Acaso? Lockdown do futebol explica lesões na volta da Bundesliga

Só no primeiro fim de semana de retorno aos jogos, oito jogadores deixaram o campo machucados em seis partidas. Falta de treino é a razão

Per Ciljan Skjelbred lesionadoThomas Kienzle/Pool via Getty Images

atualizado 24/05/2020 12:36

As atenções no retorno do Campeonato Alemão estavam todas voltadas para os protocolos de segurança no combate ao novo coronavírus. Após seis partidas, no entanto, outro fato sobressaiu: as lesões. Após 66 dias paralisada, a Bundesliga registrou oito contusões somente no primeiro fim de semana de bola rolando. E elas não são obra do acaso, conforme explicam os especialistas.

O lockdown do futebol pode ser determinante no surgimento de novas lesões, caso o tempo mínimo de preparação não seja respeitado. Os profissionais ouvidos pelo Metrópoles apontam que 15 dias – período que os clubes alemães tiveram antes dos jogos – é bem abaixo do ideal.

“Durante as férias de uma temporada, o declínio no fitness dos atletas é de 11%. O estudo de Purdam e colaboradores (2015) mostra que, após duas semanas de treinamento com 60% do volume normal e intensidade, pode-se ir aumentando gradativamente durante 10 dias a intensidade e volume de treino, chegando ao final de 25 dias a 100%. Se os atletas ficaram quatro semanas com volume de treinos reduzidos, o tempo recomendado para voltar ao treinamento completo está estimado entre 3-5 semanas”, ressalta Glauber de Oliveira Barduzzi, fisioterapeuta da Seleção de Futebol da Irlanda Sub21.

Fisioterapeuta especialista em treinamento desportivo, Jefferson Machado afirma que os jogadores estão mais suscetíveis às lesões, porque os trabalhos em casa não suprem a necessidade alta dos profissionais. O Borussia Dortmund, por exemplo, teve menos de 15 dias de atividades no CT antes de ir a campo.  “Os atletas têm menos aporte de cálcio e ATP no glicogênio (reserva de energia). Apesar do funcional em casa, eles não realizaram treinos de especificidade, treinos de potência, velocidade, treinos intervalados”.

Pedro Hugo, preparador físico e fisiologista do Real Brasília, reforça o prazo mínimo para reduzir o risco de lesão. “A literatura define como tempo útil de 6 a 8 semanas, quando se está planejando a pré-temporada. É sabido que os jogadores têm uma condição física muito boa, recuperam a base fisiológica com pouco tempo de treinamento, mas isso varia de caso a caso”, explica. “Se nós entendermos que ainda tem a parte técnica e tática aliada ao aspecto físico, 15 dias é muito pouco”, reforça.

Lockout na NFL

Especializado em terapia manual e postural, o professor da faculdade Anhanguera, Bruno Alves, compara o episódio atual do Campeonato Alemão com o vivido na NFL, em 2011. Na época, os treinos de futebol americano foram interrompidos por divergências entre jogadores e os clubes. O lockout começou em 11 de março e só terminou em 14 de julho durante a offseason.

“O estudo da Jospt em 2011, do pesquisador Meyer Gregory, mostra que atletas de futebol americano tiveram muitas lesões no Tendão de Aquiles após o lockout. O seguro seria pelo menos 6 a 8 semanas de pré-temporada, visto que os atletas em casa, mesmo que realizando algumas atividades físicas domiciliares, perdem muito do princípio da especificidade do esporte. Sobretudo os movimentos que realizam forças de potência e excentricidade, movimentos esses que culminam nas principais lesões no caso do nosso futebol. Cobrar 6 a 8 semanas no futebol de hoje seria utópico, mas pelo menos metade do tempo de paralisação deveria ser reposto”, avalia Bruno Alves, ex-fisioterapeuta de Gama e Ceilândia.

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