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Sete anos depois do lançamento, em 2009, o livro “Leite Derramado”, de Chico Buarque, ganha versão teatral. Roberto Alvim adaptou e dirige a peça, que estreia sexta-feira (14;10), no Sesc Consolação, em São Paulo.

É a primeira vez que um romance de Chico Buarque é adaptado para o palco. “Leite Derramado” reproduz o monólogo de um homem muito velho, um oligarca centenário que, à beira da morte, reflete sobre a própria existência, marcada pelo avô, um latifundiário escravagista, e pelo pai, senador corrupto. Dirigida à filha e às enfermeiras, a fala desarticulada do ancião cria dúvidas e suspenses.

Por meio desse labirinto que Alvim retrabalhou o texto original, transformando-o em um espetáculo para oito atores. “Enquanto agoniza no hospital, ele se descobre vítima da própria trajetória, criada, ao longo de anos, por sua própria classe social”, diz o diretor. Segundo Alvim, o livro traz “uma leitura do inconsciente do nosso país”

Carta branca do autor
Roberto Alvim trabalhou em oito versões até atingir o formato que considerou ideal. “A mais recente é uma adaptação cênica dessa inconsciência, o que me permitiu chegar às forças subterrâneas que constroem o Brasil. Cheguei a uma versão sintética, uma espécie de haicai do romance.”

O encenador conta que recebeu carta branca do romancista para explorar os simbolismos do livro. “Em nossas conversas, mostrei a Chico certas camadas do texto que nem ele tinha percebido”. Depois de uma troca de telefonemas, Alvim conseguiu o consentimento do autor para transpor a obra para o teatro.

No primeiro encontro, ele levou um esboço com 18 páginas que continha seu projeto de adaptação. Segundo ele, Chico gostou da forma com que pretendia retrabalhar o ethos nacional de uma forma diferente do que fizeram outros. “Mostrei a ele que pretendia trabalhar o nosso tempo a partir do delírio do velho Eulálio.”

O protagonista é interpretado pela atriz Juliana Galdino, que ao entrar em cena provoca um forte impacto — com cabelos grisalhos, feições rústicas e esbranquiçadas pela maquiagem. “Eulálio corporifica mais de 200 anos de história do Brasil, marcada por racismo e corrupção”, comenta o diretor. A peça conta com música original criada pelo filósofo Vladimir Safatle.

 

 

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