Categorias: Televisão

Netflix: Don’t F**k With Cats expõe cultura da perseguição online

A regra número 0 da internet é bem clara: não foda com gatos. É com essa base que começa a nova série documental da Netflix, Don’t F**k With Cats, que conta a história de Luka Magnotta.

Para quem não acompanhou, ou não se lembra do caso, Luka era conhecido como o “assassino de gatinhos” que publicou diversos vídeos no YouTube, LiveLeak.com e BestGore.com cometendo atos de abuso animal – e até assassinato do estudante Jun Lin (33). Seu primeiro vídeo, 1 Homem, 2 Gatinhos, recebeu atenção de milhares de pessoas, incluindo um grupo de investigadores amadores que decidiram encontrá-lo.

A série parte do ponto de vista de importantes integrantes do grupo; Baudi Moovan (alias de Deeana Thompson, analista de dados em Las Vegas) e John Green (alias de homem não-identificado). Juntos, eles e milhares de outras pessoas começaram uma caçada por Luka. No entanto, este não é um caso aberto – como os alvos de diversas outras docusséries na Netflix –, e serve mais como um aviso aos telespectadores.

O tema principal (além da história repleta de reviravoltas que nos deixa nos perguntando se Luka era um gênio ou um psicopata) é a cultura da internet. Como é estabelecido, Luka quebrou a principal regra e, por causa disso, todos juraram acabar com a vida dele. No entanto, ao longo do caminho, estas pessoas cometeram erros e acusaram um homem inocente, Jamsey, por causa de um truque assumidamente orquestrado por Luka.

Baudi se emociona ao rever os vídeosmore
John Green foi um dos principais investigadores amadores do grupo ao lado de Baudimore
Após o vídeo, dezenas de pessoas criaram um grupo de investigação no Facebook. Após a divulgação do Rescue Ink, uma organização de combate ao abuso animal, milhares de novos membros começaram a participarmore
No grupo, os membros compartilhavam notícias e descobertas sobre o paradeiro de Lukamore
Quando a polícia canadense se envolveu após o assassinato de Jun Lin, o grupo eventualmente assistiu às autoridades com a investigaçãomore

Por conta disso, centenas de pessoas procuraram por alguém chamado Jamsey, morador de Windhoek, na Namíbia, e enviaram mensagens a ele com ameaças de morte, dizendo que ele merecia morrer. O homem, no entanto, era um Jamsey diferente: este era instrutor de paintball e sofria de uma grave depressão. Após os insistentes ataques, foi divulgada a informação de que ele havia tirado a própria vida. Embora se identificasse no Facebook como Jamsey, seu nome real era Eduard Louis Joordan. Não é claro se as mensagens o influenciaram ou não a cometer suicídio.

A manipulação de Magnotta

Talvez uma das mais intrigantes partes do documentário venha de uma das maiores reviravoltas. Ao que tudo indica, Luka orquestrou sua própria história, prevendo todas as reações do público. Ele assumiu que se fizesse algo difícil de ignorar, receberia a atenção e fama que tanto desejava. E ele estava certo.

Se alguém escolhesse fazer o que ele fez atualmente, o volume de pessoas atrás dele impulsionaria os vídeos e o nome do suspeito ainda mais. Quase dez anos atrás, os vídeos em questão receberam centenas de milhares de visualizações on-line em sites que haviam sido criados entre 5 e 2 anos desde o compartilhamento dos vídeos de Magnotta.

O questionamento do documentário é: se o autor dos crimes documentados desejava a atenção das pessoas, aqueles que assistiram ao vídeo eram cúmplices na escalação dos atos cometidos por ele? De certa forma, sim. A fama foi entregue a ele, da forma que ele queria, sem cerimônia. Tudo porque na internet não há consequências para compartilhar suas emoções sem um filtro. Divulgar uma notícia ou opinião em 280 caracteres ou menos é cada vez mais fácil.

Em entrevista ao Independent, o diretor do filme, Mark Lewis, lembrou de uma mensagem que Baudi (Deanna) recebeu de Luka: “Aquele que luta contra monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para o abismo, o abismo também olha para você”. A citação, do filósofo Friedrich Nietzsche, abalou a analista de dados.

“Ela disse, ‘meu Deus, meu mundo se tornou tão obscuro. Habitei esse mundo de matador de gatinhos e assassino – aspirante a assassino – por tanto tempo que estou começando a pensar como ele, estou começando a meio que me sentir como ele'”, contou o diretor.

É com isso que o documentário se encerra. Ao final, Baudi olha para a câmera e diz: “E você, em casa, assistindo a um documentário inteiro sobre Luka Magnotta; você é cúmplice? Talvez seja a hora de desligar a máquina”.

Essa, de longe, foi a pior parte do documentário, mas não diminui a maneira magistral com a qual o diretor conta a história e faz críticas à cultura de perseguição presente na internet – hoje mais do que nunca. Desde a explicação das influências cinematográficas nos vídeos de Luka até seu misterioso álibi, Manny, a história da caça é surpreendente e merece ser vista.

Avaliação: Excelente

Clarice Rosa e Silva

Formada em jornalismo no Centro Universitário de Brasília (UniCeub) e repórter de entretenimento e gastronomia no Metrópoles.

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