Cristina Del’Isola
Tenho medo de enlouquecer quando penso em tudo que ela passou. Vivo pela certeza de que Deus não a desamparou
A mãe de Maria Cláudia busca forças na religião para conseguir viver depois da tragédia. Montou em casa uma capela com centenas de imagens de Nossa Senhora e promove mensalmente um momento de oração em memória da filha. Visitantes frequentam o local e alguns acreditam em um poder de cura atribuído a Maria Cláudia. Famílias de vítimas de violência buscam conforto ali. “Eu não vivo em função disso. Amigos e familiares se tornaram sensíveis à nossa dor e nos mostram que não estamos sozinhos”, afirma. Cristina fundou o Movimento Maria Cláudia Pela Paz, que promove caridade em instituições sem fins lucrativos de Brasília. Também encontrou nos exercícios físicos uma forma de manter-se saudável mental e fisicamente. “Tenho medo de enlouquecer quando penso em tudo que ela passou. Vivo pela certeza de que Deus não a desamparou”, diz.
Marco Antonio Del’Isola
Não tem um único dia em que não pense nela. O que nos conforta é acreditar que nossa filha foi acolhida junto ao Pai
O pai de Maria Cláudia é um homem discreto, mas que sempre esteve ao lado da mulher, Cristina, na luta por Justiça. Hoje tem 60 anos e dois netos, que são a alegria da casa. Não é mais diretor do colégio Marista, como na época do crime, mas ainda trabalha na área da educação. “Não há um único dia em que não pense nela. O que nos conforta é acreditar que nossa filha foi acolhida junto ao Pai.”
Desembargador João Egmont Leôncio Lopes
Um juiz vê muita maldade, mas aquele caso ultrapassou tudo que eu já tinha presenciado. Perguntei por que Bernardino havia feito aquilo. Ele respondeu que não era a intenção dele, quando viu já tinha começado e foi até o fim
Cearense de Fortaleza, o magistrado de 57 anos começou a carreira no Tribunal de Justiça do DF e dos Territórios (TJDFT) em 1990, como juiz substituto. Dezessete anos depois, já como titular do Tribunal do Júri de Brasília, atuou no caso que considera o mais marcante de sua vida: o julgamento de Bernardino e Adriana pelo estupro, assassinato e ocultação do cadáver de Maria Cláudia. Foi dele também a condenação de Bernardino no estupro e tentativa de homicídio contra Geane Barbosa da Silva.
Em 2010, Egmont foi promovido a desembargador. Atualmente, atua na 5ª Turma Cível e na 3ª Câmara Cível do TJDFT. Leciona disciplinas do direito em instituições particulares da cidade. Doze anos e dezenas de julgamentos depois, a lembrança do assassinato de Maria Cláudia ainda está clara na memória. “Um juiz vê muita maldade, mas aquele caso ultrapassou tudo que eu já tinha presenciado. Perguntei por que Bernardino havia feito aquilo. Ele respondeu que não era a intenção dele. Disse que, quando viu, já tinha começado e foi até o fim”, afirma.
Promotor Maurício Miranda
O ódio dos dois contra a Maria Cláudia era notável. Quando se observa a história da família com os acusados, percebe-se o quanto foi desproporcional e injusto o que cometeram. Foram cruéis com alguém que sempre ajudou
Responsável pela acusação dos assassinos de Maria Cláudia, Maurício Silva Miranda é um promotor com trabalho elogiado no Ministério Público. Por muitos anos, se dedicou ao Tribunal do Júri. Conhecido pela atenção que dá a todos os processos em que atua, Miranda define o caso como uma crueldade. “O ódio dos dois contra a Maria Cláudia era notável. Quando se observa a história da família com os acusados, percebe-se o quanto foi desproporcional e injusto o que cometeram. Foram cruéis com alguém que sempre ajudou”.
Maurício Miranda começou a carreira de promotor em 7 de maio de 1987, no Ministério Público de Goiás. Quatro anos depois, tomou posse no MPDFT. Depois de sustentar a acusação em muitos júris, Miranda deixou a área em janeiro de 2015. Aos 51 anos, se dedica à Promotoria de Defesa da Vida (Pró-vida). Voltará ao antigo cargo apenas para o julgamento de Adriana Villela, acusada de participar do assassinato dos pais, Maria Carvalho Mendes Villela e o ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral José Guilherme Villela, e da empregada da família, Francisca Nascimento da Silva, em 2009.
Policial civil Ricardo Cardoso
Mexendo na terra, dentro do quartinho, senti algo sólido e vi que era pele humana. Chamei o Marco (pai da Maria Cláudia) e falei. Ele perguntou se eu tinha certeza que era ela. Respondi que não, mas que tinha certeza de que havia um corpo ali
Agente da Polícia Civil desde 1991, Ricardo era amigo da família de Maria Cláudia antes do desaparecimento da jovem. Pela proximidade, em 9 de dezembro de 2004, recebeu uma ligação de Cristina. “Ela dizia: ‘Ricardo, acha a minha filha para mim’”, lembra. Lotado à época na Divisão de Operações Especiais, o policial não saiu de perto dos familiares até o corpo de Maria Cláudia ser encontrado.
Foi ele, inclusive, que localizou o cadáver da jovem dentro da casa. “Mexendo na terra, dentro do quartinho, senti algo sólido e vi que era pele humana. Chamei o Marco (pai da Maria Cláudia) e falei. Ele perguntou se eu tinha certeza de que era ela. Respondi que não, mas que tinha certeza de que havia um corpo ali”, lembra. Neste momento, a família foi retirada da casa.
Ricardo também participou da prisão do caseiro na Bahia. Veio ao lado dele dentro do avião. “Durante todo o caminho, Bernardino ficou de cabeça baixa. Falou que tinha feito aquilo porque era um fraco”, conta.
Hoje, aos 49 anos, o policial dirige a Divisão de Controle e Custódia de Presos (DCCP) da PCDF e cursa direito na mesma universidade em que a mãe de Maria Cláudia trabalha como coordenadora. “Todas as vezes que olho para ela, lembro do caso, o pior que já trabalhei na minha vida”, resume.
Delegado Antônio Romeiro
Verdadeiramente, foi um caso extraordinário no mundo inteiro. A família abriu as portas de casa para os dois. Só pessoas com problemas graves e psicológicos fariam isso
Partiu da delegacia que Antônio Romeiro chefiava, a 10ª DP, no Lago Sul, o indiciamento de Bernardino e Adriana pelos crimes cometidos contra Maria Cláudia. O delegado colheu o depoimento do casal de assassinos mais de uma vez. Ouviu também a família, os amigos da vítima e até jornalistas.
No relatório final do caso, indiciou os dois sem ter qualquer dúvida sobre a participação deles no crime brutal. “Verdadeiramente, foi um caso extraordinário no mundo inteiro. A família abriu as portas de casa para os dois”, disse o delegado aposentado.
Romeiro começou a carreira de delegado em junho de 1986. Passou por mais de 10 delegacias, foi diretor de assuntos estratégicos e diretor-adjunto da corporação até se aposentar, em agosto de 2013. Atualmente, aos 55 anos, trabalha como advogado.
Bernardino do Espírito Santo

Nasceu em 24 de agosto de 1974 em Salvador, na favela Calabar. Vem de família pobre e tem três irmãos. Na infância, praticava pequenos furtos e usava drogas. Aos 20 anos, foi preso por roubo a um supermercado. Ele ameaçou funcionários com uma faca. Também furtou objetos dentro de um ônibus. À época do crime, andava sempre com um alvará de soltura em seu bolso, caso fosse abordado pela polícia. Bernardino tem quatro filhos, três vivem na Bahia e um em Brasília.
A ficha de presidiário de Bernardino não tem elogios nem críticas ao seu comportamento. Ele chegou a trabalhar na cozinha da cadeia, mas perdeu o privilégio ao ser levado para o seguro, na ala de segurança máxima do Complexo Penitenciário da Papuda. Por muito tempo, ficou em uma cela no Bloco F do PDF-1, com cerca de 20 metros, sem contato com qualquer outro interno. Lá, a partir de uma porta, tinha acesso ao banho de sol individual. Nessa ala, ficam os presos de alta periculosidade, como lideranças negativas e os que não podem se misturar com outros detentos.
Recentemente, o assassino foi transferido para uma cela coletiva, com outros 10 presos, todos condenados por crimes sexuais. O grupo toma banho de sol junto. Segundo servidores do complexo, o ex-caseiro passa a maior parte do tempo sozinho e não apresenta problemas de comportamento. A única diversão é o aparelho de tevê do presídio.
Atualmente, Bernardino tenta migrar do regime fechado para o semiaberto. A Vara de Execuções Penais avalia o pedido, pois ele já cumpriu mais de um sexto da pena, conforme prevê a legislação, e, desde agosto do ano passado, tem direito ao benefício. Para sair da prisão, porém, precisará provar que tem condições de conviver em sociedade, por meio de avaliação psicológica. O ex-caseiro nunca recebeu visita e não há qualquer nome na lista de pessoas autorizadas a vê-lo na cadeia.
Adriana de Jesus Santos

Nascida em Ibicaraí (BA), foi criada no Calabar, onde conheceu Bernardino. Tem dois filhos, que vivem na Bahia. O mais novo, Filipe, morava com ela na casa dos Del’Isola e nunca chamava Adriana de mãe. A personalidade fria dela também é percebida dentro da cadeia. Adriana não fala com as outras detentas, mesmo trabalhando como auxiliar dos agentes penitenciários. O único contato que tem com as presas é quando faz a entrega de uniformes e colchões. Também ajuda na limpeza. Há alguns anos, concorreu a Miss Penitenciária, em uma das raras vezes que interagiu com as outras condenadas. Ela não levou o título.
Como quase não recebe visitas, Adriana arrecada dinheiro fazendo a “xepa”. Lava as roupas, os chinelos e faz faxina na cela das colegas. Pelos serviços, recebe cerca de R$ 20. Os pagamentos são feitos às quintas-feiras, dia de visita no presídio. Por três vezes, a ex-empregada recebeu diagnóstico de transtornos de personalidade e psicopatia, em avaliações psiquiátricas. Apesar de recomendação médica, se recusou a fazer tratamento por alegar “estar bem”.

Presa por estelionato, uma mulher de 64 anos que não quis ter o nome divulgado dividiu a cela na Colmeia com Adriana durante oito meses. Deixou o presídio há cerca de um ano e volta ao local quinzenalmente para levar hidratante para a pele, cremes de cabelo e frutas para a assassina de Maria Cláudia.
A mulher é a única pessoa cadastrada para vê-la. A amiga tenta tirar Adriana da prisão. Desde junho de 2014, ela tem direito à progressão de regime, ou seja, poderia cumprir a pena no semiaberto. Costureira e dona de uma pequena confecção em Samambaia, a ex-colega de cela ofereceu emprego como auxiliar no comércio à Adriana. A Vara de Execuções Penais (VEP), no entanto, negou o pedido. Segundo o juiz Vinícius Santos Silva, a detenta continua “na mesma condição psicológica em que se encontrava à época do crime, sem qualquer avanço durante o cumprimento da pena”.
Na visão do magistrado, não seria “prudente” colocá-la no mercado de trabalho “sem que, ao menos, tenha aprendido a lidar e controlar suas emoções, especialmente raiva, violência, inveja, insegurança e impulso sexual.”
A única amiga de Adriana foi até a Bahia conversar com a família da assassina. Uma irmã e os filhos da ex-empregada dos Del´Isola devem visitá-la no Presídio Feminino do DF, pela primeira vez, ainda este ano.
Em dezembro de 2015, o
Metrópoles pediu à Vara de Execuções Penais autorização para entrevistar Adriana e Bernardino. Não houve resposta até a publicação desta reportagem.