Você sabe o que é estresse tóxico?
Situações de negligência e descaso podem causar danos irreversíveis ao desenvolvimento cerebral das crianças
atualizado
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Miguel devia ter pouco mais de 1 ano quando, depois de uma sequência de noites difíceis, com ele pendurado no meu peito boa parte do tempo, eu e meu marido decidimos que já era a hora de nosso filho deixar de ser tão dependente de mim para voltar a dormir. Não lembro muito bem como foi, só sei que, lá pelas tantas, ele despertou e ficamos no outro quarto, o ouvindo chorar, decididos a dar um basta naquele grude.
Durou uns 15 minutos. Levantei da cama, disse que essa estratégia não era para mim, que não fazia o menor sentido deixá-lo daquele jeito.
Naquela época eu não sabia, mas esse tipo de situação – deixar um bebê chorando, sem assistência – é uma das causas do chamado estresse tóxico (ET). O ET ocorre, basicamente, quando a criança é submetida a um nível de estresse maior do que é capaz de suportar.
É muito fácil compreender o conceito quando pensamos em casos de violência ou abuso infantil ou mesmo em situações de extrema pobreza, com meninos e meninas sem acesso à alimentação e à escola, por exemplo. O ET, contudo, atinge crianças de todas as classes sociais.“Mesmo crianças que têm casa, comida, roupas, brinquedos, podem sofrer de estresse tóxico. A negligência tem um impacto tão sério no desenvolvimento cerebral quanto as agressões, por exemplo”, diz a pediatra Fabiana Araújo Mendes. Ela é uma das autoras de um estudo sobre o ET, que acaba de ser divulgado pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).
O relatório traz orientações para pediatras sobre como atuar na prevenção ao estresse tóxico. As recomendações incluem intervenções relacionadas ao uso de telas (TV, celular e tablet) pelas crianças, rotina de estudos, brincadeiras, tempo ao ar livre e alimentação, entre outros aspectos da vida infantil.
Fabiana explica que a exposição precoce e constante a situações de descaso e negligência provoca a liberação excessiva de cortisol, o hormônio do estresse. A curto, médio e longo prazo, isso pode gerar alterações nas conexões cerebrais, afetando definitivamente o desenvolvimento das crianças. É preciso, então, evitar a todo custo situações estressantes? Na verdade, não.
O estresse positivo também tem a sua importância. As crianças precisam passar por situações adversas, por frustrações, para terem um desenvolvimento completo
Fabiana Araújo Mendes
A medida, esclarece a pediatra, é dar a meninos e meninas o apoio necessário para que cresçam a partir das próprias experiências. “O aprendizado inclui a vivência de momentos difíceis, como a chegada de um irmão, a doença de algum membro da família”, exemplifica. “A criança precisa saber que vai ficar triste, que vai chorar, que pode sentir raiva, mas que sempre terá o pai, a mãe ou outro adulto por perto”, completa.