“Uma criatura dócil” não retrata provocação filosófica de Dostoiévski

A falta de ação no monólogo cansa os espectadores. Só a fala do ator não é capaz de retratar os questionamentos provocados pela obra

atualizado

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1 de 1 dostoievski - Foto: Divulgação

Trabalhar um texto de Fiódor Dostoiévski é sempre um desafio. Precursor da literatura moderna, o escritor russo realiza um passeio sombrio pelo interior do ser humano, permitindo um fluxo do pensamento filosófico antes mesmo da ação de seus personagens. Assim, transpor a novela “Uma criatura dócil” ao teatro exige um cuidado redobrado para não perder o traço tão particular do autor.

O ator brasiliense Arthur Tadeu Curado lutou para manter esse equilíbrio. Sozinho no palco por 50 minutos, recitou o texto quase sem alterações da obra original e tentou dar conta do personagem — um homem solitário e confuso pelo suicídio da esposa. Porém, a voz não foi capaz de vencer a falta de elementos e movimento no tablado.

Em boa parte do tempo, o ator anda de um lado para o outro com as mãos abaixadas, abotoando e desabotoando o paletó. Nem mesmo os poucos objetos cênicos (cadeira, guarda-chuva e relógio) serviram para dinamizar a encenação, dando a impressão de que poderiam ser facilmente descartados pela direção teatral. Em um monólogo com falas densas, essa atitude “minimalista” provoca cansaço nos espectadores.

Fora a voz do ator, reina o silêncio na peça teatral. Não há qualquer composição musical ou instrumento acompanhando o personagem ao longo da narrativa, tendo somente algumas notas rápidas entre um ato e outro.

O cenário, apesar de bastante simples e moderno, representa um respiro à monotonia da peça. O excelente desenho de luz feito pelo ator Abaetê Queiroz deu novas tonalidades ao discurso proferido pelo personagem. Os refletores foram usados de modo a provocar sombras que realçaram o existencialismo proferido por Dostoiévski em sua obra.

Ao final da peça, o espectador pode dizer que teve contato com o texto de “Uma criatura dócil”, mas não poderá afirmar que conheceu a “rudeza de pensamento e de coração como um sentimento profundo” que tanto Dostoiévski fez questão de abordar.

Não saberá que aquele homem, presente ali por quase uma hora, vive o arrependimento de toda uma vida por não ter impedido o suicídio de sua amada. Não compreenderá o quão amarga é umas de suas últimas frases: “Tudo está morto, e há cadáveres por toda parte. Os homens estão sozinhos, rodeados pelo silêncio”.

 

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