Construída em menos de quatro anos, longe do litoral, no coração do Cerrado, a inovadora Brasília foi decisiva para o desenvolvimento do Centro-Oeste e do Norte do país
Esqueceram das mulheres. Ninguém falou delas, não contaram o que elas
fizeram naqueles inesquecíveis anos duros. Mas a verdade é que elas
chegaram com os primeiros homens, os que vieram para edificar.
Instalaram-se em precários barracos de madeira sem portas ou janelas num
dos muitos acampamentos espalhados pela cidade. Caminhando por sendas
abertas a facão, dirigiam-se aos mercadinhos da Cidade Livre. Tinham
medo dos ratos enormes e das cobras que se insinuavam por todos os
cantos. Assustadora era a hora do parto. Para onde correr? Luziânia,
Formosa ou Planaltina? Para lavar a roupa, só mesmo ajoelhada à beira de
um córrego. E, depois, passar no ferro aquecido por brasas. No começo
dos começos, cozinhavam agachadas em torno de um fogão improvisado com
tijolos.
Mais adiante, a água, que inicialmente vinha das nascentes no cerrado,
passou a manar nos poços artesianos abertos no solo bruto. Num tempo sem
energia elétrica, imperavam as velas, os lampiões. Se perguntarmos às
pioneiras o que era o pior no meio de tantos piores, elas dirão que era
a poeira. A poeira vermelha que cobria tudo. Quando mergulhavam as
roupas sujas em uma bacia, o que vinha à tona era uma grossa camada de
nata vermelha. Bom mesmo para tirar a sujeira era ir para o meio do rio
e torcer as roupas por lá mesmo. Se iam a uma festa, as mulheres vestiam
uma guarda-pó por cima das roupas para não chegarem sujas ao seu
destino. Ao lado de seus maridos de botas enlameadas e chapéus de abas
largas, elas eram verdadeiras mocinhas de uma fita de faroeste.