Festival de Brasília: leia crítica do filme A Sombra do Pai

Trama de assombração dirigida por Gabriela Amaral Almeida foi o destaque desta quinta (20/9) na mostra competitiva do evento

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atualizado 21/09/2018 12:08

Em noite só de diretoras mulheres no 51º Festival de Brasília, três filmes levaram um pouco de cultura pop para a mostra competitiva do evento. Os curtas Plano Controle (MG), de Juliana Antunes, e Guaxuma (PE), de Nara Normande, única animação da seção principal, e o longa de terror A Sombra do Pai (SP), de Gabriela Amaral Almeida, foram exibidos nesta quinta (20/9).

Plano traz uma história de teletransporte de uma jovem que tenta viajar para Nova York e acaba voltando para os anos 1990. Com tons autobiográficos e diversas técnicas de animação utilizadas, Guaxuma narra infância e adolescência da diretora pernambucana. A Sombra do Pai acompanha uma menininha tentando trazer a mãe do mundo dos mortos.

Leia críticas dos filmes exibidos na noite de quinta (20/9) no Festival de Brasília:

A Sombra do Pai (SP), de Gabriela Amaral Almeida: fé na fábula
Diretora de potentes curtas premiados em Brasília (A Mão que Afaga e Estátua!) e de um recente longa (O Animal Cordial) de terror cheio de tensões sociais e de classe, a baiana radicada em São Paulo desta vez entra no cotidiano de uma família esfacelada na periferia da metrópole.

A pequena Dalva (Nina Medeiros), acostumada a ficar bastante tempo sozinha, se sente ainda mais solitária quando sua companhia mais fiel, a tia Cristina (Luciana Paes), decide se casar, assim deixando a residência de Jorge (Júlio Machado), pai da garotinha. A mãe morreu há dois anos em um acidente.

Dona de um olhar mui dedicado a pequenos detalhes de cena e capaz de mover a história com fluidez, sem perder tempo, Almeida aos poucos mostra o fascínio da menina pelo oculto, pelo sobrenatural. Um pouco ela aprende com a tia, que inclusive fez mandinga para fisgar seu marido. Outra parte ela desenvolve vendo filmes de terror dublados na TV, como A Noite dos Mortos-Vivos (1968) e Cemitério Maldito (1989).

 

Dalva usa todo um vasto conhecimento de crenças populares e superstições para chamar a mãe de volta do mundo dos mortos – no começo, ela recebe do pai uma caixa com trança de cabelo, um par de dentes e uma correntinha após a exumação do corpo. Enquanto isso, Jorge vive desorientado. Pedreiro, perdeu um amigo na obra em que trabalha dia e noite. E tem um ferimento nas costas que custa a sarar. A filha acha até que ele está se transformando em um zumbi.

Almeida, mais uma vez, recebe ajuda imprescindível da fotógrafa uruguaia Barbara Alvarez (a mesma de O Animal Cordial) para construir o visual do filme, a meio caminho entre esmaecido e puído, ideal a uma família em pedaços.

A Sombra do Pai por vezes enfrenta alguns probleminhas de ritmo e harmonia narrativa no terço final, quando as tensões se acumulam especialmente em torno do pai, um personagem que condensa com alguma eficiência a inabilidade masculina diante da responsabilidade solitária de cuidar da filha. Toda a sequência do parquinho é especialmente genuína nesse sentido, com o pai quase jogando a criança para fora do balanço.

Um terror genuinamente brasileiro e independente – mais sugere do que mostra, mais tensiona do que assusta –, interessado na cultura popular e em retratar com delicadeza o drama de uma criança obrigada a reconstituir uma casa assombrada pela ausência adulta.

Avaliação: Bom

Plano Controle (MG), de Juliana Antunes: teletransporte nostálgico
Que tal uma trama envolvendo operadora de celular, teletransporte, viagem no tempo e fetichismo pela imagem em VHS? São esses elementos que compõem o divertidíssimo curta de Juliana Antunes, conhecida pelo longa Baronesa (2017).

O ano é 2016, do impeachment de Dilma Rousseff. A jovem Marcela (Marcela Santos) tenta usar o serviço de teletransporte da operadora Slim para visitar Nova York. Mas acaba caindo no bairro genérico mineiro de mesmo nome.

Em cada viagem, surgem interferências que jogam na tela imagens clássicas da TV nacional – do dramalhão Maria do Bairro à banheira do Gugu, passando por Jean-Claude Van Damme com ereção depois de dançar com Gretchen no Domingo Legal.

Numa dessas jornadas, ela cai nos anos 1990 e conhece outro viajante, um homem gay dos anos 1970. Eles jogam sinuca, veem o ET de Varginha na telinha. Um filme que o tempo inteiro propõe uma relação muito autêntica e espirituosa com o tempo, suas imagens e memórias coletivas.

Avaliação: Ótimo

Guaxuma (PE), de Nara Normande: amigas para sempre
O curta pernambucano se movimenta elegantemente por diferentes técnicas de animação. Do desenho tradicional com texturização que simula areia ao stop-motion feito com areia propriamente dita.

Na trama, seguimos o fio das memórias de Nara Normande e sua amizade com Tayra, com quem cresceu na praia que dá título ao filme. Brincadeiras, descoberta da sexualidade, uma separação traumática quando a diretora se mudou para a cidade.

Fotos antigas fincadas na areia e imagens reais dão um tom sentimental, mas jamais piegas à história e ajudam a solucionar desafios de transição entre uma cena e outra. Um trabalho de acabamento impecável cuja narrativa consegue articular autobiografia e cinema fantástico.

Avaliação: Ótimo