O estilo de Flaubert em três contos vivos

Conhecido pelo romance realista Madame Bovary, o francês concluiu sua produção literária com histórias de diferentes vertentes

Stefano Bianchetti/CORBIS/Corbis via Getty ImagesStefano Bianchetti/CORBIS/Corbis via Getty Images

atualizado 14/08/2019 12:25

Numa cena do conto Um Coração Simples, Felicité quer saber onde fica Cuba, para onde navegou o querido e generoso sobrinho. Decide pedir ajuda ao sr. Bourais, que toma o mapa e começa “a explicar as longitudes”. Com uma lapiseira, encontra um ponto negro: Havana. Ela pede que ele lhe mostre “a casa onde estava Victor”. Bourais diverte-se com a “candura” de Felicité, “ela, que talvez esperasse ver até o retrato do sobrinho, tão limitada era sua inteligência!”.

Em meados do século 19, não havia Google Maps ou similares. A fotografia ainda não estava ao alcance dos olhos na tela. O mapa confundia-se menos com o território. A velha criada, dona do “coeur simple” do título, é personagem de uma obra-prima que se faz da “dolorosa ironia flaubertiana”, para lembrar avaliação crítica de Otto Maria Carpeaux. Quando nada é exatamente o que parece, esta pequena história abre e conclui o projeto literário de Gustave Flaubert (1821-1880).

A trajetória de Felicité está no volume intitulado Três Contos, agora em nova e belíssima edição da Editora 34, com tradução assinada por Milton Hatoum e Samuel Titan Jr., profundos conhecedores da literatura francesa. A L&PM também acaba de colocar nas livrarias versão pocket, traduzida por Júlia da Rosa Simões. Essa dose dupla traz de volta o estilo refinado do autor do megaclássico Madame Bovary. Os contos A Legenda de São Julião Hospitaleiro e Herodíade completam o livro.

Ler Flaubert a essa altura do campeonato é vislumbrar o pioneirismo de um escritor que antecipou muito do que seria a literatura, como se colocasse o retrato no devido lugar da casa realista. Só que não apenas. Porque a segunda e a terceira histórias abandonam temporariamente o ponto de vista de um narrador calculista para deslumbrar o leitor com fabulações fantásticas no seu misticismo religioso e épico, nas quais a capacidade descritiva do texto pode atingir ápices.

Com alguma tranquilidade para enfrentar a nomeação de paisagens e objetos distantes do nosso cotidiano, os olhos contemporâneos deslizam por homens e mulheres indizíveis, por cidades e castelos invisíveis. Em seu último livro publicado em vida (1877), a prosa de Flaubert está com tudo: afiada, forte, pujante. Na apresentação, Samuel Titan Jr. recorda que os jornais da época destacaram o tom cândido e piedoso de “histórias exemplares”, sempre girando em torno de um protagonista.

Entre a vida comum e a biografia extraordinária, a pena de ganso trabalha cada frase como se fosse a primeira e a última. São lições de rigor muito bem resolvidas no primeiro e no segundo contos. Menos interessantes, contudo, em Herodíade, que parece cair nas mesmas chatices do romance Salammbô (1862), ainda que com vontade diversa, justamente a de salvar a escrita anterior. A precisão da imagem parece se perder quando adentra painel histórico confuso, uma pesquisa prolixa.

Nada que deponha contra o conjunto desta última entrega (inacabado, Bouvard e Pécuchet seria publicado em 1881, após a morte). O nosso pequeno burguês soube sobrepor à literatura uma camada estética indelével, que tanta falta faz nos dias chatos e corretos de hoje. Enfrentou a herança de Honoré de Balzac e antecipou o naturalismo de Émile Zola e o entrelugar de Eça de Queiroz, entre tantos outros.

Se o tempo estiver escasso, caro leitor, cara leitora, guarde-o para Um Coração Simples e A Legenda de São Julião Hospitaleiro, pequenas e opostas obras-primas. No calor da lamparina literária, a prosa de Flaubert é divina como a paixão, na vida simples dos seres comuns como Felicité e na comunhão dos santos arrependidos como Julião. Por meio da atitude e da palavra sinceras, corre apenas o risco de se transformar em amor terreno e etéreo. Num piscar de olho, no passar de página.

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