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Apuração pelo Brasil

Esportes

Ex-Flamengo vendia diploma falso de técnico a astros do futebol brasileiro

Jogadores como Thiago Silva, Roberto Carlos e Felipe Melo receberam licenças negociadas pelo ex-Fla e Palmeiras, Alejandro Mancuso

07/10/2026 07:54, atualizado 07/10/2026 08:42
Mike Egerton - PA Images via Getty Images
Foto colorida de Alejandro Montuso - Metrópoles

Uma série de ex-estrelas do futebol brasileiro comprou diplomas falsos de treinador que prometiam licenças da tradicional Associação de Técnicos de Futebol Argentino (ATFA) sem a necessidade de cumprir os cursos exigidos pela entidade. Entre os nomes envolvidos estão Thiago Silva, Luiz Gustavo, Diego Lugano, Roberto Carlos, Felipe Melo, Alex de Souza, Dejan Petkovic, Paulinho (ex-Corinthians) e Paolo Guerrero.

Segundo a investigação, Alejandro Mancuso, ex-jogador com passagens por Flamengo e Palmeiras, e que chegou a trabalhar como auxiliar de Diego Maradona na seleção argentina na Copa do Mundo de 2010, era responsável por oferecer aos jogadores o chamado “trâmite urgente”.

O caso foi revelado pela jornalista Joanna de Assis, do Uol. A investigação reuniu áudios, mensagens e documentos relacionados ao esquema. Segundo a apuração, jogadores chegavam a pagar cerca de R$ 100 mil para receber quatro licenças de treinador (C, B, A e PRO), que eram enviadas pelo correio em poucos dias.

Como funcionava o esquema

Mancuso apresentava aos jogadores uma espécie de “trâmite urgente” para obtenção das licenças. O argumento era de que atletas com carreiras consolidadas não precisariam passar pelos anos de formação exigidos pela ATFA.

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Em áudios obtidos pela reportagem, o argentino afirmava ter um acordo com dirigentes da entidade para facilitar a emissão dos certificados. Mancuso se apresentava como “diretor internacional da ATFA” e dizia que o presidente e o departamento jurídico da escola estavam envolvidos.

Mancuso dizia que os jogadores poderiam receber as quatro licenças sem cumprir a formação regular. A ATFA, porém, afirma que não autorizou nenhum procedimento desse tipo.

A formação regular da entidade é progressiva, da licença C à PRO, e inclui cursos, avaliações e atividades práticas. A carreira como jogador profissional, segundo a entidade, não permite ao atleta dispensar essas etapas.

Quem comprou as licenças?

Entre os jogadores citados estão nomes de grande destaque do futebol brasileiro e sul-americano. Thiago Silva afirmou, por meio da assessoria, que pagou por cursos que não foram ministrados como prometido. O zagueiro disse que tentou verificar a situação junto à ATFA, sem sucesso, e recebeu os certificados no fim de 2023. Segundo ele, nunca utilizou os documentos.

Felipe Melo, ex-Palmeiras e Fluminense, chegou a desconfiar da situação depois de cobrar a realização das aulas presenciais e não conseguir marcar as atividades. Ele retirou os documentos das redes sociais e conseguiu recuperar o dinheiro pago a Mancuso.

Dejan Petkovic confirmou ter negociado a licença argentina com Mancuso. O ex-jogador afirmou que o documento chegou a ser investigado pela polícia argentina e que não completou a parte presencial do processo.

Paulinho disse que acreditou na explicação de que a carreira de jogadores de alto nível poderia ser reconhecida pela ATFA. Segundo ele, chegou a fazer cursos pela internet durante o período em que estava parado e não imaginou que houvesse algo ilegal na negociação.

Alex de Souza, ídolo do Palmeiras, comprou a licença argentina depois de concluir todos os cursos da CBF Academy. Ele afirmou que nunca utilizou o documento nem tentou homologá-lo na Conmebol. No certificado recebido, havia inclusive um erro no nome do esporte: aparecia “futsal” em vez de “fútbol”.

Luiz Gustavo, volante com passagem pela Seleção Brasileira, informou por meio da assessoria que acreditava estar contratando uma espécie de homologação de sua carreira, e não um curso. Ele desconfiou da documentação ao receber históricos com avaliações que nunca havia realizado.

Roberto Carlos, pentacampeão mundial, também negociou com Mancuso e recebeu licenças e uma carteirinha pelo correio. Segundo sua assessoria, ele nunca utilizou os documentos porque não completou o curso. O caso também apareceu na investigação realizada pela polícia argentina em 2025. A entidade diz que o processo foi arquivado em dezembro de 2025 por inexistência de crime.

Diego Lugano, ex-zagueiro uruguaio e atual diretor do São Paulo, confirmou que adquiriu as licenças por meio de um “curso rápido”. Ele afirmou ter feito a parte teórica pela internet, mas não realizou a etapa presencial.

Roberto Assis, irmão de Ronaldinho Gaúcho, também foi procurado por Mancuso durante a pandemia. Ele afirmou não se lembrar se chegou a fazer algum depósito e também aparece entre os documentos investigados na Argentina.

Paolo Guerrero também é citado entre os jogadores que teriam adquirido as licenças oferecidas por Mancuso.

Documentos não eram reconhecidos pela ATFA

A própria ATFA afirma que os documentos entregues por Mancuso são falsos e que o argentino nunca teve autorização para representar a instituição.

Em resposta à reportagem, o secretário-geral da entidade, Salvador Pasini, afirmou que Mancuso não integra a diretoria, não ocupa cargo de autoridade, não possui vínculo contratual com a associação e não tem autorização para negociar ou emitir documentos em nome da escola.

A entidade também afirmou que a documentação apresentada pelos jogadores não corresponde aos certificados oficiais emitidos pela ATFA.

Investigação na Argentina

O caso também chegou à Justiça argentina. Em 2025, a polícia realizou uma busca e apreensão na sede da ATFA para investigar a suposta emissão irregular de diplomas e licenças para ex-jogadores estrangeiros.

Segundo a entidade, porém, não foram encontrados documentos que comprovassem a emissão irregular dentro da própria associação. O Ministério Público argentino pediu o arquivamento do processo, e a Justiça Federal Criminal e Correcional decidiu encerrar o caso em dezembro de 2025 por inexistência de crime.

A ATFA afirma, ainda, que qualquer documentação ou cobrança realizada por Mancuso em seu nome ocorreu sem autorização da instituição.

O que diz Mancuso?

Mancuso nega ter vendido licenças falsas ou recebido dinheiro dos jogadores. Em contato com a reportagem, afirmou que apenas orientava atletas que procuravam informações sobre como obter a formação argentina.

O ex-jogador também negou ter vínculo com a ATFA e disse ser apenas um comentarista de rádio.

Questionado sobre os áudios em que oferecia diplomas e sobre jogadores que afirmam ter recebido os documentos após pagamentos, Mancuso negou ter realizado esse tipo de negociação e afirmou que os atletas deveriam tratar diretamente com a federação.

Leia a nota da Afta na íntegra:

“Em nome da Associação de Treinadores de Futebol Argentino (ATFA), respondemos ao seu e-mail e às informações adicionais que nos enviou.

Quanto ao Sr. Alejandro Mancuso, informamos que, embora ele seja um reconhecido ex-jogador da Seleção Argentina e treinador de futebol, a ATFA não reconhece qualquer gestão que o Sr. Mancuso tenha realizado ou alegado fazer em nome da entidade. O referido senhor não integra a Diretoria, não ocupa cargo de autoridade na ATFA, não mantém qualquer vínculo contratual com a instituição e não possui autorização para agir em seu nome ou representá-la. Consequentemente, qualquer oferta, cobrança ou envio de documentação que ele possa ter realizado invocando a ATFA é algo totalmente alheio a esta instituição.

Em relação aos fatos denunciados:

Os fatos descritos em sua mensagem já foram objeto de investigação pela Justiça Federal Criminal e Correcional da República Argentina durante o ano de 2025. No referido processo, investigou-se a suposta emissão irregular de diplomas e licenças de treinador em favor de ex-jogadores de futebol estrangeiros — entre eles, vários dos que você menciona em sua nota —, bem como a eventual participação de autoridades e funcionários da ATFA.

Após a realização de diligências probatórias — incluindo uma busca e apreensão na sede da ATFA, na qual não se encontrou qualquer documentação que comprovasse a emissão de diplomas, históricos escolares ou carteiras profissionais irregulares —, o Ministério Público Fiscal solicitou o arquivamento dos autos. O Juízo Federal Criminal e Correcional responsável pelo caso decidiu, em dezembro de 2025, arquivar o processo por inexistência de crime (art. 195, segundo parágrafo, do Código de Processo Penal da Nação).

Portanto, a questão já foi investigada e resolvida pela Justiça Federal argentina, revestindo-se, para ela e para o direito penal argentino, do caráter de coisa julgada.

Quanto ao número de telefone e à pessoa que se identificou como Pablo Goglino:

O Sr. Pablo Goglino é o Diretor Acadêmico da ATFA, e não gerente ou integrante de qualquer departamento jurídico. A ATFA desconhece totalmente as mensagens que você anexou: o número +54 9 (…) não pertence ao Sr. Goglino, e ele não participou de nenhuma troca de mensagens via WhatsApp com você. De fato, conforme consta nas capturas de tela que você mesma apresentou, ao ser consultado diretamente, o Sr. Goglino afirmou não ter mantido contato com você.

Solicitamos, portanto, que não atribua à ATFA nem aos seus integrantes qualquer comunicação proveniente do referido número. A ATFA reserva-se o direito de iniciar as medidas legais cabíveis pelo uso indevido do nome da instituição e de suas autoridades.

Por fim, solicitamos que, caso publique qualquer matéria sobre este assunto, inclua a presente resposta na íntegra e de forma fiel.

Atenciosamente,

Salvador A. A. Pasini
Secretário-Geral
Associação de Técnicos de Futebol Argentino (ATFA)”