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Daniel Ferreira/Metrópoles
O Brasil não conheceu a história de Diego Felipe Pereira da Silva. Não soube que ele estava preso pelo roubo de uma bolsa e que já reunia as condições para deixar a cadeia durante o dia, trabalhar, e voltar à noite ao cárcere. Deveria ter progredido ao regime semiaberto. Mas o processo não andou. E, antes que pudesse se valer de um direito, acabou assassinado sob a custódia do Estado. O corpo de Diego foi enterrado sem a cabeça. Aos 25 anos, ele teve um fim parecido ao de outros 122 presos mortos nas rebeliões que chocaram o país entre 1º e 14 de janeiro de 2017. Mais do que acontecimentos isolados entre criminosos, as chacinas ocorridas em três cidades de diferentes estados brasileiros expuseram as entranhas de um sistema que no país sempre esteve à beira do colapso. Entre os que morreram na tragédia anunciada, muitos padeceram antes. Foram violentados, empalados, tiveram membros decepados, órgãos retirados a sangue frio. Alguns experimentaram a inclemente Lei de Talião. Morreram, assim como mataram.
Rafaela Felicciano/MetrópolesDiego Felipe, 25 anos, estava preso por conta do roubo de uma bolsa
Nas três comunidades de delinquentes impactadas pelos massacres de janeiro, havia diferentes níveis de malfeitos, penas, trajetórias, julgamentos. Mas todos viviam sob o regime do crime institucionalizado, com regras próprias, à revelia do Poder Público e onde convivem o ladrão de galinha com estupradores e assassinos.
A barbaridade dentro dos presídios brasileiros é tão frequente que se tornou banal. Prevalece o senso comum de que criminosos, tenham eles maior ou menor potencial ofensivo, assumem o risco de acabar como os exterminados nos episódios violentos de 2017. As cercas e grades que contêm os homens enquanto cumprem pena não são uma barreira definitiva para a influência que a massa carcerária exerce sobre a sociedade.
Quando analisamos os dados técnicos e os relatórios, nos damos conta de que os massacres eram tragédias esperadasRoger Moreira, titular da Defensoria Pública Especializada na Promoção e Defesa dos Direitos Humanos do Amazonas
A dinâmica de uma comunidade formada por 622.202 presos não fica restrita às 2.769 cadeias brasileiras. Suas mazelas, tragédias e fracassos impactam o cotidiano das pessoas que gozam de liberdade. Os três massacres estão entre os tantos já ocorridos e prenunciam os que ainda vão acontecer dentro das prisões no Brasil. A selvageria, que desde Carandiru já não impressionava, em 2017 voltou a escandalizar. Deveria ter sido o alerta máximo para as autoridades se posicionarem e reassumirem seu protagonismo de gestão, mediação e organização do sistema.
Até hoje, no entanto, o Estado sequer identificou os restos mortais de vários envolvidos nas rebeliões. Muito além de dar satisfação às famílias de detentos enterrados sem cabeça ou como indigentes, os governos poderiam ter se valido de um estudo aprofundado sobre as causas e as circunstâncias dos assassinatos nos presídios de Manaus (AM), Boa Vista (RR) e Natal (RN) para redefinir políticas públicas, investimentos e reestruturar o sistema carcerário brasileiro. Nos últimos seis meses, o Metrópoles buscou conhecer a história de cada uma das 123 pessoas mortas nos presídios do Amazonas, de Roraima e do Rio Grande do Norte durante a primeira quinzena do ano. Com os perfis desses homens, é possível criar um grupo amostral do que há de mais crítico no regime brasileiro de execução das penas. A reunião de dados, o cruzamento das informações e a análise dos índices extraídos a partir desse levantamento oferecem insights importantes que podem ajudar na busca de soluções para o universo prisional e o impacto que causa na sociedade.

Clique nos rostos e conheça as histórias dos presos mortos

Abel Paulino De Souza
Abimeleque Fonseca Almeida
Adercio Alves Da Cunha
Adriano Soares Marinho
Alcides Pereira De Aquino
Alcinei Gomes Da Silveira
Alessandro Nery Praia
Alex Almeida Da Silva
Alexandro Nogueira Soares
Anderson Barbalho Da Silva
Anderson Mateus Félix Da Silva
Andrei Chaves De Moura Costa
Antônio Barbosa Do Nascimento Neto
Antônio Correa Muniz Neto
Antony Aguiar Muniz
Arthur Gomes Peres Júnior
Carlos Augusto Nascimento Galucio
Carlos Clayton Paixão Da Silva
Carlos Eduardo Loureiro De Castro
Charmon Chagas Da Silva
Cícero Israel De Santana
Clealberth Dutra Guimarães
Dheyck Da Silva Castro
Diego Felipe Pereira Da Silva
Diego Melo De Ferreira
Edione De Souza Santos
Edismar Henrique Duran Barreto
Edney Gomes Ferreira
Eduardo Dos Reis
Egberto Pereira Da Silva
Elvis Rover Palma Hernandez
Enoque Correia Lira Filho
Erick Queiroz Da Silva
Erismar Duran Da Silva
Errailson Ramos De Miranda
Fábio Bandeira Da Silva
Felipe De Oliveira Carneiro
Felipe Mateus Silva Do Nascimento
Felipe Rene Silva De Oliveira
Fernando Gomes Da Silva
França Pereira Do Nascimento
Francinaldo Ferreira Santana
Francisco Adriano Morais Dos Santos
Francisco Das Chagas De Souza Silva
Francisco Luciano Pereira Da Silva
Francisco Pereira Pessoa Filho
Francisco Romério Borba
Francismar Souza De Oliveira
Frank Roniere Ferreira Reis
Geocival De Lima Frazão
George Santos De Lima Júnior
Gezildo Nunes Da Silva
Gilson Thiago Pereira Melo
Haciel Moreira Silva
Heder De Souza Pereira
Huerdeson Paulino De Melo
Ilmar De Araújo Silva
Jackson De Oliveira Avelino
Jaime Da Conceição Pereira
Jairo Dos Santos Morais
Jander De Andrade Maciel
Jefferson Pedroza Cardozo
Jefferson Souza Dos Santos
João Paulo Venâncio
Jonas Victor De Barros Nascimento
Joniarlison Feitosa Dos Santos
José Aldinei Da Silva Leal
José Antônio Araújo De Oliveira
José De Moura Ferreira
Josenildo Alves Ferreira
Kayro Silva De Souza
Kelvin Kline Silva Farias
Lázaro Quincas Saldanha
Lenilson Calixto Pires
Lenilson De Oliveira Melo Silva
Leonis Aris Gama Filho
Linekim Marinho De Lira
Lucas Alves De Souza
Luis Oliveira Dos Santos
Luiz Carlos Da Costa
Luiz Otávio Sampaio De Almeida
Machel Bruno De Souza Barros
Maelson Augusto Barbosa Da Costa
Magaiwer Vieira Rodrigues
Manoel Freitas Barros
Marcelo Pena Lima
Márcio Correia Marcelo
Marcos Aurélio Costa Do Nascimento
Marcos Frederico Gomes Rocha Pereira
Marlon De Araujo Da Silva
Marlon Pietro Da Silva Nascimento
Michel Wendell Melgueiro Da Costa
Mizael Guimarães Da Silva
Moacir Jorge Pessoa Da Costa
Não Identificado
Não Identificado
Não Identificado
Não Identificado
Não Identificado
Nilson Sales Sousa
Paulo César Silva Guimarães Filho
Paulo Henrique Dos Santos Lagos
Paulo Henrique Lima Dos Santos
Paulo Marcelo Santos Nascimento
Paulo Wendel Guimarães Cardoso
Pedro Henrique Alves De Souza
Rafael Brazão Gonçalves
Rafael Moreira Da Silva
Raijean Da Encarnação Medeiros
Renato Maciel Do Nascimento
Rildo Da Silva Nascimento
Robson Souza Da Costa
Romulo Fernandes Da Silva
Romulo Harley Da Silva
Ronei Pinheiro Filgueira
Rubiron Cardoso De Carvalho
Sebastião Ribeiro Marinho Filho
Tarcísio Bernardino Da Silva
Tassio Caster De Souza
Thiago Juvino De Oliveira
Wendel Francisco De Souza Esquerdo
Willamys Silva De Souza
Willian Anden Santos De Souza
Uma vez que os mortos foram identificados e catalogados pela reportagem, sabe-se: 44,7% do grupo cometeram crimes hediondos. Ou seja, 45 dos 123 exterminados em janeiro eram assassinos. E 12 deles foram condenados, pelo menos, por estupro. Quase metade dessas pessoas (47,2%) tinha entre 18 e 30 anos, faixa etária de jovens. E a maioria (56%) era formada por negros e pardos. Dos 123 presos assassinados, apenas 15 não haviam sido julgados, o que representa 12,2% do total. Destes, 11 eram acusados de tráfico de drogas, mas ainda não tinham sido condenados.
Michael Melo/MetrópolesAbel de Souza, morreu antes de ter sido julgado. Ele foi acusado de tráfico de drogas
É o caso de Abel Paulino de Souza. Ele foi preso em 5 de dezembro de 2016, denunciado por um vizinho, que o delatou por tráfico. Era réu primário e, quando detido, não portava drogas. O argumento que o levou para a Penitenciária Agrícola de Monte Cristo, em Boa Vista (RR), veio de um inquérito da Polícia Civil, segundo o qual Abel havia entregado entorpecentes a um jovem. A juíza achou por bem mantê-lo preso preventivamente. Em 6 de janeiro deste ano, Abel mandou uma mensagem de celular para a mulher. Dizia: “Acho que vão matar gente aqui hoje. Tá tudo estranho. Se eu for, amo vocês todos”. Abel foi decapitado. E enterrado dois dias depois, justamente quando completaria 25 anos.
A diminuição da população carcerária não pode ser pensada de forma isolada, deve vir acompanhada de políticas públicas para impedir o ingresso dos jovens na criminalidadeFernando Fidalgo, diretor do Observatório Nacional do Sistema Prisional (Onasp)

Dados do massacre

Degolados de Roraima

Quinta-feira, 06/01/2017
2h30
PAMC

Presos das alas 13, 14 e 15 quebraram os cadeados das celas e as frágeis paredes que os separavam de um pátio conhecido, por quem ali circulava, como “favelinha”. O ponto para iniciar o massacre foi escolhido a dedo, pois ficava à vista de quase todas as guaritas do presídio. Os líderes do motim esperavam que o barulho do ataque distraísse os vigias para que não notassem os outros crimes, cometidos em seguida.

Quinta-feira, 06/01/2017
2h45
PAMC

Na frente dos agentes, os seis primeiros detentos foram assassinados. Segundo relatos, assim que os vigias começaram a atirar com balas de borracha, o som do projéteis serviu como sinal para que as demais mortes acontecessem dentro das celas. Outros 27 presos foram executados simultaneamente nas alas 2, 4, 5, 6, 7 e 9 e a maioria foi esquartejada ou degolada.

Quinta-feira, 06/01/2017
5h
PAMC

Por questão de segurança, equipes do Bope, da Polícia Militar e agentes penitenciários só entraram na cadeia ao amanhecer.

Cadeia Pública
de Boa Vista
  • População carcerária no dia da rebelião: 330

  • Capacidade: 120

  • Inauguração: 1998

  • Localização: Centro de Boa Vista, atrás da Secretaria de Justiça

  • A cadeia deveria ser usada por presos do regime semiaberto. Mas após o massacre de 2016, os detentos da facção Comando Vermelho foram transferidos para o local

Penitenciária Agrícola
de Monte Cristo
  • População carcerária no dia da rebelião: 1.475

  • Capacidade: 650

  • Inauguração: 1989

  • Localização: 10km de Boa Vista

A 780 quilômetros dali, no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), em Manaus (AM), Errailson Ramos de Miranda também chegava a seu último dia de vida. Teve um fim parecido ao de Abel, mas com um histórico bem diferente. Estuprou e matou a facadas uma garota de quatro anos de idade em março de 2009, barbárie que chocou a população amazonense. Na ocasião, Errailson respondia por homicídio e tráfico de drogas. Condenado, pegou 41 anos de cadeia. Ele estava entre os 64 mortos no maior massacre já registrado depois do Carandiru. Os detentos do Compaj foram queimados, esfaqueados, asfixiados, decapitados.
Michael Melo/Metrópoles

Oito dias de terror em Manaus

Sábado, 31/12/2016
23h30
Anísio Jobim

Os detentos do regime fechado do Complexo Penitenciário Anísio Jobim tiveram uma grande festa de ano-novo. Familiares, defensores públicos e até agentes penitenciários afirmam que houve entrada liberada de bebidas alcoólicas e drogas. Além disso, mulheres de presos passaram a noite no Compaj.

Domingo, 1/1/2017
14h
Anísio Jobim

Era dia de visitas na unidade. Os detentos pediram, antes do horário final, para que os familiares deixassem o presídio. Os parentes estranharam o comportamento dos presos.

Domingo, 01/01/2017
15h
Anísio Jobim

Presos do Complexo Penitenciário Anísio Jobim Semiaberto fizeram um buraco no muro e invadiram o presídio vizinho, o Compaj Fechado.

Domingo, 01/01/2017
16h
Anísio Jobim

Familiares começaram a receber informações de um possível motim dentro da unidade prisional e alguns se dirigiram ao local. Houve trocas de tiros entre detentos e policiais militares que faziam a guarda do Compaj.

Domingo, 01/01/2017
20h
Anísio Jobim

Governo local confirmou a rebelião e comunicou a morte de pelo menos seis detentos e a manutenção de 12 reféns -- funcionários da empresa Umanizzare, responsável pela administração do presídio.

Domingo, 01/01/2017
22h
Anísio Jobim

Secretaria de Segurança Pública do Amazonas anunciou a liberação de quatro dos 12 reféns.

Segunda, 02/01/2017
7h
Anísio Jobim

Os últimos oito reféns foram liberados sem ferimentos graves, após negociações com o governo, que retomou a gestão do presídio.

Segunda, 02/01/2017
11h
Anísio Jobim

Secretaria de Administração Penitenciária fez coletiva de imprensa e noticiou a morte de pelo menos 60 detentos (o número depois seria ajustado para 56) e a fuga de outros 148. Além disso, confirmou que o motim foi fruto de desavença entre as facções Família do Norte (FDN) e Primeiro Comando da Capital (PCC).

Segunda, 02/01/2017
17h
Unidade Prisional de Puraquequara

Após o massacre contra o PCC no Complexo Anísio Jobim, a tensão entre as duas facções chegou à Unidade Prisional de Puraquequara (UPP). Durante o banho de sol, quatro detentos do grupo criminoso foram decapitados pelos membros da FDN. A situação foi controlada logo depois.

Domingo, 08/01/2017
3h
Cadeia Pública Desembargador Raimundo Vidal Pessoa

Cerca de 280 presos integrantes do PCC foram transferidos para a Cadeia Pública Desembargador Raimundo Vidal Pessoa, após o massacre no Compaj. Sete dias depois, no entanto, houve um novo motim que deixou quatro mortos e dois foragidos. Segundo o governo do Amazonas, a violência foi causada por um conflito interno à facção.

Complexo Penitenciário
Anísio Jobim (COMPAJ)
  • População carcerária no dia da rebelião: 1.224

  • Capacidade: 454

  • Inauguração: 1999

  • Localização: 30 km de Manaus

  • Os presídios ficam em meio a uma mata densa e a única forma de chegar ao local é por meio de uma estrada de asfalto

  • No dia do massacre, os presos do regime semiaberto fizeram um buraco no muro e invadiram o regime fechado

Unidade Prisional
de Puraquequara
  • População carcerária no dia da rebelião: 1.300

  • Capacidade: 614

  • Inauguração: 2002

  • Localização: 24km do centro de Manaus

  • O espaço fica próximo a um bairro residencial

Cadeia Pública
Desembargador
Raimundo Vidal Pessoa
  • População carcerária no dia da rebelião: 210

  • Capacidade: 250

  • Inauguração: 1907

  • Localização: Centro de Manaus -- 2km do Teatro Amazonas

  • A cadeia foi desativada em outubro de 2016, após recomendação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), por condições precárias

  • Após o massacre no Compaj, o governo do Amazonas resolveu usar o espaço para direcionar os presos do PCC, que continuavam sob ameaça de morte na unidade. De acordo com a Secretaria de Administração Penitenciária (Seap) do Amazonas, a medida é de urgência e provisória

Daniel Ferreira/MetrópolesNa periferia de Manaus, crianças brincam ao lado de pontos de tráfico de drogas.
Daniel Ferreira/MetrópolesAlguns pequenos até arriscam a vida em busca de diversão diante das poucas opções de lazer.
Daniel Ferreira/MetrópolesBecos e vielas estreitas e mal-iluminadas dão um ar fantasmagórico a partes do centro histórico da cidade amazonense.
Daniel Ferreira/MetrópolesO saneamento básico é precário. No bairro São José Operário, rios de esgoto correm em meio às casas e deixam um cheiro podre.
Daniel Ferreira/MetrópolesDurante o dia, as estreitas ruas do centro manauara ficam abarrotadas de carros.
Daniel Ferreira/MetrópolesÀ noite, no entanto, as avenidas ficam desertas e o policiamento é precário.
Daniel Ferreira/MetrópolesVista da Ponte Rio Negro, que conecta Manaus ao município vizinho de Iranduba.
Daniel Ferreira/MetrópolesVista do Teatro Amazonas, principal ponto turístico bem no centro de Manaus.
Daniel Ferreira/MetrópolesA auxiliar de serviços gerais Maria de Fátima Maciel ainda não se habituou à morte do filho, Renato Maciel.
Daniel Ferreira/MetrópolesA dor pela morte do filho Joniarlison Feitosa ainda assombra os dias da costureira Divaneide.
Daniel Ferreira/MetrópolesO massacre no Compaj também deixou órfãos, como os dois filhos de Antônio Muniz, morto no dia 1º de janeiro.
Daniel Ferreira/MetrópolesA manicure Angelina, mãe de Anthony e Antônio Muniz, ambos mortos no massacre, guarda fotos dos filhos no celular.
Daniel Ferreira/MetrópolesÀ Angelina restou a tarefa de cuidar dos filhos de Antônio, depois que a mãe das crianças as deixou.
O levantamento do perfil dos envolvidos nas chacinas de janeiro separa claramente criminosos perversos de outros que cometeram ilegalidades, mas não mataram nem violentaram. A cada 10, seis nunca haviam matado. E tinham mais chances de recuperação para convivência em sociedade. No mesmo balaio de detentos muito perigosos, aqueles que praticaram furto, roubo ou tráfico ficaram expostos duplamente: de se tornarem alvos preferenciais nas mãos de matadores incorrigíveis e de se juntarem a eles. Nos três cenários das tragédias, uma constatação se repete. Uma vez detidos, eles tinham de escolher um lado, que não era o da ressocialização, mas o de uma ou outra facção.
“Quando o governo abre mão de sua autoridade, alguém ocupa esse espaço de poder. O sistema prisional está dominado pelas facções”, diz Natanael de Lima Ferreira, corregedor-geral da Defensoria Pública de Roraima, um dos três estados atingidos pela crise prisional de janeiro. Ele conta que, na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo (Pamc), um terço dos presos é provisório e, uma vez dentro da cadeia, eles são coagidos a entrar em organizações criminosas administradas a partir dos próprios presídios. “Recebemos familiares desesperados porque têm parentes com prazo para serem batizados nas facções e, se negarem, pagarão com a vida. O massacre de janeiro era esperado e outros podem acontecer, se nada for feito”, prevê o corregedor.
Substituir grandes penitenciárias por cadeias menores evita que organizações criminosas se tornem vigorosasHenrique Baltazar Vilar dos Santos, juiz titular da Vara de Execuções Penais de Natal (RN)
Segundo ele, os apenados de Roraima são obrigados a pagar taxas periódicas de R$ 50 para manter o funcionamento das organizações criminosas: “E quem está do lado de fora tem de praticar novos delitos a mando dos bandidos”. A Secretaria de Justiça de Roraima admite que a não separação entre criminosos brutais e não assassinos agrava o tensionamento da comunidade prisional no estado. O diretor do Departamento do Sistema Penitenciário de Roraima, Alain Delon, justifica a mixórdia com a falta de estrutura, ao mesmo tempo que reconhece sua consequência mais óbvia: “Nessas condições, é quase impossível que o Estado impeça um parceiro de cela de matar um colega”.
As circunstâncias que Alain Delon discretamente pontua não são uma brecha no sistema, mas viraram o próprio sistema, em que presos têm acesso a celulares, drogas, armas brancas e de fogo e circulam livremente pelos corredores dos cárceres. Nas cadeias de Boa Vista, os apenados mantinham barracas improvisadas nas cozinhas, eles que guardavam as chaves para controlar a entrada e saída das celas, e os agentes só entravam duas vezes por dia nos presídios.
Rafaela Felicciano/Metrópoles
“Aqui manda quem pode e obedece quem tem juízo”10 mandamentos da Família - FDN – C.V.R.L (MC Pedrinho)
A ausência do Estado, que abriu mão de analisar, entender e controlar a rotina nas comunidades carcerárias, somada ao ambiente hostil e insalubre em que convivem pessoas de índoles erráticas criaram uma atmosfera de crise permanente. Como o Poder Público pode ser o detentor da responsabilidade por um sistema se sequer conhece a cor das pessoas que estão sob sua tutela? No Brasil é assim. As fichas de registro para o ingresso na prisão de Alcaçuz, em Natal, referentes aos 26 mortos no local, estavam incompletas. Em 23 casos, a raça não era conhecida (confira no filtro que reúne as informações sobre os 123 assassinados durante os massacres). E o mais chocante: no caso de quatro deles não se sabia o crime que os mantinha encarcerados. Quatro outros cadastros não informavam se o apenado havia sido condenado ou se aguardava julgamento.
Daniel Ferreira/MetrópolesNo Compaj, em Manaus, ocorreu um dos piores massacres da história do sistema carcerário do Brasil
Daniel Ferreira/MetrópolesO complexo de Manaus possui condições insalubres para a vida dos presos
Daniel Ferreira/MetrópolesBanheiros em condições precárias: restos de materiais de obras se acumulam no ambiente
Daniel Ferreira/MetrópolesApós as rebeliões, alas do Compaj, em Manaus, tiveram de ser reformadas
Daniel Ferreira/MetrópolesDentro do complexo amazonense, morreram 64 presos na primeira quinzena de janeiro de 2017
Daniel Ferreira/MetrópolesOs detentos do Compaj tinham trânsito livre pelas celas durante todo o dia. As alas eram controladas por "xerifes" do crime
Daniel Ferreira/MetrópolesAs alas do "seguro" no Compaj tiveram de ser reformadas para apagar marcas de sangue e destroços deixados por incêndios
Daniel Ferreira/MetrópolesA crise nos presídios do Amazonas atingiram o Compaj, a Cadeia Pública Vidal Pessoa e a Unidade Puraquequara
Daniel Ferreira/MetrópolesA administração do Compaj, presídio da capital amazonense, é feita pela empresa Umanizzare
Rafaela FeliccianoEm Natal, a Penitenciária Estadual de Alcaçuz ficou destruída depois da rebelião que terminou com 26 mortos
Michael MeloAssim como nas outras cidades dos massacres, em Boa Vista, detentos vivem em celas superlotadas
Nas dezenas de depoimentos colhidos pela reportagem ao longo dos seis meses de apuração, um drama se replica. Mães, irmãs, viúvas (os pais são figuras quase sempre ausentes) dos detentos mortos nas chacinas se ressentem de seus familiares não terem tido a chance nem de recuperação, nem de sobrevivência. Elas admitem as condutas criminosas deles, mas não se conformam com a impotência das autoridades.
O mesmo Estado que não consegue conter a criminalidade nas ruas, não controla a violência nas dependências dos presídios e sequer evita que delinquentes continuem a matar, roubar, estuprar e extorquir a partir de comandos emitidos por internos. As rebeliões de 2017 evidenciaram que as cadeias brasileiras não são um ponto-final para ciclos de violência. Mas funcionam como motores que impulsionam novos episódios de bestialidade. Romper com essa lógica depende de um estudo criterioso e estratégico das comunidades carcerárias. As tragédias realçam falhas, brechas, injustiças, incompetências, corrupções do regime prisional no maior país da América do Sul. Fechar olhos e ouvidos para uma realidade que atinge diretamente 622 mil famílias não elimina seus efeitos colaterais em toda uma sociedade presa ao sentimento de eterna insegurança.

Natal em chamas

Sábado, 14/1/2017
15h50
Alcaçuz

Era dia de visita em Alcaçuz e no chamado Pavilhão 5, o Presídio Estadual Rogério Coutinho Madruga, seis agentes penitenciários estavam de plantão. Três deles entregavam os pertences pessoais das visitas. Integrantes do PCC, abrigados no local, se recusavam a voltar para as celas. Diziam temer uma invasão dos presos da facção rival, encarcerados em Alcaçuz.

Sábado, 14/1/2017
16h
Alcaçuz

O clima esquentou. Mulheres de integrantes da facção perceberam presos de Alcaçuz em cima dos telhados dos pavilhões. Com medo de uma invasão, começaram um tumulto.

Sábado, 14/1/2017
16h10
Alcaçuz

Enquanto isso, agentes do Pavilhão 5 saíram do perímetro do complexo penitenciário, onde bloqueadores de sinal até então impediam a comunicação via celular, e telefonaram para o diretor da unidade, cargo na época ocupado por Ivis Ferreira. Ele deixou a cadeira em 17 de fevereiro. Ferreira orientou os guardas a voltarem ao presídio e “convencerem” os presos a entrar nas celas. Em troca, prometeu transferi-los, já que se sentiam ameaçados.

Sábado, 14/1/2017
16h25
Alcaçuz

No Pavilhão 5, os presos ficavam mais agitados a cada minuto. Afoitos para retomar o controle da situação, agentes atiraram com balas de borracha. Em resposta, os confinados colocaram fogo em colchões. Por causa da fumaça, os policiais recuaram. O presídio tinha apenas uma porta de entrada e saída e nenhuma de emergência. Eles foram para Alcaçuz e se refugiaram em uma espécie de esconderijo construído por eles no alto de uma escada improvisada.

Sábado, 14/1/2017
16h30
Alcaçuz

Os detentos do Pavilhão 5 atravessaram o único portão que os separava de Alcaçuz. A rebelião explodiu. Eles se juntaram aos presos do Pavilhão 3 e, juntos, invadiram o Pavilhão 4.

Sábado, 14/1/2017
16h40
Alcaçuz

Agentes de plantão em Alcaçuz acionaram a guarda do presídio, que ficava do lado de fora, para fazer as primeiras contenções. Os funcionários se refugiaram no hall de entrada de Alcaçuz, um espaço amplo entre as grades que separam a rua do pátio da penitenciária.

Sábado, 14/1/2017
17h30
Alcaçuz

No meio da confusão, cerca de 500 presos tentaram sair pela porta da frente de Alcaçuz -- a do hall, onde estavam os agentes. Policiais e presos trocaram tiros.

Sábado, 14/1/2017
20h30
Alcaçuz

A primeira equipe de reforço chegou: quatro motos da Rocam - Rondas Ostensivas com Apoio de Motocicleta - da Polícia Militar. Eles disseram que a confusão foi controlada por volta de 21h.

Quarta-feira, 18/01/2017
Alcaçuz

O governador Robinson Faria (PSD) autorizou a transferência de 205 presos ligados ao Sindicato do Crime RN. À noite, a tensão saiu do presídio e chegou às ruas. Revoltados, integrantes do Sindicato incendiaram ônibus e veículos e atiraram contra prédios públicos. Incidentes do tipo foram registrados em pelo menos oito cidades do Rio Grande do Norte.

Quinta-feira, 19/01/2017
Alcaçuz

A transferência do dia anterior fez o clima voltar a esquentar em Alcaçuz. Houve novos confrontos e o diretor da unidade, Ivo Freire, levou um tiro de raspão. No mesmo dia, o presidente Michel Temer autorizou o emprego das Forças Armadas nas ruas da capital do estado para conter a onda de violência iniciada na noite anterior.

Sexta-feira, 27/01/2017
Alcaçuz

Com 13 dias de rebelião, o Estado decidiu retomar de vez o controle da situação. Homens do Grupo de Operações Especiais do Rio Grande do Norte e da Força Nacional de Intervenção Penitenciária entraram na penitenciária de Alcaçuz. A ação fazia parte da chamada Operação Phoenix que, além de retomar o controle do presídio, coordenou varreduras, busca por corpos e a reconstrução da unidade - ou do que foi possível recuperar dela.

Penitenciária Estadual de Alcaçuz
  • População carcerária no dia da rebelião: 1.163

  • Capacidade: 650

  • Inauguração: 1998

  • Localização: Nísia Floresta (20km de Natal)

  • Abriga apenas presos condenados. Nenhum dos mortos era preso provisório

  • Próximo a pontos turísticos importantes do estado, como O Maior Cajueiro do Mundo e a praia de Pirangi do Sul, uma das mais badaladas da região, onde grandes shows e eventos acontecem

Penitenciária Estadual
Rogério Coutinho
Madruga
(Pavilhão 5)
  • População carcerária: 389

  • Capacidade: 420

  • Inauguração: dezembro de 2010

  • Localização: Nísia Floresta (20km de Natal)

  • Conhecido como Pavilhão 5 porque, no início, foi usado como quinto pavilhão de Alcaçuz

  • A construção, mais moderna, foi baseada em moldes americanos e feita em pré-moldado

Michael Melo/Metrópoles

Presos por raça/cor

O gráfico mostra o quanto a quantidade de detentos supera a de vagas oferecidas nas cadeias
 

População Carcerária

Dados do Infopen - Ministério da Justiça, 2014
Daniel Ferreira/Metrópoles