COP 30
Belém se mostra para o mundo
Às vésperas do evento que vai projetar a capital paraense para o mundo, Belém revela sentimentos tão densos e intensos quanto a paisagem amazônica que cerca a cidade de 1,4 milhão de habitantes. O ar - quente e úmido - mistura ansiedade, orgulho e alguma apreensão pouco antes do início da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, a COP30.
Nas ruas, os idiomas dos visitantes internacionais já começam a ser ouvidos no Ver-o-Peso, no Parque Linear da Doca, no Mercado de São Brás, no Parque da Cidade. Entre os paraenses, o sentimento geral é de que vivem um momento histórico, um divisor de águas, um novo ciclo de desenvolvimento.
As obras de desenvolvimento urbano, mobilidade e turismo previstas no planejamento da COP30 representaram investimentos de R$ 4,5 bilhões na cidade.
O governador Helder Barbalho, do MDB, avalia que o evento internacional deixará marcas profundas na história paraense. "Além da visibilidade mundial que Belém ganha, conseguimos antecipar a agenda de infraestrutura em 30 anos. Obras que estavam planejadas e demorariam décadas para sair do papel foram feitas em apenas dois anos. A melhoria da qualidade dos serviços e da infraestrutura certamente é um dos maiores legados da COP30", afirma Barbalho.
A expectativa imediata dos paraenses é receber bem e sem sobressaltos. A longo prazo, espera-se que os esforços empregados nos preparativos da COP deixem a metrópole amazônica mais moderna, sustentável e agradável para os seus moradores.
mensal: R$ 1.344,00
Mosaico de
realidades
O professor de Relações Internacionais Mário Tito Almeida, da Universidade da Amazônia (Unama), considera que um dos principais cartões de visita de Belém é a diversidade. “A COP30 traz ao centro do debate não apenas a Amazônia, mas as várias Amazônias. Belém permite que as pessoas conheçam aspectos pouco explorados da região, que vão além do exótico”, aponta.
Segundo Tito Almeida, os visitantes terão acesso à culinária, à cultura e à arte local, mas também conhecerão as dificuldades relacionadas ao deslocamento e à distribuição de renda, que são típicas das cidades brasileiras.
O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH) do Pará, Toni Santiago, não tem dúvidas de que Belém deixará uma excelente impressão nos visitantes. “Os paraenses precisam perder o complexo de inferioridade. Somos totalmente capazes. O pessoal do Sul e do Sudeste vai se surpreender com Belém”, aposta Santiago
Pontos
turísticos
As obras realizadas para receber a COP30 incluíram a requalificação de pontos turísticos tradicionais da cidade, como o Complexo do Ver-o-Peso. Prestes a completar 398 anos, o espaço foi reformado para oferecer mais conforto e segurança aos visitantes e comerciantes.
A modernização incluiu a Feira Principal, o Mercado de Peixe, o Mercado de Carne, a Pedra do Peixe, a Feira do Açaí, a Ladeira do Castelo e a Via dos Mercadores. Entre as intervenções realizadas, estão a reforma dos 168 boxes da Feira Principal e a instalação de um sistema de iluminação em LED e de equipamentos de prevenção contra incêndios.
Os espaços destinados à alimentação também receberam melhorias. O investimento total no Complexo do Ver-o-Peso foi de R$ 66 milhões, sendo R$ 60 milhões financiados pela Itaipu Binacional e R$ 6 milhões pela Prefeitura de Belém.Com 45 anos de trabalho no Ver-o-Peso, Alonso Santos, de 66 anos, é um dos vendedores que aguarda com ansiedade o início da COP30. “Os turistas sempre estão por aqui, e agora, depois das reformas, estão vindo mais. Acredito que vai continuar assim até o fim do ano”, prevê.
A comerciante Maria Iracilda Siqueira, de 67 anos, concorda: “Trabalho com copaíba, andiroba, pomadas, garrafadas e perfumes. As vendas foram muito boas no Círio e vão melhorar ainda mais com a COP”.
Maria Iracilda conta que os produtos medicinais, como as pomadas para dor muscular e as essências de plantas, são os itens mais procurados pelos visitantes do Ver-o-Peso.
Proprietária de um restaurante de comidas típicas no local, Tatiana Figueiredo, 36 anos, festeja a reforma e a requalificação do espaço. “É motivo de muita alegria para nós. As vendas estão ótimas e temos recebido muitos turistas”. Ela e outros comerciantes do São Brás passaram por capacitações, incluindo aulas de inglês e marketing, para se prepararem para a COP30.
Célia Vasconcelos, que trabalha há 10 anos com produtos naturais e místicos no Mercado de São Brás, comemora. “O espaço está muito bonito. Antes, era precário, chovia dentro. Agora estamos em um lugar bem cuidado e totalmente organizado.”
O bancário Leandro Bentes, que morou por anos no Rio de Janeiro, se surpreendeu com a transformação do São Brás. “Estou voltando aqui depois de 13 anos. Encontrar o mercado desse jeito é gratificante. Sempre foi um mercado bonito, mas estava desvalorizado. A obra trouxe de volta a importância e a relevância que ele tem", avaliou.
Lazer para
a população
Um dos símbolos mais visíveis da transformação que vive Belém é o Parque Linear da Doca - o espaço que antes abrigava um canal poluído foi transformado em uma área destinada ao lazer, esporte e convivência.
Com investimento total de R$ 310 milhões, o Parque Linear passou por obras de drenagem, despoluição e paisagismo. Agora conta com mirantes, quiosques, espaço para crianças, academia ao ar livre e ciclovia.Inaugurado pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva em 2 de outubro, o espaço foi imediatamente ocupado pela população. O mestre de jiu-jitsu Carlos Baquett, de 56 anos, comemora a criação da nova área de lazer: “A COP30 já está beneficiando Belém, e esse parque é a prova disso”.
Jorge Seráfico, 75 anos, professor de educação física, tem usado as quadras do Parque Linear da Doca para jogar basquete. “A diferença é completa. Antes, tínhamos apenas um canal com duas muretas. Hoje, temos um espaço de uso múltiplo, bonito e agradável. O legado da COP é o embelezamento da cidade e o surgimento dessas oportunidades de convivência”, afirma.
Cultura e
conhecimento
Outra obra de destaque realizada para a COP30 foi o Porto Futuro 2, localizado ao lado da Estação das Docas. Administrado pela Caixa Econômica Federal, o Porto Futuro 2 é um centro cultural dotado de três galerias, um teatro com 250 lugares e várias salas para a realização de oficinas.
O Porto Futuro 2 surgiu a partir da reconstrução de cinco armazéns de 50 mil m² cada. O projeto prevê a instalação do Memorial da Navegação, do Centro de Bioeconomia e do Museu das Amazônias - os dois últimos já estão prontos. O investimento total no complexo cultural foi de R$ 568 milhões.Walter Leal, proprietário da Cachaçaria Jamburana, instalada no Porto Futuro 2, considera que o ponto turístico já é um dos melhores locais de encontro de Belém. “Está muito bem estruturado, com arquitetura que valoriza a cultura local e atrai tanto moradores quanto turistas. A movimentação tem sido intensa, especialmente nos fins de semana”, afirma o empresário.
Sobre o impacto da COP30 no comércio local, Leal têm expectativas positivas: “A conferência é uma oportunidade única para Belém se destacar internacionalmente, o que deve refletir diretamente no comércio. Esperamos aumento no fluxo de visitantes, impulsionando as vendas e dando mais visibilidade à nossa marca”.
Duas semanas antes do início da COP, a energia da comissão organizadora estava voltada para os últimos ajustes no Parque da Cidade, onde funcionará o coração da conferência. O investimento total no espaço foi de R$ 980 milhões.
Localizado na área do antigo aeroporto, o Parque da Cidade ocupa 500 mil metros quadrados e será dividido em duas áreas: a Zona Azul, voltada para negociações diplomáticas entre chefes de Estado e representantes internacionais, e a Zona Verde, aberta ao público, onde ocorrerão atividades científicas, culturais e de educação ambiental.
O BRT e os desafios
para o trânsito
Antes da COP30, o trânsito em Belém era considerado caótico, com engarrafamentos de até duas horas nos pontos centrais. Uma das primeiras preocupações dos organizadores foi desenvolver soluções para melhorar a mobilidade e facilitar o deslocamento na capital paraense.
O BRT Metropolitano, entregue há uma semana, promete ser a espinha dorsal do novo sistema de transporte de Belém. Com 42 quilômetros de corredores exclusivos, vai conectar o centro aos bairros periféricos e municípios da região metropolitana, transportando até 30 mil passageiros por hora em cada sentido.
O prefeito Igor Normando detalha os avanços: “Pela primeira vez, Belém tem ônibus com ar-condicionado, Wi-Fi e acessibilidade. Estamos elaborando um plano de mobilidade com o Governo do Estado e o Governo Federal, integrando o transporte da capital ao BRT Metropolitano.”
Quatro novos viadutos já foram entregues, aliviando pontos críticos de congestionamento, e a duplicação da Avenida Bernardo Sayão avança, melhorando o fluxo entre os bairros do Jurunas, Condor, Cremação e Guamá. As intervenções incluem macro e microdrenagem, urbanização e duplicação da via, que tem intenso fluxo diário de veículos, pedestres e ciclistas.
O sistema de transporte ganha ainda mais eficiência com o novo Terminal Hidroviário de Icoaraci, que moderniza o acesso às 39 ilhas da capital. A integração entre o BRT, o sistema hidroviário e as linhas de ônibus convencionais cria uma rede multimodal que deve beneficiar especialmente a população de baixa renda que depende do transporte público.Nem tudo que foi planejado será entregue a tempo do início da conferência. O projeto de ampliação e prolongamento da Rua da Marinha, por exemplo, não estará finalizado para a COP30. O governo, no entanto, considera a obra como um dos mais importantes legados, pois a intervenção beneficiará aproximadamente 215 mil pessoas que usam a via diariamente, o que representa cerca de 12% da população da capital paraense.
Orçada em R$ 253 milhões, a requalificação da Rua da Marinha promete reduzir o tempo médio de deslocamento na região em até 33%, além de facilitar o acesso a locais estratégicos, como o Aeroporto Internacional de Belém-Val-de-Cans, o Estádio Mangueirão e o Hangar - Centro de Convenções da Amazônia.
Ampliação da Rua da Marinha
Navios, hotéis e hostels
A questão da hospedagem, que nos meses anteriores dominou as manchetes dos jornais devido aos preços abusivos, parece ter se encaminhado para uma solução. O ministro do Turismo, Celso Sabino, garante que a cidade já conta com mais de 53 mil leitos mapeados, entre hotéis, navios e residências de temporada. “Os preços voltaram ao patamar de mercado”, afirmou, em entrevista ao Metrópoles.
Toni Santiago, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Pará (ABIH-PA), explica: “Esse tipo de variação é comum em grandes eventos internacionais. É a lei da oferta e da procura.” A associação liberou, a pedido do governo, 550 apartamentos com tarifas entre US$ 100 e US$ 300 para as delegações com menor poder aquisitivo.
Para suprir a demanda, dois navios de cruzeiro ficarão atracados no Porto de Outeiro. O acesso ao Parque da Cidade, sede do evento, será facilitado pela recém-inaugurada ponte Pastor Firmino Gouveia, de 507 metros, permitindo o translado entre o navio e a Zona Azul em cerca de 30 minutos.
No setor de hospedagem alternativa, Daniel Leite, fundador do Ôvibe Party Hostel & Arts, vê na COP30 uma oportunidade de crescimento. “Para a COP30, fechamos com uma delegação de 26 pessoas e tivemos que adaptar nossos quartos. Aumentamos leitos e aprimoramos serviços. Nossos colaboradores falam inglês e espanhol. Queremos mostrar nossa cultura e aprender com a deles”, aponta.
Turistas estão chegando
A francesa Murielle Tchiegang, 26 anos, de L'Hay-les-Roses, região metropolitana de Paris, é exatamente o tipo de visitante que Belém espera atrair. “Trabalho no Brasil para uma empresa francesa há oito meses e escolhi vir a Belém justamente por saber da COP30. Como mulher viajando sozinha, a segurança é minha prioridade, e acredito que um evento internacional traz naturalmente mais estrutura nesse sentido”, conta.
Francesa, Murielle Tchiegang desembarcou no Pará para pesquisar
matérias-primas
A motivação dela, porém, vai além do turismo convencional. “Estou especialmente interessada em visitar empresas e cooperativas de óleos e cosméticos. Quero descobrir ingredientes amazônicos — azeites, açaí, óleos e plantas raras que não temos na Europa. Muitas empresas europeias vêm ao Brasil buscar ativos naturais, e esta é uma oportunidade única para conhecer essa cadeia produtiva na fonte.”
Capacitação para receber os visitantes
Cerca de 25 mil paraenses foram capacitados pelo programa Capacita COP30. Ravany Belfort, coordenadora social da Associação Brasileira de Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Abradesa), explica que os cursos mais procurados foram: agente comunitário para o turismo, consultor de turismo responsável e guia de turismo de base comunitária. “Nosso público é majoritariamente composto por mulheres chefes de família. É um sinal de empoderamento”, comenta.
Natália Pantoja, 27 anos, autônoma, é aluna do curso de atendente de lanchonete, oferecido pela Secretaria de Turismo (Setur) em parceria com a Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia, Educação Superior, Profissional e Tecnológica do Pará (Sectet). “Acredito que a COP30 vai ser um momento muito importante para o comércio e para Belém. Espero que as oportunidades continuem.”
Vanessa Beltrão, professora de bartender, festeja a adesão feminina aos cursos preparatórios: “É uma honra dar aulas. Tradicionalmente, é uma profissão masculina, mas hoje temos muitas mulheres se qualificando. A COP30 está abrindo muitas vagas, e é gratificante poder passar meu conhecimento adiante.”
Eva Maia, de 50 anos, veio de longe aproveitar as oportunidades propiciadas por uma economia em expansão. Antes de se tornar motorista de aplicativo, ela era cabeleireira em Santa Catarina. “Parei porque era uma área instável. Uma semana com muito serviço, outra sem nada. Como moro sozinha, preciso de estabilidade”, explica.
Eva Maia saiu de Florianópolis para trabalhar como motorista de
aplicativo em Belém
Em Belém, alugou um carro para trabalhar como motorista de aplicativo e investiu em qualificação, fazendo dois cursos de inglês. “Foi um sacrifício. Tive que pedir dinheiro emprestado para pagar o aluguel do carro enquanto fazia o curso, porque deixei de rodar. Mas valeu a pena. O que aprendi é que o importante é se comunicar, me sinto 100% segura para tentar.”
Drenagem e
saneamento
como prioridade
Longe dos endereços badalados da COP paraense também há transformação. Segundo o prefeito de Belém, Igor Normando, o maior legado da conferência climática para a cidade será a implantação da rede de saneamento básico. “Belém era uma das capitais com pior índice de saneamento do país e, após o evento, será uma das que mais avançaram”, garante.
Os números impressionam: 13 canais estão passando por intervenções de macrodrenagem, sendo 11 localizados em áreas periféricas. As obras abrangem as principais bacias hidrográficas da cidade e beneficiarão diretamente cerca de 500 mil pessoas, mais de um terço da população.
Melhorias fora dos endereços da COP: construção de rede de drenagem e
saneamento é um dos principais legados para a população
Os investimentos para a transformação da cidade geraram mais de 5 mil empregos diretos e indiretos e têm como objetivo garantir um legado permanente para a população. Entre os valores, R$ 1,3 bilhão são de investimentos da Itaipu Binacional e de outras estatais, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Caixa Econômica Federal.
O avanço é visível para quem viveu décadas enfrentando alagamentos. É o caso de Milton de Sousa, 44, morador do Canal da Timbó, no bairro do Marco — uma das áreas beneficiadas pelo projeto de macrodrenagem e saneamento do Canal da União, que integra o sistema da Bacia do Tucunduba.
Milton testemunha a mudança com a experiência de quem passou 25 anos convivendo com as cheias. “Aqui na Timbó, nós éramos especialistas em reconstruir. Tinha vizinho que refez a casa cinco, seis vezes. Quando chegava o inverno (estação de chuvas), era um desespero. Perdíamos móveis, eletrodomésticos e, o pior, a dignidade. Como planejar o futuro quando a próxima chuva forte pode levar tudo?”, desabafa.
Morador de uma das áreas beneficiadas, Milton de Sousa comemora: "Aqui
havia o risco de perder tudo a cada chuva"
“O Canal da Timbó estava assoreado, sem conexão adequada com os outros canais. Hoje temos um sistema integrado de drenagem. Esses 25 anos de sofrimento acabaram. Posso finalmente investir na minha casa sem medo de ver esse investimento se perder”, comemora Milton.
Jorge Rocelles, 40, enfermeiro e morador do Canal da Gentil, considera que as obras de macrodrenagem trouxeram diversos impactos positivos. “Também houve melhorias na mobilidade, com asfaltamento, iluminação pública e segurança. A região está mais estruturada”, afirma.
Jorge Rocelles: "Esta obra de saneamento é, antes de tudo, uma obra de
saúde pública"
Rocelles, que cresceu vendo os alagamentos na área, aponta possíveis impactos positivos para a saúde pública. “Como enfermeiro, acompanhei de perto as consequências dos alagamentos — leptospirose, doenças de pele e infecções. Havia épocas em que o posto de saúde ficava lotado de crianças com problemas relacionados à água contaminada. Essa obra de saneamento é, antes de tudo, uma obra de saúde pública”, considera.
Milton complementa: “As pessoas falam da COP30 como um evento para estrangeiros, mas, para nós, da periferia, a conferência significou a aceleração de obras que estavam paradas há anos. O Canal da Timbó era uma promessa de campanha de vários políticos. Só agora, com os olhos do mundo sobre Belém, a obra saiu do papel. É triste precisar de uma conferência internacional para ter o básico, mas o importante é que finalmente chegou.”