


No Ibura, bairro na periferia do Recife (PE), não foi difícil descobrir onde o circo estava montado. Bastava seguir os passos das crianças. Elas surgiam de diferentes ruas do bairro. Desciam por becos estreitos cercados por casas amontoadas, atravessavam vielas, corriam pelo terreno esburacado e pulavam as poças de lama deixadas pela chuva da tarde.
Algumas carregavam os irmãos menores pelas mãos. Outras chegavam de bicicleta. Todas se moviam em direção à lona colorida e brilhante erguida em um terreno que, na maior parte do ano, permanece vazio.
Faltava uma hora para o início da sessão no Circo do Futuca. O público se espremia perto da entrada tentando observar os artistas. Sob a lona, os últimos ajustes eram feitos. Do lado de fora, a expectativa era parte do espetáculo.
Muitos meninos e meninas nunca tinham entrado em um circo. Outras crianças sabiam exatamente o que queriam ver: o Globo da Morte, os palhaços, as luzes. Perguntamos a um grupo com idades entre 10 e 13 anos qual era a importância do circo. A resposta veio rápida: “Diversão”.

Para muitas pessoas, o circo continua sendo uma das poucas oportunidades de assistir a um espetáculo ao vivo. Sem teatro, cinema, centro cultural ou programação artística regular, moradores de cidades do interior e de bairros periféricos encaram a chegada do circo e a montagem da lona como uma importante oportunidade cultural.
A operadora de caixa Rayane Pena, de 30 anos, segurava pela mão o filho Danilo, de 6 anos, minutos antes de entrarem no circo. O menino não conseguia esconder a ansiedade. Ela fez questão de levá-lo ao espetáculo por causa de suas próprias memórias afetivas: “Tem criança aqui que nunca saiu do bairro. Aí o circo chega e ela vê mágico, acrobata, palhaço, luz, música... Parece que abre a cabeça para outro mundo”.
O Brasil possui cerca de 700 circos itinerantes, segundo estimativas do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e da Fundação Nacional de Artes (Funarte). A pesquisa embasou o reconhecimento dos circos de tradição familiar como patrimônio cultural do país – uma iniciativa para proteger esse tipo de expressão artística e proporcionar uma vida mais digna aos profissionais circenses.
Responsável pelo dossiê que justificou esse processo de reconhecimento, Consuelo Vallandro destaca a necessidade de implementar políticas públicas que protejam a arte circense como manifestação popular.
“O circo itinerante é um patrimônio imaterial, cuja preservação depende das pessoas que carregam esse conhecimento e o transmitem de geração em geração. Sem condições para permanecer na estrada, muitas famílias estão deixando a atividade. A gente sabe que, se os circenses desaparecerem, todo esse legado, essa memória que faz parte da história do nosso país, também vai desaparecer”, aponta Vallandro.

Circos no brasil
Passe o mouse para ver as informações de cada região do paísApesar de estarem presentes no Brasil desde o início do século 19, os circos são uma espécie de patinho feio no mundo das artes. Praticamente não há políticas públicas que contemplem as especificidades da vida itinerante e/ou que promovam a sustentabilidade das companhias menores.
O cotidiano dos artistas costuma ser arriscado e sujeito a muitos imprevistos. Eles viajam em veículos velhos, trabalham pela subsistência e enfrentam dificuldades e preconceitos antes de anunciarem o próximo espetáculo.

No Brasil, a palavra circo serve como metáfora para afirmar que uma situação está fora da ordem. Da mesma forma, o termo palhaço é usado como ofensa, e o substantivo “palhaçada” serve a situações que envolvem mentiras, trapaças ou atitudes de mau gosto.
“Existe ainda aquela mitologia de que circo rouba criança, que circense é ladrão. Até mesmo institucionalmente, esse preconceito é forte. Acontece, algumas vezes, de o processo de instalação de um circo se tornar uma guerra com o governo, porque o circo precisa tirar o alvará e passar por uma série de trâmites burocráticos. Muitas gestões municipais criam uma série de entraves e, às vezes, chegam ao dono do circo e dizem: ‘Olha, a gente não quer circo nesta cidade’”, relata Consuelo Vallandro.
Durante duas semanas, a reportagem do Metrópoles percorreu nove cidades do Nordeste brasileiro para acompanhar a rotina de famílias circenses.
Viajamos cerca de 5 mil quilômetros por estradas da Bahia e de Pernambuco. Ao longo do percurso, conhecemos os circos Montevidéu, do Juquinha, Dharlley, Holiday, do Futuca, Alves, Real Estrelar e do Cheirozinho. Estivemos em Recife, Igarassu, Carpina, Chã de Cruz, Vitória de Santo Antão, Feira Nova, Feira de Santana, Conceição de Almeida e Nova Soure.
Em todas as paradas, presenciamos a dualidade entre o encantamento provocado pelos artistas e os perrengues que eles passam no caminho.


Entre lama, chuva e escuridão, a chegada do Circo Alves a Serra Grande, em Vitória de Santo Antão (PE), foi precedida por uma madrugada de muitas dificuldades na estrada de barro que leva ao assentamento.
Caminhões atolavam antes de alcançar o terreno onde a tenda de lona seria erguida. Em meio a motoristas acelerando no escuro, pneus afundando e ferragens cobertas de lama, Tita Alves acompanhava mais uma mudança como quem revive uma cena conhecida há décadas.
Para ela, a parte mais difícil da vida circense quase nunca acontece diante do público: acontece na estrada.
“O circo é a estrada. Ficamos o tempo todo nos movendo. Pegamos tanta estrada ruim... E somos obrigados a entrar em qualquer tipo de estrada. Dependemos das BRs para tudo.”
Aos 56 anos, ela conta que há meses em que o circo passa por três cidades diferentes. Tudo depende de caminhões funcionando e rodovias minimamente transitáveis. Segundo a artista, os veículos da companhia não representam conforto ou luxo. São casa e sustento.
Filha de um circense cigano com uma jovem sergipana que fugiu com o circo ainda adolescente, a artista cresceu neste universo. Quando criança, passava horas observando os ensaios dos artistas mais velhos. Foi o pai quem improvisou um pequeno arame preso à porta do trailer para que ela aprendesse equilíbrio brincando.

Décadas depois, a equilibrista virou uma das principais mestras do circo no Brasil. Tita hoje está à frente do Circo Alves, companhia familiar fundada há mais de 115 anos. Ao longo de mais de um século, o circo atravessou gerações, percorreu milhares de quilômetros no país e resistiu às transformações do entretenimento.
Além de equilibrista, Tita já foi trapezista, contorcionista, malabarista e hoje atua como mestre de cerimônias.
Enquanto relembra viagens e acidentes, fala sobre famílias que perderam tudo nas rodovias. “O circo parado é uma coisa, ele se locomovendo é outra. A gente depende de pneus, de estradas boas, porque andamos com nossas famílias, nossas casas nas costas.”
Tita explica que a sobrevivência sob a lona depende de uma capacidade constante de recomeçar. “Não conheço um povo que tenha tanta força de vontade quanto o povo do circo. Porque a gente pega época ruim, plano de governo, essas coisas... O povo do circo recomeça todos os dias. Todos os dias, tem uma lâmpada para mudar, um pau de roda para pintar, uma coisa para fazer.”
A capacidade de alguns indivíduos explorarem atributos como flexibilidade, destreza, força, equilíbrio e graça sempre despertou fascínio. Saiba mais sobre a história do circo:
As artes circenses, que envolvem malabarismo, equilibrismo, ilusionismo e teatro, são consideradas universais. Tanto no Ocidente como no Oriente, há documentação sobre manifestações artísticas que remontam a mais de 4 mil anos atrás. A palavra “circo” vem de Circus Maximus, arena romana usada em apresentações e competições por volta do século 6 a.C.
O circo, estruturado de maneira semelhante à que o conhecemos, surgiu na Inglaterra. Philip Astley, oficial da cavalaria inglesa, é considerado o “pai do circo moderno”. Ele abriu uma escola de equitação em Londres, em 1768, e começou a cobrar ingressos para que o público assistisse a espetáculos com cavalos. Em seguida, Astley incorporou contorcionistas, acrobatas e palhaços ao show.
O Circo Chiarini é considerado uma das primeiras companhias a excursionar pelo Brasil. Trazido pelo empresário e artista italiano Giuseppe Chiarini, o grupo realizou temporadas históricas no país entre 1869 e 1872. A trupe contava com uma megaestrutura para a época, que incluía 80 artistas, 40 cavalos e feras exóticas.
No século 19, a América Latina passou a fazer parte de turnês de circos europeus, principalmente italianos, portugueses e espanhóis. Muitos artistas se desgarraram da trupe original e passaram a criar companhias independentes, que atuavam como saltimbancos, apresentando-se de cidade em cidade. Com menos estrutura, eles exibiam seus espetáculos em feiras e praças públicas, sob lonas.

Apesar de ter atuado durante anos dentro do perigoso e radical Globo da Morte, não foi o temido clássico circense que impediu Islândio Augusto Cavalcanti, conhecido como Seu Landi, de 49 anos, de andar permanentemente. A paraplegia veio em 2001, após um acidente enquanto fazia a mudança do circo pelo interior de Minas Gerais.
“Foi um acidente engatando as carretas. Faltou manutenção nos macacos, que não estavam funcionando. Tentei fazer o que a gente de circo mais sabe fazer: improviso. E esse improviso não deu certo. A carreta caiu em cima de mim, lesionando minha medula”, lembra.
Com o circo Dharlley montado em Conceição de Almeida (BA), Seu Landi conta que, além de enfrentar o processo de recuperação física, precisou lidar com o impacto psicológico de aceitar que não conseguiria mais se apresentar no picadeiro. Ainda assim, abandonar o circo nunca foi uma possibilidade. Hoje, ele dirige veículos adaptados e acompanha a família pelas estradas do país.
Ele resume a permanência como uma forma de sobreviver emocionalmente ao próprio acidente: “O circo, além de trabalho e amor, virou terapia. A cadeira me limitou em muitas coisas, mas não fiquei parado”.
Em Feira Nova, no Agreste Pernambucano, Paloma e Ribamar Ribeiro ainda carregam na memória o pânico que tomou conta do ônibus da família em 2016. Eles atravessavam uma serra entre Pernambuco e Alagoas quando o veículo, que carregava estruturas do circo e puxava um trailer pesado, perdeu o freio.
Ribamar dirigia. Paloma estava sentada com as crianças quando percebeu o desespero do marido tentando controlar o volante. “Naquele instante, abracei meus filhos e entreguei nossa vida nas mãos de Deus.”

O ônibus atravessou a pista e tombou. Ferragens, cadeiras e pedaços da estrutura voaram dentro do veículo e atingiram os passageiros. Enquanto alguns motoristas paravam para ajudar, outros gravavam a cena com celulares.
A família ficou presa nos restos do veículo até a chegada de bombeiros e ambulâncias. Ninguém morreu, mas as marcas ficaram. Paloma sofreu uma fratura exposta no braço. Os dois filhos tiveram fraturas e escoriações pelo corpo. Ribamar saiu fisicamente ileso, embora a lembrança do acidente persista.
Sem condições de voltar imediatamente para o ofício e após perderem parte da estrutura do circo, eles passaram meses na casa de parentes, no Recife, tentando reconstruir a vida. Aos poucos, a família acabou deixando a vida itinerante. Hoje, Ribamar fabrica trailers para outros circos, e Paloma é dona de casa.

A artista Lethicia Nery, de 25 anos, contorcionista no Circo do Futuca, em Pernambuco, também fala das rodovias como quem descreve uma ameaça permanente. Nascida em família circense, ela cresceu dentro dos ônibus da companhia dos avós.
Em 2021, começou a ter sonhos recorrentes com acidentes, poucos dias antes de uma viagem.
“Tive dois sonhos seguidos com um ônibus tombando. Falei para minha mãe que estava muito agoniada com aquilo.”
Durante a mudança do circo, aconteceu. O ônibus perdeu estabilidade em uma estrada estreita e ficou praticamente suspenso à beira de uma ribanceira em 2021. Na confusão, alguém acreditou que uma árvore segurava a lateral do veículo. Mais tarde, descobriram que não havia árvore alguma, apenas um pequeno barranco prendendo uma das rodas.
Anos depois, a lembrança continua viva. Ela conta que passou muito tempo sem conseguir relaxar durante as viagens. Cada curva, freada ou trecho de serra trazia de volta a sensação daquele ônibus prestes a despencar.

A lona que acolhe
Se a estrada impõe dificuldades, ela também oferece um tipo de liberdade que ajudou a moldar a identidade do circo ao longo do tempo. Mais do que um espaço de trabalho, a lona sempre foi um lugar de acolhimento para pessoas que buscavam recomeçar a própria vida.
Segundo Consuelo Vallandro, essa característica permanece viva nos circos de tradição familiar. Durante a elaboração do dossiê, a equipe encontrou artistas que ingressaram nas companhias mesmo sem terem nascido no picadeiro, assim como pessoas com deficiência e integrantes da comunidade LGBTQIAPN+ que viram no circo uma oportunidade de pertencimento.
O levantamento recupera histórias como a de uma mulher trans, apresentada à época como transformista, que integrou o Circo Zanchettini três gerações atrás.
“Percebo que o circo segue sendo acolhedor. A gente conheceu muitos novos circenses agregados, que são aquelas pessoas que entram na companhia quando o circo passa pela cidade. Comparado ao que já foi o circo em termos de diversidade, claro que não é tanta, mas acho que ainda tem esse papel de abraçar pessoas que não se sentem felizes e não estão satisfeitas com a sua vida, e dar uma oportunidade de terem uma vida completamente nova”, explica Consuelo Vallandro.

Os acidentes também revelam outra realidade comum entre os circos itinerantes brasileiros: a dificuldade financeira. A maioria das trupes familiares trabalha sem folga de caixa: a renovação da frota e a manutenção dos veículos costumam ser gastos impensáveis.
Muitos ônibus, carretas e trailers usados pelas companhias são antigos e adaptados pelos próprios artistas.
“No circo, a gente vira Magaiver”, resume Pascoal Joaquim dos Santos Junior, conhecido como Palhaço Peninha, dono do Circo Real Estrelar, da Bahia, em referência ao personagem MacGyver, da série Profissão Perigo, famoso por improvisar soluções para sobreviver em situações extremas.

A frase, dita quase em tom de brincadeira, disfarça a rotina de riscos. Peninha conta que já atravessou estradas sem iluminação adequada, enfrentou panes mecânicas durante viagens e viu veículos operando no limite.
“Já viajei iluminando estrada com celular, porque o ônibus não tinha farol”, lembra o dono do Circo Real Estrelar.
Segundo os artistas, o alto custo de manutenção e a dificuldade de acesso a crédito fazem com que muitos veículos permaneçam rodando muito além do tempo ideal. Em pequenas companhias familiares, a bilheteria da semana precisa pagar alimentação, combustível, terreno, manutenção da lona e despesas emergenciais.
Quando sobra, o dinheiro quase sempre é usado para manter o circo funcionando na cidade seguinte. Trocar um ônibus, reformar uma carreta ou renovar equipamentos são projetos constantemente adiados.


Depois de enfrentar toda a logística de mudança, muitos circos chegam à próxima cidade sem saber se conseguirão sequer levantar a lona. Antes da estreia, começa outra maratona tão desgastante quanto a da viagem.
Para funcionar legalmente, as companhias itinerantes precisam apresentar laudos estruturais e elétricos assinados por engenheiros, obter o Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB), comprovar rotas de fuga, instalar extintores, obter alvarás temporários das prefeituras e atender às exigências da Vigilância Sanitária, o que inclui itens como banheiros adequados, sistema de descarte de lixo e condições mínimas de higiene.
Na prática, porém, os artistas afirmam que não existe um padrão: as exigências mudam de município para município e, em alguns casos, a trupe só descobre o que será cobrado depois de chegar ao local, o que dificulta a operação.
Daniel Henrique Fernandes, conhecido como Futuca, de 37 anos, cresceu acompanhando o calvário que precede o show. Filho de circenses, Daniel passou a infância em meio a negociações por terrenos vazios, visitas a prefeituras e pedidos de autorização em cidades do interior.

Hoje, além de se apresentar como palhaço, lidera a corrida burocrática que antecede as temporadas. “Cada prefeitura pede uma coisa diferente. Você chega cansado de viagem e ainda precisa correr atrás de documento, alvará, bombeiro, energia. Tem cidade em que o povo já está esperando o espetáculo, e a gente ainda está tentando conseguir autorização.”
Em muitos municípios, os artistas relatam desconfiança e preconceito. As dificuldades burocráticas que aparecem no meio do caminho são uma manifestação velada da discriminação das autoridades municipais contra os circenses.
Thuanny Fernandes, esposa de Futuca e arqueira da companhia, afirma que algumas prefeituras associam o circo a desordem, sujeira ou problemas urbanos.
“Muita gente ainda olha para o circo com preconceito. Tem lugar que recebe a gente superbem, mas também tem cidade onde parece que o circo incomoda. Alguns prefeitos acham que circo traz bagunça, sujeira, confusão. Só que ninguém vê o tanto de família que vive disso”, desabafa Thuanny.

A circense Maclaudia Fernandes de Souza, de 41 anos, relata que os pequenos circos costumam ser empurrados para áreas afastadas, distantes do centro e longe do público.
“Queremos entregar um espetáculo bonito e divertido, mas imagine montar perto de lixo e esgoto? O público não vai querer ir. Às vezes, andamos 500 quilômetros e o prefeito não deixa montar o circo. Então, temos que rodar mais 200 quilômetros. Já aconteceu de passarmos 15 dias viajando, porque as prefeituras não deixavam armar”, desabafa Maclaudia.

Faltavam poucos minutos para o início da sessão, em Feira de Santana (BA), quando Maclaudia começou a temer que o espetáculo do Circo Montevidéu precisasse ser cancelado naquela noite.
As cadeiras ainda estavam vazias. Do lado de fora, uma companhia maior disputava o público da cidade. Enquanto o carro de som seguia percorrendo as ruas numa última tentativa de atrair espectadores, os artistas esperavam.
Naquela noite, oito pessoas da mesma família dependiam da bilheteria para continuar viajando. O Circo Montevidéu é composto por ela, o marido, seus quatro filhos, o cunhado e a sobrinha.
Aos poucos, as pessoas começaram a chegar. Quando percebeu que haveria público suficiente para a sessão acontecer, Maclaudia se emocionou. Depois de tantos quilômetros na estrada, negativas de prefeituras e noites de incerteza, aquela plateia significava mais do que aplausos. Significava sobrevivência.
O dossiê preparado pelo Iphan e pela Funarte sobre o circo de tradição familiar no Brasil aponta os principais elementos dos espetáculos que percorrem o país:
Palhaços
Os palhaços são figuras estruturantes dos espetáculos circenses. Eles são herdeiros de diversas manifestações culturais, como os bobos da corte do período medieval europeu, ou os Hotxuá, uma espécie de xamã que cura por meio do riso, segundo a cultura indígena Krahô.
Uma esquete de palhaçaria bastante comum no circo tradicional brasileiro é o Táxi Maluco. Trata-se de uma apresentação cômica que envolve artistas em um carro antigo adaptado, que circula no picadeiro, apresenta falhas mecânicas e se desmonta de repente.
Malabaristas
O malabarismo envolve números que requerem coordenação motora, agilidade, equilíbrio e alta concentração. Trata-se de uma habilidade que envolve a manipulação e o lançamento de um ou mais objetos ao mesmo tempo, na maioria das vezes com uma ou ambas as mãos, embora também possam ser usados pés, cabeça ou outros objetos para os arremessos.
Espetáculo de Mágica
O espetáculo de mágica é um dos mais esperados. O artista realiza truques baseados em técnicas de ilusão, e usa seus conhecimentos e suas habilidades para criar uma aparência de sobrenaturalidade. Os mágicos no circo geralmente apresentam truques como desaparecimento e aparecimento, além de levitação e escape.
Globo da morte
O Globo da Morte é uma das mais populares atrações de circo. Dentro de uma jaula metálica em forma de esfera, motociclistas executam acrobacias simultaneamente. O número foi inventado na década de 1920 pelo americano Richard Stallings.
Animado, Alexandro Andrade Batista, marido de Maclaudia, decidiu fazer algo que não fazia há anos: voltar ao picadeiro como palhaço.
Já maquiado, entrou em cena ao lado do filho Wallace Souza Batista, de 20 anos, conhecido no circo como palhaço Chorinho. Pai e filho dividiram o palco em uma apresentação emocionante.

Maclaudia cresceu acompanhando as viagens dos avós pelo interior do país em pequenos circos itinerantes. Depois, viu a tradição seguir com a mãe, os tios e os irmãos. Foi justamente por meio deles que conheceu Alexandro, também nascido em família circense.

Filho de Maclaudia e Alexandre, Wallace diz que ama o circo, mas pondera pontos como as dificuldades relacionadas à educação formal e à manutenção de amizades na estrada. Diz que ama o circo, mas pondera pontos como as dificuldades relacionadas à educação formal e à manutenção de amizades na estrada.
A educação de crianças e adolescentes de famílias circenses itinerantes é garantida por legislações específicas, como a Lei nº 301/1948 e a Lei nº 6.533/1978, que determinam a matrícula obrigatória desses estudantes em escolas públicas e particulares, independentemente da época do ano letivo.
Pela legislação, escolas não podem impedir a matrícula por ausência imediata de histórico escolar ou outros documentos da instituição de origem, justamente por reconhecerem as dificuldades enfrentadas por famílias itinerantes. Mesmo assim, os artistas afirmam que obstáculos fazem parte da rotina.
"Às vezes, vou fazer matrícula e dizem que não tem vaga. Vou ao hospital e não querem nos atender, porque somos de outra região. Já briguei muito por isso”, relata Maclaudia, mãe de Wallace.

O palhaço Futuca, de Pernambuco, viveu trajetória parecida. Até concluir o ensino médio, estudou em mais de 200 escolas diferentes. Hoje, ao lado da mulher, Thuanny, ele se preocupa em garantir que o filho Dom, de apenas 1 ano, consiga crescer no circo sem perder o direito à educação.
“Tem diretor que questiona, que não quer aceitar. Mas, quando mostramos que conhecemos nossos direitos, normalmente, a situação muda”, diz Thuanny.

O palhaço Juquinha nasceu em Alexandria (RN), a 380 quilômetros de Natal, dentro de um circo, e soube ainda pequeno o que era chorar de fome. A mãe, fraca depois de dias sem se alimentar direito, quase não teve forças para trazê-lo ao mundo.
Naquele tempo, a vida no circo era ainda mais precária. Não havia maquiagem pronta, figurino bonito, estrutura. Ele conta que o preto dos olhos era feito com uma mistura de óleo de cozinha e fuligem de carvão. O branco do rosto era feito com pomada Minancora. "Isso é raiz de raiz", diz.
Aos 58 anos, com a lona montada em Chã de Cruz (PE), Juquinha ainda fala do circo como quem fala de destino. “É meu roçado, minha vida, de onde tiro meu sustento.” Foi ali que cresceu, criou cinco filhos e viu netos nascerem.
Mas a mesma lona que guarda a memória da família também esconde dores que o público nunca vê.

Em 1999, enquanto estava com o Circo do Juquinha entre Surubim e Bom Jardim, no Agreste Pernambucano, o artista se preparava para entrar em cena quando ouviu os gritos da esposa, vindos da barraca.
O filho pequeno, de apenas 2 anos, tinha acabado de morrer. O menino estava com uma infecção no intestino havia dias e, segundo o palhaço, estava “desenganado” pelos médicos.
“Senti a pancada, mas tinha que entrar, tinha que fazer meu trabalho”, lembra Juquinha.
Naquele momento, a dor disputava espaço com a sobrevivência. O palhaço pensou em entrar mesmo assim. Não por frieza, mas por desespero. A bilheteria daquela noite ajudaria a pagar o sepultamento da criança.
Foram amigos que impediram. Jogadores de futebol da região que sabiam da situação exigiram que ele tirasse a pintura do rosto e fosse viver o luto com a família. Assim, ele pôde chorar fora de cena.


Durante mais de 50 anos, o mágico Alakazam atravessou o Brasil levando um dos maiores circos itinerantes do país de cidade em cidade. Viveu décadas cercado por refletores, artistas e plateias lotadas. Hoje, aos 78 anos, passa os dias em uma granja simples, em Igarassu (PE).
O que restou de sua vida na estrada está concentrado em um antigo ônibus adaptado como trailer. Parado sob uma cobertura improvisada e escura de lona, sustentada por ferragens, o veículo carrega, na lataria desgastada, as marcas de décadas percorrendo rodovias brasileiras.
Ao redor, caixas plásticas, ferramentas, móveis antigos e objetos acumulados se espalham pelo chão de terra batida. Galinhas, patos e gatos circulam livremente pelo terreno cercado por coqueiros e fazem companhia ao velho mágico.
O homem que um dia comandou uma grande estrutura circense agora vive do auxílio pago pelo governo de Pernambuco após receber, em 2022, o título de Patrimônio Vivo do estado.
“Se não tivesse esse salário de Patrimônio Vivo, só com a aposentadoria ficaria muito difícil. Mais do que já é”, admite Alakazam.
O espaço é pequeno para quem passou a maior parte da vida sob lonas gigantescas. Ainda assim, Alakazam preserva uma característica que o circo nunca lhe permitiu perder: a vaidade.

Antes de a entrevista começar, ele se prepara como se estivesse prestes a entrar em cena: ajeita cuidadosamente o cabelo, escolhe a roupa que vai vestir e reclama da barba por fazer. Sentado diante do trailer que lhe serviu de casa durante boa parte da vida, pega um pequeno espelho e olha o próprio rosto com atenção.
Wilson Ribeiro da Silva nasceu em Surubim, no Agreste Pernambucano. Tinha apenas 10 anos quando viu um circo passar pela cidade e decidiu fugir com a companhia. Não avisou ninguém. Não deixou rastros. A mãe tentou procurá-lo, mas o grupo já estava longe havia dias. Sem notícia do filho, acreditou que ele estivesse morto.
Alakazam passou oito anos sem voltar para casa. Só reapareceu aos 18 anos, em uma noite de Natal.
“A velha chorou duas vezes. Chorou quando acendeu vela para mim, achando que eu tinha morrido, e chorou de alegria quando voltei.”

Dentro do circo, aprendeu cedo a sobreviver fazendo de tudo. Começou como contorcionista. Depois virou trapezista, equilibrista e artista de números duplos.
Em 1954, durante uma apresentação, caiu do trapézio. O acidente o deixou em coma durante 21 dias. Quando despertou, ouviu dos médicos que dificilmente conseguiria voltar aos números físicos.
Ser mágico acabou virando sua saída para continuar no circo. Estudou ilusionismo por correspondência na Escola Brasileira de Arte e Cultura, em São Paulo, e criou o personagem que o acompanharia pelo resto da vida.
Vieram, então, décadas de estrada. Décadas vivendo em movimento... Até a pandemia.
Com os espetáculos suspensos e a bilheteria zerada, o circo começou a desaparecer aos poucos. Quando as apresentações voltaram a ser permitidas, Alakazam percebeu que já não tinha forças para recomeçar tudo outra vez.
“Quando liberaram a volta das atividades, achei que não deveria mais [continuar], já cansado, já velho.” Então, começou a vender a própria história. “Fui vendendo globo, caminhão…”
Cada comprador levava uma parte diferente da estrutura. Aos poucos, o circo inteiro desapareceu. Um dos únicos itens que restou foi o velho trailer, estacionado na granja de Igarassu.

A história de Alakazam ajuda a revelar uma realidade comum entre artistas circenses brasileiros. Depois de anos cruzando estradas, formando público e levando espetáculos para cidades de todo o país, esses profissionais chegam à velhice com sérias dificuldades financeiras e sem conseguir acessar direitos previdenciários.
Segundo o pesquisador e conselheiro estadual de Cultura Circense da Bahia, Zaife Freitas, a própria natureza itinerante do circo contribui para esse cenário. “Muitos artistas envelhecem sem conseguir reunir toda a documentação necessária para comprovar anos de trabalho. São profissionais que passam a vida inteira produzindo cultura, mas que frequentemente ficam à margem dos mecanismos formais de proteção social”, explica.
A situação é resultado de uma estrutura construída ao longo de gerações.

Para Zaife, trata-se de uma contradição histórica. São pessoas que dedicaram a vida à arte, à circulação cultural e à preservação de um patrimônio importante da cultura popular brasileira. Contudo, chegam ao fim da vida profissional sem a segurança que deveria acompanhar uma extensa trajetória de trabalho árduo.
Além da dificuldade financeira, o que mais pesa para Alakazam é a ausência daquilo que deu sentido à própria vida. O mágico conta que, à noite, ainda sonha com o espetáculo começando. Imagina a bilheteria abrindo, o público entrando e o momento de atravessar a cortina para ouvir os aplausos outra vez.

Para Zaife Freitas, o reconhecimento do circo como Patrimônio Cultural do Brasil representa um avanço simbólico importante, mas ainda cercado de incertezas.
Segundo ele, a principal conquista está no fato de o Estado reconhecer oficialmente a importância histórica, artística e cultural do circo brasileiro. O registro também pode ampliar a visibilidade do setor, fortalecer a preservação dos saberes transmitidos entre gerações e abrir caminho para novas políticas públicas voltadas aos artistas itinerantes.

“Durante muito tempo, os artistas circenses ocuparam uma posição marginal nas políticas culturais, apesar do papel fundamental que desempenham na democratização do acesso à cultura em milhares de municípios”, aponta Zaife Freitas.
No entanto, Zaife alerta que o reconhecimento patrimonial, por si só, não garante melhorias concretas para quem vive do picadeiro. Questões históricas da categoria — como acesso à previdência, apoio à circulação, educação para crianças itinerantes e proteção social — continuam sem respostas definitivas.

“O risco é que o reconhecimento permaneça apenas no campo simbólico”, afirma.
O pesquisador lembra ainda que o circo desafia os modelos tradicionais de preservação cultural. Diferentemente de um prédio histórico ou de um monumento, o patrimônio circense não está em uma construção fixa, mas nos modos de vida, nos conhecimentos transmitidos dentro das famílias e na própria itinerância que caracteriza a atividade.
Por isso, segundo ele, o maior desafio daqui para frente será transformar o reconhecimento em políticas capazes de preservar não apenas a memória do circo, mas também as condições materiais necessárias para que ele continue existindo.








































