Os erros do BBB 26 que podem impactar na continuidade do reality
Deslizes da “edição de colecionador” podem trazer consequências permanentes para os próximos anos do principal reality show da Globo
atualizado
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Apelidado de “edição de colecionador”, o Big Brother Brasil 26 (BBB 26) trouxe de volta ao reality show uma visibilidade que Globo não observava há anos. Tanta atenção, porém, serviu também para evidenciar uma série de falhas acumuladas pela produção ao longo dos anos.o.
Desde o início do programa, em janeiro, não faltaram críticas nas redes sociais. A pressão popular resultou em atitudes pontuais da produção, seja na condução das dinâmicas, na infraestrutura da casa do reality show ou em situações degradantes às quais os participantes foram sujeitos.
Na reta final da edição, porém, as reclamações deixaram o ambiente virtual. Em março, a Rede Globo foi notificada pelo Ministério Público Federal (MPF) que, após determinar a instauração de um inquérito civil, manifestou-se pela suspensão imediata das restrições extremas em dinâmicas do BBB.
A “intromissão” do órgão na atração não foi isolada, avaliam especialistas ouvidos pelo Metrópoles. O programa foi marcado por cinco baixas ao longo da temporada. Além de três expulsões, Henri Castelli foi afastado por motivos de saúde após ter dois episódios convulsivos dentro da casa do reality; e Pedro desistiu do programa após importunar sexualmente Jordana, consequência de um alegado surto psicótico.
Além disso, a dinâmica do Quarto Branco também foi motivo de polêmica. A instituição chegou a receber uma denúncia da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), que afirmou que a metodologia utilizada no Quarto Branco seria semelhante a práticas de tortura empregadas durante a ditadura militar.
Os especialistas destacam que estes casos poderão afetar diretamente as próximas edições do reality show. Não só na relação da emissora com o poder público, mas também nos contratos com os participantes e nos acordos comerciais com marcas que patrocinam o programa.
Desde a notificação do MPF e até a data desta publicação, a Rede Globo não respondeu o contato da reportagem do Metrópoles. O espaço segue aberto.
Caso Henri Castelli acabou com as provas de resistência?
Durante uma prova de resistência, Henri Castelli teve uma crise epiléptica. Ele foi encaminhado para um hospital particular, passou por uma bateria de exames e voltou à casa do BBB 26.
Aos demais participantes, o ator admitiu que não havia se alimentado adequadamente antes da dinâmica. Em menos de uma hora, ele teve mais um episódio epiléptico e de fato deixou a competição.
“O que parece ter motivado a atuação do MPF não é apenas a dureza das dinâmicas de prova em si, mas a soma de fatores que podem comprometer a integridade física e psíquica dos participantes”, destaca Letícia Macário, advogada especialista em direito de saúde.
Ela destaca que o programa inclui situações que abrem espaço para questionar o consentimento dos participantes, como privação de sono, isolamento prolongado, restrição de acesso a necessidades básicas e esforço físico contínuo. “Sob essa perspectiva, a discussão jurídica deixa de se limitar ao consentimento para participar do programa e passa a abranger a adequação das medidas de proteção adotadas pela emissora diante de riscos previsíveis à saúde.”

Caso acate todas as recomendações do MPF, a Globo dará adeus às provas de mais de 24 horas que marcaram edições anteriores do BBB. A medida extrajudicial prevê que provas que exijam mais de três horas ininterruptas em pé ou isolamento com luzes intensas sejam vetadas.
Além disso, a emissora precisaria garantir intervalos regulares para descanso, uso do banheiro, alimentação e hidratação em disputas longas. As novas regras foram observadas, por exemplo, na prova em que Juliano Floss se consagrou o primeiro finalista do reality show.
“A questão relevante aqui é que, em contextos de entretenimento com exposição controlada por terceiros, o dever de cuidado não se limita à existência de suporte médico eventual, mas à prevenção concreta de risco. Isso significa avaliar previamente a compatibilidade das dinâmicas com o estado de saúde dos participantes, estabelecer limites objetivos para interrupção da prova e adotar protocolos proporcionais de monitoramento físico e psíquico”, avalia a especialista em direito de saúde.

“Em caso de reincidência ou de não atendimento das orientações, a tendência é que o inquérito civil [contra a Globo] avance para novas providências judiciais e administrativas. Isso porque a recomendação é um instrumento extrajudicial preventivo, não o ponto final da atuação ministerial”, completa.
Caso Pedro Espindola vai mudar a relação do BBB com os participantes?
Em fevereiro, o pipoca Pedro Espindola apertou o botão de desistência após tentar beijar Jordana à força na dispensa da casa do BBB 26. Horas depois, na edição ao vivo daquele dia, a Globo confirmou que, caso não tivesse desistido, Pedro teria sido expulso pela produção do programa.
Do lado de fora, os advogados do ex-participante decidiram usar o episódio para mover uma ação de indenização de R$ 4,2 milhões contra a Globo. A defesa de Pedro alega que ele não tinha condições psicológicas para ser admitido na competição, fato que teria sido ignorado pela produção durante o processo de seleção.
Além disso, a petição inicial afirma que a emissora não agiu com neutralidade e teria transformado a saída do participante em um “espetáculo acusatório”, o que teria legitimado ataques a Pedro. O processo também fez com que o contrato do participante se tornasse documento de acesso público, revelando os termos negociados pela Globo com os Pipocas da edição.
“A ideia é que o participante, ao assinar, estaria ciente dos riscos e concordaria com as condições do programa”, avalia Lucas Uster, especialista em direito empresarial e da propriedade intelectual. Ele ressalta, no entanto, que cláusulas do tipo têm limites jurídicos.
“Não é possível, por contrato, afastar a proteção constitucional à dignidade da pessoa humana. Se ficar demonstrado que determinadas dinâmicas configuram tratamento degradante nos termos do artigo 5º da Constituição, a cláusula contratual que tente exonerar a emissora de responsabilidade pode ser declarada nula, de forma que algum participante que se sentisse lesado poderia pleitear seus direitos em face da emissora”, completa.
Marcas podem desistir de patrocinar o BBB 26?
No Big Brother Brasil, quase todas as provas e dinâmicas estão atreladas a uma ação publicitária. Além das recompensas em dinheiro, as parcerias com marcas incluem a garantia de prêmios para os participantes, que incluem apartamentos e carros 0 km.
Na edição deste ano, porém, tanto a Globo quanto as marcas foram alvo de críticas. Internautas defenderam, por exemplo, que os tão disputados apartamentos, avaliados em R$ 270 mil, eram uma bonificação aquém do alcance do reality show.
Muitas das provas ao longo da temporada também foram motivo de reclamações. Seja por conta dos participantes que precisaram de atendimento médico ou com acusações de que algumas dinâmicas foram mal elaboradas ou regras mal aplicadas.
“Embora os contratos de patrocínio sejam, em geral, sigilosos, é plausível que algumas marcas estejam avaliando internamente se o cenário atual justifica algum tipo de revisão”, acredita Lucas Uster.
O especialista explica que “patrocínio em reality shows de grande porte costumam incluir o que chamamos de cláusula moral”. Ela permite a rescisão ou suspensão de contrato em casos de repercussão negativa ou até mesmo conflitos com os valores das empresas.
“Marcas consolidadas tendem a evitar associação com fatos polêmicos porque o impacto não fica restrito ao programa, ele contamina a imagem do produto”, explica.
Final do BBB 26
O BBB 26 chega ao fim nesta terça-feira (21/4), em uma edição que promete ficar na história do reality show.
Além de recorde de engajamento nas redes sociais, a temporada foi responsável também por quebrar o recorde de participantes que deixaram a competição fora do Paredão. Confira como foram as cinco saídas:
- Edilson Capetinha foi expulso por dar tapas no rosto de Leandro;
- Sol Vega foi expulsa por agarrar Ana Paula;
- Paulo Augusto foi expulso por derrubar Jonas;
- Pedro desistiu após tentar beijar Jordana à força;
- Henri Castelli precisou sair da competição após orientação médica.
A final do reality show será realizada a partir das 22h25. Ana Paula Renault, Juliano Floss e Milena são os finalistas ao título de vencedor do BBB 26.




































