*
 

Poucas vezes o número três foi tão preciso para definir a performance de uma atleta. A brasileira Bruna Alexandre foi a terceira colocada no último mundial da Classe 10 do tênis de mesa, disputado na China, em 2014. Chegou aos Jogos do Rio como a número três do mundo no ranking da Federação Internacional. E, na campanha até conquistar o primeiro bronze feminino da história do tênis de mesa nacional, só perdeu duas vezes: para a número um e para a número dois do ranking.

“Bati na trave em Londres, mas esses quatro anos foram muito bons para mim. Consegui melhorar bastante, mesmo. Agora, acho que só falta melhorar um pouco o meu físico, emagrecer mais. Mas já foi um grande ponto melhorar a cabeça, conseguir estar focada do início ao fim. Fez toda a diferença para mim”, afirmou a brasileira, que foi quinta colocada nos Jogos de 2012.

Na partida disputado no Pavilhão 3 do Riocentro, Bruna superou a dinamarquesa Sophie Walloe, número cinco do mundo, por 3 sets a 0, parciais de 11 x 2, 13 x 11 e 11 x 8, em 22 minutos de partida. “No início eu acho que ela estava meio com medo, mas depois começou a pegar mais. Ela me surpreendeu bastante. Já joguei com ela três vezes e ela nunca tinha feito algumas coisas: Sacou curto e começou a jogar mais lento. Eu tive de passar a explorar as bolas com giro, com muito efeito, para incomodar ela”, avaliou Bruna.

“Bati na trave em Londres, mas esses quatro anos foram muito bons. Consegui melhorar bastante, mesmo, a cabeça, consegui estar focada do início ao fim. Isso fez toda a diferença”Bruna Alexandre
Um dos momentos cruciais, segundo a brasileira, foi a fase final do segundo set. “Ela abriu 8 x 6. Ali eu senti que as coisas estavam meio fora da casinha. Consegui me concentrar, buscar o empate. E, quando chegou no 11 x 10 para mim, eu pedi tempo. Às vezes o atleta sente que precisa. Eu que estava pressionada. Queria garantir o 2 x 0, porque seria um jogo bem mais seguro para mim. Foi importante”, disse.

Saque, um diferencial
Um dos desafios de Bruna na modalidade foi desenvolver o saque, uma de suas armas mais importantes. A catarinense de Criciúma teve de amputar o braço direito por consequência de uma trombose quando tinha seis meses de vida. Assim, precisa equilibrar a bola na mesma mão que segura a raquete e lançar a bola ao alto com o mesmo braço que usa para jogar.

“O saque foi uma das coisas que tive mais dificuldade em aprender. Treinei bastante. Até hoje treino muito. Mas é uma das minhas principais armas. E eu sou canhota, o que me ajuda a colocar as bolas mais no canto”, descreveu Bruna, que teve na semifinal diante da polonesa Natalia Partyka um de seus momentos mais impressionantes no torneio.

Natalia é atleta paralímpica e titular da equipe olímpica da Polônia. Conquistou nesta terça, no Rio, o quarto ouro consecutivo paralímpico da Classe 10 ao derrotar a chinesa Qian Yang por 3 sets a 0. Bruna foi a única atleta a tirar sets de Natalia no Rio. Chegou a abrir 2 x 1 e só caiu no tiebreak. “Eu acho que esse é o melhor dos quatro ouros que conquistei porque foi o mais difícil de todos, principalmente levando em conta a semifinal e a final. É por isso que saio tão satisfeita”, afirmou Partyka.

“A gente sabia que a Bruna tinha chance de ganhar esse bronze pelo ranking. Mas foi muito positivo porque ela fez esse 3 x 2, de igual para igual, com a Natalia. A polonesa é a número 80 no ranking olímpico. Uma atleta fenomenal, de movimentação, de técnica rápida”, avaliou o técnico da Seleção Brasileira nas Classes 6 a 10, Paulo Camargo. “E hoje a Bruna teve calma sendo favorita. Chegar na mesa, jogar e ganhar de 3 x 0 como ela fez não é fácil”, completou o treinador, que não previa brecha para festa. “Agora a gente já trabalha para a competição por equipe, que começa nesta quarta. Nem pode festejar muito. Tem de colocar a cabeça em dia e buscar a recuperação física”, explicou.

Antes mesmo da competição de equipes, contudo, o tênis de mesa nacional já garantiu a melhor campanha da história paralímpica brasileira, já que Israel Stroh, na Classe 7, havia conquistado a medalha de prata na segunda-feira. Antes dos Jogos do Rio, o Brasil só havia conquistado um pódio. Uma prata, por equipe, nos Jogos de Pequim, em 2008, com Welder Knaf e Luiz Algacir.

Dani bate na trave
Danielle Rauen não pertencia à lista das favoritas a uma medalha no Rio de Janeiro. Pelo ranking mundial, ela chegou à competição como a oitava colocada da Classe 9 do tênis de mesa. Mas nunca o pódio foi tão real para a brasileira quanto na tarde desta terça. Danielle entrou para a disputa do bronze contra a polonesa Karolina Pek, quarta do mundo, com a mesma confiança que usou para bater de virada, na fase de grupos, a chinesa Guiyan Xiong (vice-lider). Danielle abriu 2 sets a 0, com parciais de 11 x 8 e 11 x 8, e abriu 4 x 0 no terceiro set.

“Eu acho que eu já estava pensando no fim da partida. Nos dois primeiros sets, ela estava errando muito. Eu achei que ela ia continuar errando até o fim, mas ela achou o ponto do meu jogo e eu que passei a não conseguir pegar mais as bolas dela. Ficou muito ruim”, lamentou Danielle, que perdeu a terceira parcial por 11 x 9 e depois viu a polonesa sacramentar o bronze com um duplo 11 x 5.

Dei a minha vida nesse jogo, mas ficou um gostinho de que dava, de que eu podia mais. De qualquer forma, estou feliz pelo que realizei. Espero em Tóquio conseguir essa medalhinha que deixei escapar agora"
Danielle Rauen

Karolina Pek, que já havia vencido Danielle na fase de grupos por 3 sets a 1, celebrou muito a capacidade de acreditar na virada mesmo quando parecia improvável. “Eu confesso: fiquei muito tensa no terceiro na terceira parcial. Mas pensei: ok, faça o que você tem de fazer, do jeito que tem de fazer. E não desista. Eu precisava jogar mais com o meu backhand e ser rápida nas trocas de bola”, descreveu. “Eu fiz isso e deu certo”, disse. A decisão do ouro na Classe 9 envolveu duas chinesas. Meng Liu superou Lina Lei por 3 sets a 0, com parciais de 12 x 10, 13 x 11 e 13 x 11.

 

 

COMENTE

tênis de mesabruna alexandre
comunicar erro à redação

Leia mais: Paralimpíadas