
Doença fatal e pouco conhecida avança no Brasil
A paracoccidioidomicose é uma infecção sistêmica provocada por um fungo que vive no solo. O micro-organismo se instala no pulmão e, se não for controlado, leva o paciente à morte
Durante quatro anos, o corpo de Antônio Rodrigues Joaquim, de 62 anos, foi um enigma para os médicos. O primeiro sinal de que algo estava errado surgiu em 2020, quando ele emagreceu 30 quilos em decorrência de uma gripe. Dali em diante, o técnico da informação passou por muitas idas e vindas a hospitais com diferentes sintomas, como falta de ar, dificuldade para engolir e dores abdominais. “Achei que iria morrer”, lembra.
Antônio recebeu diagnósticos de Doença de Addison, câncer de rim e câncer de próstata - todos relacionados à paracoccidioidomicose (PCM). Nenhum dos tratamentos propostos surtia efeito e, a cada dia, ele sentia o corpo se deteriorar um pouco mais. Apenas no fim de 2024, uma biópsia realizada em um caroço retirado do testículo revelou que o técnico agrícola tinha paracoccidioidomicose.
Micose é um termo genérico para designar infecções causadas por fungos. Nesse caso, o patógeno é o Paracoccidioides, popularmente conhecido como paracoco. Diferentemente da maioria das micoses, que se manifestam na pele e são tratadas de maneira tópica, a paracoccidioidomicose se desenvolve no pulmão, após o fungo ser aspirado, e pode custar a vida do paciente. A paracoccidioidomicose é a micose sistêmica que mais mata no Brasil.
A infecção é chamada sistêmica porque, a partir do pulmão, dissemina-se para gânglios, mucosas, cérebro, ossos e órgãos genitais - quanto mais tempo sem diagnóstico, maior é o estrago provocado pelo fungo.
Inimigo invisível
O Paracoccidioides sobrevive no solo e é invisível a olho nu. O contágio ocorre quando a terra é revolvida: o paracoco fica suspenso no ar e, então, é inalado. Não se sabe em que profundidade o fungo está, mas o habitat dele não é superficial. Por suas características de transmissão, a paracoccidioidomicose atinge, sobretudo, quem trabalha em contato direto com a terra, como agricultores, garimpeiros e trabalhadores da construção civil.
O Brasil é o país com a maior incidência de infecções por Paracoccidioides no mundo: são cerca de quatro casos por ano para cada grupo de 100 mil habitantes. A taxa de mortalidade é de 1,5 para cada 1 milhão. A comunidade científica acredita, no entanto, que o alcance é muito maior, uma vez que a PCM não está na Lista Nacional de Notificação Compulsória, do Ministério da Saúde.

É uma micose sistêmica grave que provoca sintomas na pele, nas mucosas e em órgãos internos, como pulmões. Atinge mais os homens do que as mulheres. Para cada 15 homens com a doença, apenas uma mulher é afetada. Ela é causada por um fungo conhecido como "paracoco".
A paracoccidioidomicose é transmitida pela inalação de esporos do fungo presentes na poeira e no solo. A inalação ocorre durante atividades que envolvem o manejo de solo contaminado, como agricultura, jardinagem e terraplenagem. Não há transmissão direta de pessoa para pessoa nem de animais para humanos.
Não existe comprovação científica, mas o fungo já foi encontrado principalmente em tocas de tatus.
Para os cientistas, é praticamente certo que muitos casos não são contabilizados devido à falta de vigilância epidemiológica.
O fungo também é encontrado na Argentina, Colômbia, Venezuela, Bolívia, no Equador, Peru, Paraguai, México, em Honduras e na Guatemala. Nesses países, a PCM tampouco é uma doença de notificação compulsória.
Informações
fragmentadas
A não exigência de notificação oficial ao Ministério da Saúde faz com que o acompanhamento da paracoccidioidomicose seja incompleto e, em consequência, as políticas públicas para preveni-la e tratá-la sejam falhas.
Falta informação sobre a doença até para os médicos, por isso, Antônio demorou tanto para obter o seu diagnóstico.
O fungo Paracoccidioides escavou o pulmão do técnico de informação
Antônio Rodrigues Joaquim
Por meio da Lei de Acesso à Informação (Lei nº 12.527/2011), o Metrópoles descobriu que, de 2017 para cá, pacientes com a infecção sistêmica já foram registrados em praticamente todo o país, exceto no Amapá.
Entre janeiro de 2017 e agosto de 2025, o sistema público de saúde anotou ao menos 2.424 internações por paracoccidioidomicose. Até 2017, 80% dos casos se concentravam nos estados de São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Goiás e Rondônia. A maioria dos óbitos, por sua vez, ocorria nas regiões Sul e Centro-Oeste.
Veja os principais sintomas da pcm
- Feridas na pele
- Gânglios no pescoço ou na virilha
- Tosse
- Falta de ar
- Feridas na boca ou garganta
- Lesões nos olhos
- Emagrecimento
- Lesões nos ossos
- Feridas próximas dos dentes
- Fígado aumentado
- Baço aumentado
Hoje, esse mapa já não é o mesmo. Dados recentes indicam que a PCM deixou de ser um agravo restrito aos focos clássicos e passou a aparecer de forma mais ampla no território nacional. Entre 2017 e 2025, 26 estados e o Distrito Federal registraram ao menos uma internação pela doença, evidenciando uma dispersão geográfica inédita.
A mortalidade também deixou de se limitar às regiões historicamente mais afetadas. Além de São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul e Goiás, óbitos por PCM foram registrados, entre 2017 e 2025, em estados do Sudeste, Norte e Nordeste, como Rio de Janeiro, Espírito Santo, Pará, Bahia, Maranhão, Piauí e Paraíba.
Internações e óbitos Por estado (2027 - agosto 2025)
Dificuldades no
diagnóstico
Das 27 unidades da Federação, apenas sete realizam testes para diagnosticar a paracoccidioidomicose: Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Rondônia, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso.
Além de dificultar o diagnóstico, a falta de testagem atrapalha o tratamento, fazendo com que os pacientes cheguem aos hospitais em estado grave. Professor da disciplina de Infectologia do Hospital Universitário Júlio Müller (MT), Luciano Corrêa Ribeiro conta que os pacientes costumam buscar ajuda quando a infecção já está avançada.
O mais comum é os pacientes chegarem com sequelas pulmonares graves, casos que rapidamente evoluem para fibrose pulmonar. A doença os incapacita para o trabalho e eles precisarão ser aposentados precocemente pelo INSS.” Luciano Corrêa Ribeiro, professor de Infectologia do Hospital Universitário Júlio Müller (MT)
Acompanhamento
incompleto
O Brasil é o país com a maior incidência de infecções por Paracoccidioides no mundo. A doença atinge, sobretudo, quem
trabalha em contato direto com a terra, como agricultores, garimpeiros e trabalhadores da construção
civil
A recente adoção da notificação compulsória em São Paulo, em abril de 2024, e no Rio de Janeiro, em julho de 2025, trouxe à luz um volume de casos muito maior do que se imaginava.
Em São Paulo, apenas entre janeiro e outubro deste ano, foram registrados 118 casos de paracoccidioidomicose, o que supera - e muito - os 70 casos contabilizados em todo o ano de 2024.
O diagnóstico é confirmado por exames de sangue. Mas nem todos os
estados realizam o teste
A doença também segue associada a mortes no estado: de janeiro a setembro de 2025, foram registrados 13 óbitos por PCM, número próximo aos 14 óbitos contabilizados ao longo de todo o ano de 2024.
Entre 2021 e 2025, no Rio de Janeiro, 324 pessoas contraíram a doença, com pico em 2024, que chegou a 101 casos confirmados. Até outubro deste ano, foram 65 ocorrências de PCM no Rio.
De acordo com a Secretaria de Saúde do estado, no entanto, apenas nos anos de 2022, 2023 e 2025, foram reportados óbitos por PCM, entre eles o de uma criança de 5 anos, no município de Resende (RJ). O órgão não detalhou o total de casos da doença.
O salto no número de ocorrências comprova que a doença não é rara, como muitos imaginam, mas sistematicamente subnotificada.
Sequelas da doença
Antes de descobrir a doença que o acometia, o técnico de informação Antônio Rodrigues Joaquim passou por três internações e um episódio de coma. Também perdeu as glândulas supra renais - responsáveis por regular o metabolismo, o sistema imunológico e a pressão arterial. Antônio desenvolveu trombose, um câncer no rim direito e um tumor no testículo.
O meu caso é difícil porque as sequelas foram muito grandes, ficou irreversível. As suprarrenais não voltam mais, meu rim não volta mais. Então, não tem muito o que fazer.” Antônio Rodrigues Joaquim, paciente diagnosticado com paracoccidioidomicose
Quanto mais cedo a PCM é diagnosticada, maiores são as oportunidades de evitar danos permanentes. Se o diagnóstico médico atrasa, as lesões avançam. O tempo pesa contra o paciente.
“O problema é você ficar esses anos todos em hospital - com remédio, soro, cirurgia - e não saber de onde que vem aquilo e ninguém descobrir o que é. [O diagnóstico] facilitou porque agora, pelo menos, sabemos o que tenho”, desabafa o técnico de informação.
Apesar de não ter cura, a paracoccidioidomicose tem controle. Durante o tratamento, o paciente usa antifúngicos e, a cada dois ou três meses, é reavaliado pelo médico para ter certeza de que a doença está bem gerenciada.
Antônio e sua companheira, Beatriz
Atualmente, Antônio está com a infecção controlada, mas luta contra a depressão. O técnico de informação faz terapia e tratamento psiquiátrico. “Tem dia que estou bom. Tem dia que passo deitado, encostado. Nem que a cabeça queira, o corpo faz. A doença foi violenta demais”, lamenta.
Olha, eu fico fazendo ideia. Será que peguei naquele sítio da minha irmã? Será que foi quando morava no interior sem asfalto? Quando morava na região de garimpo?"Antônio Rodrigues Joaquim, paciente diagnosticado com paracoccidioidomicose
Iniciativa pioneira
Em Cuiabá (MT), a pesquisadora Rosane Hahn coordena um dos poucos laboratórios de referência em PCM no país, que é ligado ao Hospital Universitário Júlio Müller e à Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
Desde a inauguração, em 2018, o laboratório já realizou 1,7 mil exames de sorologia para PCM. Desse número, 160 deram positivo.
A pesquisadora Rosane Hahn, da UFMT, tornou-se referência
internacional no estudo do paracoco
Preocupada com os diagnósticos tardios da doença, Rosane decidiu iniciar um projeto de rastreamento em 2024. Ela e sua equipe começaram a percorrer o interior do estado para testar agricultores.
O objetivo é antecipar o diagnóstico e o tratamento para os que correm mais risco. “Já completamos 534 participantes [agricultores testados] no projeto. Nenhum deles tinha ouvido falar na paracoccidioidomicose”, conta Rosane.
A falta de informação é o que mais complica. E não é só entre a população rural, há desatualização entre médicos e profissionais de saúde.” Rosane Hahn, pesquisadora e professora da Universidade Federal do Mato Grosso
Ocupação intensiva
No coração de Mato Grosso, a região da Baixada Cuiabana se estende entre o Cerrado e o Pantanal, às margens do rio Cuiabá. O calor extremo, o desmatamento e a degradação dos rios são efeitos da pressão humana sobre o ecossistema.
A região é a mais antiga e povoada do estado. Durante o Ciclo do Ouro, no século 18, Cuiabá se tornou berço da ocupação colonial de Mato Grosso, consolidando-se como núcleo central em 1719.
Mato Grosso é um dos estados com mais casos de
paracoccidioidomicose
Após o declínio da mineração, a Baixada desenvolveu atividades agropecuárias e se manteve como polo político e econômico do estado. Atualmente, a região concentra lavouras de soja, milho e arroz, além de pecuária de corte e leiteira.
Também abriga comunidades ribeirinhas, quilombolas e pequenas propriedades rurais cujos proprietários resistem trabalhando na agricultura familiar.
Rosa, líder da Horta Comunitária Santa Edwiges, reconhece que
há resistência para o uso de EPIs
A cerca de 65 km de Cuiabá, no alto da Serra de São Jerônimo, fica a Chapada dos Guimarães. Lá, moram 19,4 mil pessoas, segundo o Censo Demográfico de 2022. Em julho de 2025, foi a vez de receberem o projeto de testagem de Rosane.
Líder da Horta Comunitária Santa Edwiges - na Chapada dos Guimarães, Rosalina Luiza da Glória, 56 anos, contou à reportagem que ouviu falar de paracoccidioidomicose pela primeira vez durante a visita dos pesquisadores.
A gente se dedica muito a plantar e a aprender sobre isso e esquece de estudar outras coisas. Precisa vir os profissionais de lá para cá com a notícia.” Rosalina Luiza da Glória, agricultora e líder da Horta Comunitária Santa Edwiges
Durante as visitas, além de terem o sangue coletado, os moradores recebem uma cartilha sobre a doença, produzida pelos especialistas, em linguagem acessível. O material é distribuído após uma palestra informativa.
Nos encontros, os pesquisadores explicam que a única medida capaz de prevenir a contaminação por fungos presentes no solo é o uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), como botas e luvas e, no caso da PCM, máscaras.
Ao Metrópoles, o prefeito do município, Osmar Froner (União-MT), reconheceu que a adesão dos agricultores aos EPIs é um desafio. “A gente percebe muita resistência por parte deles. Nós, seres humanos, somos assim: enquanto a gente não vê acontecer, não acredita. É uma questão de conscientização”, lamentou.
Em setembro, os trabalhadores do assentamento Sadia III, em Várzea Grande (MT), foram alertados sobre os riscos da infecção sistêmica. Instalados em cadeiras dentro de um pequeno posto de saúde, os moradores esperavam para fazer os exames.
Morador da Chapada dos Guimarães, o agricultor Francisco
Ferreira Vilas Boas nunca tinha ouvido falar na infecção
Calado, com o olhar fixo no horizonte e ouvidos atentos à espera da pronúncia de seu nome, o agricultor Francisco Ferreira Vilas Boas, de 74 anos, contou que acordou às 5h daquela madrugada para ter o sangue coletado pela equipe médica.
Trabalhando com a terra desde criança, Francisco era outro que nunca tinha ouvido falar de paracoccidioidomicose.
Entre abril de 2024 e setembro de 2025, o projeto de diagnóstico precoce testou para PCM 323 homens e 211 mulheres que trabalham direta ou indiretamente com o solo. Todos os exames deram negativo.
Dedicação à pesquisa
Rosane Hahn, 63 anos, é mato-grossense e está há três décadas trabalhando contra a paracoccidioidomicose. Sua dedicação ao tema resultou, inclusive, na descoberta de uma nova espécie do fungo Paracoccidioides.
A nova cepa, o Paracoccidioides lutzii, foi identificada depois que ela notou que os exames realizados nos pacientes da região estavam apresentando resultados falsos negativos.
Em parceria com pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB), ela percebeu uma grande variabilidade genética entre as amostras do fungo extraídas do sangue de pacientes de Mato Grosso e material semelhante retirado de pacientes de São Paulo.
Na época, eu nem tinha laboratório de pesquisa, mas trouxe DNAs que coletei no doutorado. Mesmo sem laboratório para trabalhar, quis trazer. E guardei as amostras congeladas no freezer da minha casa.” Rosane Hahn, pesquisadora e professora da Universidade Federal do Mato Grosso
O nome da nova espécie foi dado em homenagem ao Dr. Adolfo Lutz, do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo, que, há 117 anos, registrou o primeiro caso clínico de paracoccidioidomicose.
A identificação do Paracoccidioides lutzii em Mato Grosso mudou a forma como a paracoccidioidomicose é compreendida no Brasil. Até então, acreditava-se que a doença era causada por um único fungo. A descoberta revelou que a PCM, na verdade, é provocada por um conjunto de espécies geneticamente distintas, com distribuição regional diferente.
Trabalhadores do assentamento rural Sadia III aguardam para
serem testados
Na prática, isso ajudou a explicar por que muitos pacientes do Centro-Oeste e do Norte recebiam resultados falsos negativos: os testes haviam sido desenvolvidos a partir de cepas do Sudeste e não reconheciam adequadamente o P. lutzii. A partir daí, novos métodos diagnósticos passaram a ser estudados, permitindo mapear melhor a doença.
Rosane se formou em Farmácia Bioquímica pela Universidade Federal Fluminense (UFF), no Rio de Janeiro, em 1983. Cinco anos depois, tornou-se mestre em ciências biológicas pela Universidade Federal de Minas (UFMG). Em 2002, conquistou o título de doutora na Universidade Federal de Minas Gerais.
Rosane Hahn se orgulha do campo de estudos que criou na
UFMT
Atualmente, é docente vinculada ao Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e coordena a área das linhas de pesquisa em Micologia Médica, que investiga os fungos de importância médica.
Entre 2013 e 2014, estabeleceu seu laboratório na UFMT. Com orgulho de desbravadora, lembra que foi necessário levantar parede, fazer piso, colocar armário e equipar o laboratório. “O Centro-Oeste, o Norte e o Nordeste são regiões menos estruturadas em termos de pesquisa. Quando retornei, após a minha capacitação, foi um desafio porque tudo tinha de ser montado aqui”, relata.
A construção do laboratório, assim como outros projetos de pesquisa da cientista, foi financiada por editais da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (Fapemat). A instituição apoia investigações de todas as linhas do conhecimento e os recursos vêm, em grande parte, do governo do estado.
Além dos desafios estruturais, surgiram questões relacionadas à vida pessoal. “Quando comecei a estruturar minha pesquisa na UFMT, tinha um filho de três anos de idade. Na época, chegava a ficar 14 horas por dia ausente da minha casa porque precisava montar a infraestrutura física, equipar o laboratório e captar recursos. Meu filho foi muito privado da minha presença naquele momento.”
Liderados pela professora Rosane, os pesquisadores da UFMT
conseguiram descrever uma nova espécie de fungo
Apesar dos custos, Rosane reconhece sua jornada como vitoriosa e diz que faria “tudo de novo”. Considera que seu maior mérito foi ter insistido em pesquisas que contribuem para a saúde de agricultores, garimpeiros e trabalhadores vulneráveis - se ela não tivesse descrito o Paracoccidioides lutzii, muitos doentes não teriam recebido o diagnóstico correto.
Ela também se orgulha dos profissionais que formou ao longo dos anos.
Prestes a se aposentar, preocupa-se com a continuidade do trabalho e a manutenção das conquistas científicas.
“A interrupção de um trabalho de décadas pode significar não apenas a perda de uma linha de pesquisa, mas o apagamento de dados que sustentam as poucas políticas públicas voltadas ao grupo e que salvam vidas”, destaca.
Sem planejamento
Entre 2017 e agosto de 2025, o SUS gastou o montante de R$ 25,5 milhões (R$ 25.599.969,13) tratando pacientes internados por paracoccidioidomicose (CID B41). Esse valor engloba o custo total das internações, com diárias hospitalares, medicamentos e procedimentos associados ao tratamento da doença.
Se a detecção da doença fosse feita mais cedo, poderíamos direcionar um tratamento mais eficaz com novos antifúngicos e em menos tempo, melhorando a adesão e evitando abandono no procedimento. Essas desigualdades ocorrem pelo fato de não haver uma padronização nacional para o tratamento de PCM.” Luciano Corrêa Ribeiro, professor de Infectologia do Hospital Universitário Júlio Müller (MT)
Em São Paulo - estado líder em internações e mortes - o gasto ultrapassou R$ 8,2 milhões, seguido de Minas Gerais, Paraná e Goiás, todos com gastos acima de R$ 1 milhão. Estados amazônicos, como Rondônia, também registraram despesas expressivas, incluindo um único caso de internação pela forma pulmonar, em 2022, que, sozinho, custou R$ 29,8 mil.
Alterações ambientais
Os números de internações e óbitos revelam um padrão claro: a paracoccidioidomicose (PCM) é mais frequente em áreas rurais, especialmente em municípios com grandes lavouras, pecuária e mineração.
HISTÓRICO DE SURTOS do Paracoco NO PAÍS
O cruzamento entre dados epidemiológicos e o Censo Agropecuário, do IBGE, mostra que estados com altas taxas de internações e mortes, como Minas Gerais e São Paulo, e aqueles com casos crescentes, como Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, concentram as maiores áreas rurais do país.
Mato Grosso, por exemplo, tem mais de 55,4 milhões de hectares destinados à agropecuária, enquanto Minas Gerais conta com 38 milhões de hectares de área ocupados por fazendas.
Pesquisas indicam que o fungo também faz vítimas em locais com desmatamento acelerado, nos quais houve grandes obras de infraestrutura. O avanço da PCM se intensifica quando o solo passa por alterações repentinas, como na Amazônia Legal.
Dados do MapBiomas mostram que, entre 2017 e 2024, a área plantada na Região Norte saltou de 3,3 milhões para 5,7 milhões de hectares - coincidindo com o aumento de internações e indicando crescente pressão sobre o meio-ambiente.
Ocupação intensiva do solo em Mato Grosso
resultou no aumento de casos da doença. Nova espécie do fungo foi descrita por Rosane Hahn no
estado
Na avaliação de Luciano Corrêa Ribeiro, a PCM só deixará de ser uma doença invisível quando o país enfrentar suas próprias omissões. Ele aponta três passos imediatos: transformar a paracoccidioidomicose em doença de notificação compulsória nacional, estruturar uma rede de laboratórios capazes de diagnosticar os casos e assegurar o fornecimento regular dos medicamentos pelo SUS.
A paracoccidioidomicose nasce na terra - a mesma que alimenta o país e sustenta famílias, como a de dona Rosa, na Chapada dos Guimarães (MT), e a de Francisco, em Várzea Grande (MT). Foi nesse mesmo solo que a Dra. Rosane passou três décadas cavando respostas. E foi dele que Antônio respirou, sem saber, o fungo que mudaria sua vida para sempre.
Sob a terra, há o fungo. Sobre a terra, agricultores, garimpeiros e comunidades inteiras que precisam ser protegidas e aprender a se proteger.
Está reportagem foi realizada com recursos da Seleção Petrobras de Jornalismo - Ciência e Diversidade