Empresários, arquitetos, engenheiros e representantes do setor produtivo são unânimes em apontar que a ineficiência da Central de Aprovação de Projetos (CAP) do GDF tornou-se um entrave para o desenvolvimento do Distrito Federal
Ao falhar na fase mais básica do processo, o princípio, o governo
compromete toda a cadeia produtiva que gera desenvolvimento. Cenário
que já seria ruim em tempos de prosperidade torna-se devastador numa
época de crise econômica, em que o próprio GDF perdeu sua capacidade
de investimento.
As três letrinhas que resumem a Central de Aprovação de Projetos parecem
descomplicadas, mas falar em CAP para empresários é como soltar um
palavrão. Há uma unanimidade sobre a avaliação do órgão: tornou-se uma
convergência da burocracia no Distrito Federal. Antes, no entanto, de
dar voz às testemunhas dessa rotina baseada nos pilares da falta de
estrutura e das normas ultrapassadas, é preciso entender como funcionava
o sistema. A implementação da CAP, fisicamente localizada na área
central de Brasília, substituiu a antiga Diretoria de Análise e
Aprovação de Projetos (Diaap). O que antes era resolvido nas
administrações regionais passou a ser de responsabilidade da CAP. Em
tese, a centralização do processo deveria ser positiva, porque facilita
o acesso dos empresários e o controle das autoridades. Mas, na prática,
a mudança na dinâmica de aprovação das plantas não eliminou etapas, nem
diminuiu o tempo gasto. Todos os projetos protocolados na CAP são
analisados por uma das três diretorias existentes no órgão, que estudam
obras de grande, pequeno e de médio porte, além dos empreendimentos
públicos.
Em última instância, quem administra essa central é a Secretaria de
Gestão do Território e Habitação (Segeth). E o parâmetro de prazos e
regras estabelecidos para o serviço está detalhado em uma cartilha
oficial lançada pela Segeth. Lá, está dito que se leva 30 dias para a
análise do plano de obra. Após a entrega do processo para o empresário,
ele tem mais 30 dias para cumprir as exigências. Na matemática da
cartilha de aprovação de projetos, dois meses é a soma entre a análise
do plano de obra e os ajustes de engenheiros e arquitetos para o
empreendimento. Razoável. O problema é que esse ritmo está longe de ser
uma ciência exata. Entre idas e vindas, somam-se até 24 meses de demora
entre o dia do protocolo e o carimbo da liberação para a obra. Embora
empresários relatem com frequência prazos que chegam a dois anos de
espera, o secretário da Segeth, Thiago de Andrade, estima uma média de
oito meses para a aprovação dos projetos na CAP, tempo quatro vezes
maior que o proposto pela própria cartilha do GDF. Em entrevista ao
Metrópoles, o chefe da pasta admitiu que o sistema
ainda hoje funciona de forma "arcaica". O período estipulado pelo
secretário foi ultrapassado, e muito, no caso do engenheiro civil Renato
Dias. Ele é um dos sócios da Embre Engenharia e tem um lote de 55 mil m²
no Lago Sul, região mais valorizada de Brasília. O empresário espera a
liberação para construir no bairro há quatro anos.
Minha arquiteta vai à CAP uma vez por semana para acompanhar o andamento do processo e costuma sair do jeito que entrou, sem respostaRenato DiasUm dos sócios da Embre EngenhariaEle estima que, se o seu empreendimento já estivesse construído, estaria empregando 600 pessoas. "Esse é o preço da burocracia", adverte o engenheiro. No dia 13 de maio, a reportagem esteve em frente ao protocolo da CAP. Em meio período observando o movimento, o Metrópoles reuniu uma série de reclamações de empresários e de representantes das construtoras. O gestor imobiliário Erivaldo Ramos é um desses inconformados com a marcha lenta da CAP. Carregando um amontoado de documentos e sem conseguir estimar o número de visitas que já fez ao local, ele ansiava sair naquele 13 de maio com uma resposta positiva em relação aos projetos que representa (assista ao depoimento em vídeo).
Você acredita que eles demoraram quatro meses apenas para dizer que a cópia da minha carteira de identidade estava sem a autenticação?Erivaldo RamosGestor imobiliário
Se o governo fosse mais eficiente, imagina o tanto que esses projetos gerariam em impostos e em empregos?Alexandre MatiasFundador do grupo CygnusHá quase uma década no mercado do DF, a Construtora e Incorporadora Habitar teve que encolher 50% de seu tamanho em 2015. Com nove projetos parados na CAP, a empresa dispensou 150 funcionários.
Perdemos a capacidade de planejamento estratégico, não conseguimos prever minimamente nosso futuroCelestino FraconDiretor da HabitarO advogado e especialista em direito urbanístico Mateus Oliveira confirma que a construção civil é o principal motor de uma economia. Quando essa peça não funciona, toda a cadeia produtiva estaciona: "Tantos projetos parados levam a um resultado desastroso para a geração de empregos e na arrecadação de impostos".
Em pouco mais de um ano, o setor demitiu mais de 40 mil
pessoas
Os brasilienses sentem o reflexo dessa retração. A última pesquisa
divulgada em maio pelo governo, em parceria com Dieese e a Fundação
Seade, mostrou que a taxa de desemprego saltou de 14,1% em abril do ano
passado para 18,6% em abril deste ano. Nesse mesmo mês, o contingente de
desocupados foi estimado em 290 mil pessoas, oito mil a mais que no
período anterior. De janeiro de 2015 a fevereiro deste ano, a Associação
de Empresas do Mercado Imobiliário do Distrito Federal (Ademi) registrou
mais de 40 mil demissões no setor. "Temos 168 projetos dos nossos
associados estagnados na CAP, o que totaliza uma área ociosa de
2.765.155 m²", disse o presidente da Ademi, Paulo Muniz. A fatia
equivale a praticamente metade de todo o Distrito Federal. Segundo ele,
esse cenário representa uma perda de R$ 13 bilhões para as empresas. Um
desperdício que expõe duas vezes o governo da capital da República, por
não conseguir estimular o crescimento e por paralisar um setor pronto
para empreender.
As recorrentes denúncias de empresários e representantes do setor produtivo sobre a demora na análise e liberação de propostas pela Central de Aprovação de Projetos do GDF motivou o presidente do Tribunal de Contas local, Renato Rainha, a abrir uma inspeção na CAP
O Metrópoles iniciou nesta terça (21/6) uma série de
três reportagens revelando o desgaste do setor produtivo e o preço que
a população paga pela morosidade do GDF em estudar os projetos
arquitetônicos submetidos ao crivo oficial. Com exceção das casas,
todos os outros empreendimentos têm de passar pela análise do governo.
Na série
Dois candangos e uma cidade paralisada pela burocracia, o
portal mostrou que na capital da República menos de dois projetos são
aprovados, em média, por dia. Número muito inferior ao de outras
importantes capitais, como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.
No Distrito Federal, o próprio governo admite que se leva, no mínimo,
oito meses para a liberação de uma planta na Central de Aprovação de
Projetos (CAP). Mas empresários denunciam que esse tempo tem sido até
três vezes maior, chegando a dois anos de espera. É o caso do Torre
Palace, cuja proposta de reforma repousa nas mesas da CAP desde 2013.
Somente agora, em maio deste ano, quando o prédio já estava invadido,
houve o último andamento no processo. A Central recebeu, em 20 de
maio, um novo projeto com as exigências impostas pelo órgão. Agora, o
governo tem mais 30 dias, em tese, para proceder à análise e, quem
sabe, dar um desfecho para o prédio que virou um símbolo do descaso
bem no coração da capital federal. O ritmo arrastado da CAP é tão
evidente que entrou na mira dos órgãos de controle. Sem ter mais a
quem recorrer, empresários e representantes de empreendimentos na
cidade passaram a procurar o Tribunal de Contas do Distrito Federal
(TCDF) para denunciar os sucessivos e inexplicáveis atrasos na análise
e na aprovação das propostas pela Central. Resultado disso é que o
presidente do TCDF, Renato Rainha, decidiu abrir uma inspeção para
apurar a demora na aprovação dos projetos que tramitam na CAP. Promete
ele mesmo fazer uma batida na Central para entender o porquê de tantas
travas. “Tenho recebido, constantemente, queixas de empresários que
querem construir um negócio e esperam há mais de um ano por isso. É
vergonhoso”, apontou Rainha. O conselheiro chamou a atenção para o
fato de que o DF tem, proporcionalmente, o maior índice de desemprego
do país. Ou seja, não poderia se dar ao luxo de perder um posto de
trabalho, ainda que na iniciativa privada, para a burocracia estatal.
Tenho recebido, constantemente, queixas de empresários que querem construir um negócio e esperam há mais de um ano por isso. É vergonhosoRenato RainhaPresidente do Tribunal de Contas do Distrito Federal
Muitos empresários da capital do país estão construindo em outros estados porque não conseguem mais trabalhar no DFAlexandre MatiasFundador do grupo Cygnus
O ‘Rolla e Empurra’ falou que criaria essa central para facilitar as nossas vidas e aí você viu no que deu. Em três meses, registramos aqui no sindicato 45 rescisões de contratosElza KunzeDiretora Financeira do Sindicato dos Arquitetos do DF (Sinarq)Presidente da Associação de Empresas do Mercado Imobiliário do DF (Ademi) e um dos sócios da construtora Conbral, Paulo Muniz contou que, no ano passado, a empresa desistiu de alguns empreendimentos na capital federal por causa da burocracia. Ele chegou a devolver quatro terrenos para a Agência de Desenvolvimento do DF (Terracap). “Os projetos aguardam mais de dois anos para ter a aprovação na CAP. Antes, não esperávamos mais que 120 dias”, comparou. Há 23 anos no mercado, a empresária Karla Gomes Figueiredo, do escritório Gomes Figueiredo, avaliou que 2015 foi o pior ano para os negócios. “Tenho pelo menos 40 projetos que estão na CAP e a dificuldade de andamento deles reflete no nosso faturamento, porque parte da nossa renda depende da aprovação das propostas”, lamentou. Para Karla, a lentidão nas análises desaquece o mercado.
Ninguém tem coragem de comprar um terreno para esperar um ano e meio e, só depois, começar a construçãoKarla Gomes FigueiredoEmpresária
A criação da CAP foi uma receita caseira que o GDF adotou para aprovar projetos em menos tempo. A Central acabou inibindo os casos de corrupção, mas ainda não demonstrou eficiência. O ideal é a combinação de rigor com agilidade para fechar as brechas da ilegalidade Alexandre LinharesDelegado-chefe da Delegacia Especial de Repressão aos Crimes contra a Administração Pública (Decap)
Um dos episódios mais emblemáticos e que descortinou o esquema de
“troca de favores” no processo de obtenção de autorizações para
construir está no escopo da Operação Átrio, investigação que começou
em 2011 a pedido do Ministério Público do Distrito Federal e
Territórios (MPDFT). A ação foi liderada em 2014 pela Divisão Especial
de Repressão ao Crime Organizado (Deco). O escândalo levou para a
cadeia dois administradores regionais da época: Carlos Alberto Jales e
Carlos Sidney de Oliveira, de Taguatinga e de Águas Claras,
respectivamente. Além do empresário Luiz Bezerra e do
ex-vice-governador do DF Paulo Octávio. O grupo, segundo o MPDFT,
montou uma organização criminosa para conseguir a liberação de alvarás
de empreendimentos situados nas RAs citadas. Ainda de acordo com o
MPDFT, os envolvidos dificultaram as investigações. “Nossa perícia
constatou falhas e fraudes no projeto do JK Shopping. O poder público
se tornou complacente porque foi dado o habite-se mesmo com as
diferenças entre a construção e o projeto. Infelizmente, alguns
integrantes do poder judiciário ainda não perceberam a gravidade de se
manter uma obra dessas aberta, já que coloca em risco a segurança da
população. O MPDFT atuou desde o primeiro momento, mas as orientações
foram descumpridas por influência política”, denunciou Fabiano Mendes,
promotor da Promotoria de Justiça de Defesa do Patrimônio Público
Social (Prodep).
Oito ações relacionadas ao esquema desvendado pela Átrio foram
ajuizadas na 2ª Vara Criminal de Taguatinga. Atualmente, as
testemunhas de defesa são ouvidas pela Justiça. As audiências serão
retomadas neste mês de junho. O promotor afirmou que a expectativa é
concluir o caso até o final deste ano. O MPDFT segue pedindo a
interdição do centro de compras. Outro caso registrado em 2014
envolveu pessoas da confiança do ex-governador Agnelo Queiroz (PT-DF).
As investigações também compõem a Operação Átrio. Ilza Queiroz, mulher
de Agnelo e então primeira-dama do DF, foi flagrada negociando a
liberação de alvarás para uma clínica de oftalmologia em Taguatinga.
De acordo com as investigações, após três dias desde o pedido da
ex-primeira-dama, o estabelecimento conseguiu toda a documentação
necessária para funcionar. Na conversa interceptada em 1º de outubro
de 2014, Ilza disse ao administrador de Taguatinga: "Meu filho, quero
te pedir um favor. Vai abrir lá outra clínica de oftalmologia, e eles
deram entrada aí na administração por um alvará. E eu queria ver se
você podia agilizar." Mas quem não tem uma madrinha desse porte, aí
tem que enfrentar a dura saga das dezenas de empresários que penam
para ver seus projetos materializados.
Governo, empresários e arquitetos sugerem alternativas para transformar as pilhas de papéis amontoados nos gabinetes em metros quadrados de prosperidade no DF: aumentar o número de funcionários da Central de Aprovação de Projetos, melhorar a gestão do órgão e criar normas administrativas e jurídicas mais claras
Não dá para imaginar que todos os projetos de Brasília serão aprovados em um único lugar se esse espaço não estiver bem estruturadoAdalberto JúniorVice-presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil do DF (Sinduscon)O quadro de analistas da CAP dobrou desde março deste ano, passando de 27 para 54 técnicos. No entanto, até a segunda semana de maio, 10 funcionários ainda aguardavam nomeação para assumir seus postos. Além disso, os servidores estão em treinamento. Então, embora o contingente de analistas tenha crescido, os usuários da CAP ainda não sentiram a diferença.
Passamos 2015 e o começo deste ano fazendo uma revisão radical do código, que está no gabinete do governador para as análises jurídicasThiago de AndradeSecretário de Gestão do Território e Habitação (Segeth)O documento está precisamente na Subsecretaria de Políticas Públicas da Casa Civil, encarregada de analisá-lo e apontar sugestões para eventuais mudanças. Após esse trâmite, o conteúdo passa pelo crivo do governador Rodrigo Rollemberg. E aí, depois, segue para apreciação da Câmara Legislativa. Não há prazos para a conclusão dessas etapas.
Outra ideia emprestada da capital paulista é informatizar a análise de
projetos de até 1.500m² e de residências. Lá em São Paulo, o Habite-se e
a Licença de Funcionamento de Atividades também são emitidos pela
internet desde 2013, quando a Secretaria Municipal de Licenciamento
(SEL) foi criada. A descentralização de análises em São Paulo permite
que os projetos sejam aprovados em até 90 dias. Apenas empreendimentos
com mais de 1.500m² de área construída são avaliados pela SEL. As
subprefeituras se encarregam das edificações menores.
O que nós temos buscado, através da Ademi, do Sinduscon e da Associação dos Arquitetos daqui de Brasília, é simplificar a análise para que o arquiteto seja responsabilizado civilmente pelo projeto que faz. A secretaria verificaria apenas parâmetros urbanísticosKarla Gomes FigueiredoArquitetaHoje, os técnicos da CAP avaliam cerca de 260 itens para aprovar obras.
Levantamento da Segeth revela que é muito difícil concluir o processo de
aprovação e iniciar uma obra. Dos 100 projetos que dão entrada no
protocolo da CAP, apenas 8% conseguem os alvarás de construção. No caso
da emissão do Habite-se, o número é ainda menor: 4%.
Para tornar viável o licenciamento unificado, o governo estuda a criação
do Sistema Eletrônico de Informação (SEI). A ferramenta também é usada
em São Paulo. O serviço deve funcionar, segundo a Segeth, a partir de
agosto deste ano. “Já estamos em fase de testes. Temos um bom
intercâmbio com outras prefeituras do país. Muitas conseguiram
desburocratizar o sistema”, disse o secretário.