Crítica: The Last Dance mostra Jordan implacável e vulnerável

Episódios 7 e 8 do documentário pintam o retrato mais sincero de Jordan e de suas motivações competitivas

atualizado 11/05/2020 16:15

Michael JordanNury Hernandez/New York Post Archives /(c) NYP Holdings, Inc. via Getty Images

Se a lição já não estava clara, os episódios 7 e 8 do documentário The Last Dance (Arremesso Final, disponível na Netflix) não deixam dúvida: não adicione gasolina ao fogo de Michael Jordan. A frase foi dita por Glen Rice, ala do Charlotte Hornets, já prevendo o destino de seu time, após um de seus companheiros ter extravasado nas comemorações pela vitória em cima do Chicago Bulls de MJ em um jogo de playoffs.

A dinâmica seguia mais ou menos o mesmo roteiro: você podia ter um momento, um bom jogo contra Jordan e os Bulls, mas se você se sentisse confiante demais e demonstrasse, o camisa 23 não ia demorar para lembrá-lo sobre a hierarquia da NBA. Aconteceu com B.J. Armstrong, o companheiro de Rice, em questão, com Dennis Scott (“45 não é 23”), com Gary Payton e o Seattle SuperSonics, com Isiah Thomas e os Pistons, com Ewing e os Knicks e com diversos outros grandes atletas que pensavam ter encontrado alguma vulnerabilidade no Chicago Bulls dos anos 1990.

E se as provocações não aconteciam de fato, Jordan as inventava: The Last Dance relembra um episódio que aconteceu na temporada 1992-1993, quando o calouro do Washington Bullets, LaBradford Smith, marcou 37 pontos em um jogo contra os Bulls em Chicago. Após a partida, Jordan declarou que Smith o havia provocado, tendo dito, ironicamente, “bom jogo, Mike”, para o camisa 23. No próximo jogo, em Washington, MJ marcou 47 pointos, aniquilando Smith e os Bullets.

Anos depois, Jordan admitiu que Smith nunca o provocou. Ele havia inventado toda a história como motivação para enfrentar o calouro.

Preço alto

A competitividade dispensada por Jordan aos seus adversários, também era direcionada para seus próprios companheiros. Steve Kerr, Scott Burrell, BJ Armstrong, Bill Wennington, jogadores de segundo escalão nas equipes do Bulls multicampeão dos anos 1990, foram alguns dos que mais sofreram com a obstinação de MJ.

Ao relembrar o camisa 23 atualmente, todos têm posturas dúbias em relação ao atleta. Jordan era um babaca? Um mau companheiro de time? As respostas pintam um Jordan que esteve em todas as partes do espectro babaca/bom companheiro de time, alguém que podia ser cordial, brincalhão, generoso e atencioso com os fãs fora de quadra, mas também alguém, simplesmente, difícil de conviver em treinos e jogos ao longo de uma temporada.

“Minha mentalidade era, se você não aguentava a minha pressão nos treinos, então você não estaria pronto para competir em um mata-mata de NBA”, como o próprio definiu.

É interessante notar, no entanto, que o único momento em que Jordan permitiu se emocionar foi ao falar sobre sua postura como companheiro de time. Em outros momentos do documentário, ao abordar críticas recebidas na sua carreira, sobre um suposto vício em jogos, sobre sua falta de ativismo, sobre sua rivalidade com Isiah e os Pistons, MJ pode ter oferecido um mea culpa, mas sem nunca perder a compostura.

Talvez tenha sido o contexto, ao recordar a morte do pai, as especulações e acusações da imprensa que, eventualmente, o afastariam do jogo. Talvez, do alto de seus 57 anos, Michael tenha relembrado das amizades e pontes que queimou ao longo da sua vitoriosa jornada. “Vencer tem um preço, liderança tem um preço”.

Naquele choro, Jordan demonstra que, por mais vencedor e macho alfa que você tenha precisado ser durante sua história, todo mundo precisa dar um tempo às vezes.

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