saulo Marques

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