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O passo a passo do parto feito em casa

O estranhamento sobre esse tema se deve à falsa ideia de que o parto natural é algo difícil e complicado, mas também à desinformação sobre como tudo isso funciona

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Foto: Juliana Matos Fotografia
PARTO
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Volta e meia, quando conto que meus filhos nasceram em casa, as pessoas me olham espantadas e soltam frases do tipo “que coragem!”, “mas sem anestesia?!”, “você não teve medo?” e por aí vai. Penso que o estranhamento se deve à falsa ideia de que o parto natural é algo difícil e complicado, mas também à desinformação sobre como funciona um parto domiciliar planejado.

Eu mesma, antes de optar por isso, grávida do meu primeiro filho, achava que parir em casa era uma coisa hippie demais. Nunca havia pensado no assunto, mas meu imaginário – e acho que o de boa parte das pessoas – trazia a figura de uma parteira idosa, que ajudaria o bebê a nascer com ervas e infusões.

Lendo muito e conversando com mulheres que tiveram seus bebês no conforto do lar, aprendi que não é nada disso – pelo menos, não só isso. No Brasil, existem dois tipos de partos domiciliares, digamos assim. Os que são realizados por parteiras tradicionais, em lugares onde, normalmente, os serviços de saúde não estão disponíveis, e os realizados por parteiras urbanas: obstetrizes e enfermeiras obstétricas. Também há médicos obstetras que acompanham nascimentos em casa.

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“A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Federação Internacional de Ginecologistas e Obstetras respeitam o direito de escolha do local de parto pelas mulheres e reconhecem que, quando assistido por profissionais habilitados, há benefícios consideráveis para as que querem e podem ter partos domiciliares”, afirma a médica Melania Amorim, uma das maiores referências brasileiras em humanização do nascimento.

Querem e podem são duas considerações importantes. Esse tipo de experiência é para aquelas que se sentem seguras e amparadas no ambiente doméstico, mais do que se estivessem em um hospital. Sobre poder ter um parto assim, há dois aspectos: o financeiro, que limita essa possibilidade às famílias com condições de pagar pela assistência das equipes em domicílio, e o médico, uma vez que só gestantes de baixo risco (ou risco habitual) podem fazer o parto domiciliar.

Recentemente, uma pesquisa holandesa confirmou que, entre essas mulheres, os partos realizados em casa são menos arriscados que os hospitalares, especialmente se for a segunda gravidez. Assim, considerando que parir em casa é seguro, aí vai um “passo a passo” de como funciona esse tipo de assistência:

1) A primeira coisa é a escolha da equipe. Além de buscar profissionais qualificados, é importante conhecer relatos sobre como é o atendimento. Em uma analogia meio tosca, é como quando buscamos alguém para construir uma casa: é preciso ter segurança de que o trabalho será bem executado. Hoje, com as redes sociais, é possível encontrar uma série de depoimentos sobre as equipes que fazem partos domiciliares nas grandes e médias cidades.

2) Durante o pré-natal, são feitas consultas mensais, com a avaliação do peso e da pressão arterial da mãe e dos batimentos cardíacos do bebê. Nesses encontros, também são abordados aspectos emocionais relacionados à gravidez e ao parto. Toda a família – inclusive irmãos mais velhos, se for o caso – pode participar das consultas, expondo medos e expectativas para a chegada da criança. Os encontros com as parteiras não eliminam a necessidade de acompanhamento médico, que é o profissional responsável por pedir os exames de sangue, de urina e os ultrassons.

3) Quando a data provável para o parto se aproxima, a equipe agenda uma visita à casa da família. Também é passada uma lista de materiais que devem ser comprados para o parto. São coisas simples, como panos de chão, tapetes higiênicos descartáveis e sacos de lixo. Itens como banheira inflável e banqueta para o parto podem ser emprestados pela equipe ou por outras mulheres que já passaram pela experiência.

Nessa fase, também é definido o plano B (às vezes, o plano C) para o dia do parto. Caso haja algum sinal de que as coisas não estão evoluindo dentro da normalidade, ou mesmo caso a mulher mude de ideia e deseje uma anestesia, a equipe e a família precisam estar alinhadas para saber à qual unidade de saúde devem recorrer.

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4) Ao verificar sinais do início do trabalho de parto (como contrações doloridas e ritmadas), a parteira vai à casa da mulher para verificar os batimentos cardíacos do bebê e a dilatação. Muitas vezes, o trabalho de parto está muito no começo, então, a equipe costuma deixar seus materiais na residência da família e ficar de sobreaviso. Esses materiais incluem recursos para estancar hemorragias, fazer suturas ou reanimação neonatal.

5) Quando começa a fase ativa do trabalho de parto, a equipe volta à residência. Se for necessário, é realizado mais um exame de toque para avaliar a dilatação. Não há, entretanto, nenhum tipo de pressão para que a mulher chegue logo à dilatação completa, ao contrário do que costuma acontecer em muitos hospitais. Buscando acelerar o trabalho de parto, muitas instituições aplicam ocitocina sintética como rotina, aumentando a intensidade e a dor das contrações. Não raro, nessa hora, muitas gestantes imploram por analgesia ou mesmo por uma cesariana.

Em casa, para o alívio da dor, podem ser realizadas massagens, caminhadas, agachamentos e banhos com água quente. Além disso, dá para contar com o apoio constante do companheiro – que não precisa ficar preocupado com burocracias hospitalares. O pai dos meus filhos costuma dizer que o parto em casa permitiu que ele desse à luz um pouquinho junto comigo.

6) Depois que o bebê nasce, ele vai imediatamente para o colo da mãe. A menos que haja necessidade de reanimação, os testes são feitos com a criança ali mesmo, sem que sejam realizados procedimentos de rotina desnecessários. Em seguida, sai a placenta e o pai – ou outro familiar presente – é convidado a cortar o cordão umbilical. As parteiras limpam a mulher, a vestem e ensinam como funciona a pega da amamentação, tudo isso na primeira hora de vida do bebê. Simples assim.

Hoje, não consigo imaginar outra forma na qual eu pudesse trazer meus filhos ao mundo. Mas, como escrevi acima, sei que o parto domiciliar de qualidade não é acessível para a maioria das mulheres. Assim, é muito importante a luta pela humanização do nascimento nas instituições de saúde, em especial as que funcionam pelo Sistema Único de Saúde. Todas as mulheres merecem passar por essa experiência da forma mais acolhedora possível.

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