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A origem da operação Unfair Play, desencadeada nesta terça-feira (5/9), no Rio de Janeiro, é a convicção de procuradores do Ministério Público Financeiro de Paris, na França, e do Ministério Público Federal (MPF), do Brasil, de que encontraram rota da propina.

Os investigadores acreditam que acharam os vínculos entre contratos firmados pelo governo fluminense por serviços públicos prestados por empresa terceirizada e US$ 2 milhões (R$ 6,2 milhões) pagos em vantagens indevidas a integrantes do Comitê Olímpico Internacional (COI).

A investigação se iniciou em Paris sobre suspeitas de corrupção no processo de seleção das sedes dos Jogos Olímpicos de 2016 e de 2020. As cidades escolhidas pelos integrantes do COI foram o Rio de Janeiro e Tóquio, a partir de processos de votação realizados por dirigentes esportivos de todo o mundo.

A apuração realizada pelos procuradores do Ministério Público Financeiro da França encontrou, no fim do ano passado, traços da movimentação financeira em favor de dois nomes, Lamine Diack, então presidente da Federação Internacional de Atletismo (IAAF) e membro do COI, e seu filho, Papa Massata Diack.

Pelas investigações, que contaram com a ajuda da Justiça nos Estados Unidos, foram localizados traços de pelo menos duas transferências realizadas em favor de Papa Diack, no valor de US$ 1,5 milhão (R$ 4,7 milhões) e US$ 500 mil (R$ 1,5 milhão), às vésperas da definição da sede dos jogos de 2016.

A principal dessas transações foi feita em 29 de setembro de 2009 entre a Matlock Capital Group, empresa com sede em Miami, nos Estados Unidos, e a Pamodzi Consulting, empresa de Papa Massata Diack. Três dias depois, o Rio foi escolhido.

As investigações apontaram que a Matlock Capital Group pertencia na realidade ao empresário brasileiro Arthur Soares. O brasileiro Arthur Soares era um dos pivôs da apuração, porque uma de suas empresas no Brasil, o Grupo Facility, então sua principal companhia, chegou a ser o maior prestador de serviços privados do Rio, somando contratos da ordem R$ 3 bilhões.

À época, o governador fluminense era Sergio Cabral (PMDB), preso pela Polícia Federal em meio à Operação Lava Jato desde 17 de novembro e réu por corrupção, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro e pelo desvio de R$ 224 milhões em recursos públicos.

A suspeita dos procuradores franceses era de que Arthur Soares havia realizado o pagamento de propina aos dirigentes do COI em favor do voto pela candidatura do Rio de Janeiro como sede dos Jogos de 2016. Em troca, o empresário seria privilegiado por contratos firmado com o governo estadual na gestão de Cabral.

Essa suspeita foi levada de Paris a Brasília, quando um grupo de procuradores do MPF brasileiro e do MP Financeiro da França passaram a trabalhar juntos para encontrar os vínculos entre os pagamentos realizados por Arthur Soares e o recebimento de vantagens do governo estadual.

Por isso a Operação Unfair Play atinge em cheio Carlos Arthur Nuzman, o todo-poderoso presidente do Comitê Olímpico do Brasil (COB), que esteve na linha de frente da lobby do país pela eleição do Rio de Janeiro. Ao longo da campanha, o dirigente brasileiro encontrava-se com os dirigentes do COI, em especial de comitês africanos — que votam em bloco —, para tentar convencê-los a favorecer o Brasil.

O que os procuradores franceses e brasileiros buscam agora, ao realizar buscas na casa de Nuzman e de outros suspeitos, é encontrar as provas definitivas do vínculo entre o lobby brasileiro por votos em favor do Rio, os pagamentos feitos por Arthur Soares aos dirigentes do COI e os contratos obtidos a seguir pelo empresário.

Mas há outras suspeitas que vão além das operações realizadas nesta terça: o eventual papel de empreiteiras como Odebrecht, beneficiadas pelas obras da Cidade Olímpica e da infraestrutura da cidade para os Jogos, e de líderes políticos, como o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na articulação do esquema de propina ao COI em favor de Rio-2016.

 

 

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