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“Twin Peaks”, o retorno, representa a chance de o público entrar em um mundo completamente novo. O próprio David Lynch, diretor de todos os 18 episódios desta terceira temporada, dá a receita. Aproxime-se da tela (da TV, do tablet ou do celular). Apague as luzes. Coloque os fones de ouvido. A viagem termina para os brasileiros nesta segunda, quando os dois capítulos finais entrarem no catálogo da Netflix.

Lynch, o adorado diretor de filmes como “Veludo Azul” (1986) e “Cidade dos Sonhos” (2001), não filmava nada de fôlego desde “Império dos Sonhos” (2006). A volta de “Twin Peaks”, série cocriada por ele e Mark Frost em 1990, é definida por ele como um filme quebrado em 18 partes (uma hora cada, aproximadamente).

 

E, de fato, cada capítulo merece ser visto não como peça separada de um quebra-cabeça, mas como uma de várias vozes do mesmo criador de sonhos, pesadelos e histórias que comovem, chocam, atordoam e encantam.

Shows, homenagens, dimensões paralelas
O revival começa onde terminou o programa original. Dale Cooper, agente do FBI destacado para investigar a morte da adolescente Laura Palmer (Sheryl Lee) na cidade fictícia de Twin Peaks, ficou aprisionado entre dimensões paralelas (chamadas de Black e White Lodge) durante 25 anos – o tempo que separa segunda e terceira temporadas.

Dois Coopers voltam ao nosso mundo: um frequenta o interior da América como a morte encarnada e faz estremecer o pior dos assassinos; o outro saiu do Quarto Vermelho, um purgatório (?) que parece mediar realidade e outras dimensões, na forma de Dougie Jones, corretor de seguros catatônico, com mulher (Naomi Watts) e filho.

 

Qualquer descrição, por mais precisa e eloquente que pareça, sequer tateia o que Lynch e Frost realizam no revival de “Twin Peaks”. Como em quase todos os filmes de Lynch, mais vale o jogo de sensações forjado pela experiência de imersão do que a tentativa de entender o que se passa.

Lynch termina quase todos os episódios no bar Roadhouse, com pocket shows de Chromatics, Eddie Vedder, Nine Inch Nails, Sharon Van Etten, entre outros. Nos créditos, ele homenageia atores da série que já morreram, de David Bowie (papel do agente Phillip Jeffries que, acredite, volta de um jeito curioso) a Catherine E. Coulson, a eterna Senhora do Tronco (Log Lady).

O desconhecido segundo Lynch
Enquanto tramas diversas se desenvolvem, da vidinha de cidade pequena a conspirações sobrenaturais entre Las Vegas e Nova York, Lynch vai erigindo obras-primas que transcendem os rótulos simplistas de série de TV ou filme de cinema.

A parte 3, praticamente sem falas, registra a travessia do Cooper Bom para o mundo real através de um abismo cósmico. Lynch, autor do design de som de todos os 18 episódios, deturpa ruídos e falas, embaralha e entorta imagens: tudo para criar algo que só podemos chamar de novo, jamais visto e ouvido.

A parte 8 evoca “Estrada Perdida” (1997) e “Cidade dos Sonhos” (2001), para usar referências próximas, mas insuficientes. Um pesadelo sem fim que regurgita explosões nucleares e imagens carregadas de melancolia e horror: seria a crônica de Lynch sobre a violenta e intolerante supremacia americana?

“Twin Peaks”, o revival, é como uma viagem que mal terminamos e já queremos fazer de novo.

 

 

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