A nada mole vida de um dublê: atores têm rotina dura e explosiva

Vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, Brad Pitt engrossa o coro por mais reconhecimento à classe na indústria cinematográfica

Arquivo Pessoal/Divulgação

atualizado 17/02/2020 6:40

O que seria dos filmes de ação sem as cenas de explosão, heróis pulando de prédios em chamas ou as incríveis fugas automobilísticas que terminam em capotamentos? Mesmo sem os bônus da fama, os dublês são peças-chave da indústria cinematográfica. Prova disso é que astros hollywoodianos têm se unido à classe para exigir mais reconhecimento e valorização da categoria.

O maior ato de apoio aconteceu no último domingo (09/02/2020), quando Brad Pitt passou a engrossar o coro das reivindicações. Ganhador do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante pelo papel do dublê veterano Cliff Booth, em Era Uma Vez… Hollywood, de Quentin Tarantino, o famoso aproveitou o discurso da vitória para pedir que a profissão também vire uma categoria na principal premiação do cinema mundial.

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A atitude de Pitt repercutiu ao redor do mundo e aumentou o interesse dos amantes de aventura pela carreira. Mesmo distante da realidade norte-americana, que concentra os principais estúdios do cinema, o mercado brasileiro também é movimentado. “Graças a esses esforços, hoje podemos ver as portas sendo abertas para abraçar esses integrantes da indústria”, acredita Marcos Mascaretti, sócio do Centro de Treinamento Tático de Dublês e Atores, escola localizada em São Paulo.

Responsável por formar mais de 100 profissionais do ramo, Mascaretti explica que é preciso muito mais do que coragem para se tornar um dublê. “O nosso curso possui aulas teóricas e práticas”, destaca. Só a modalidade básica – onde o aluno sai pronto para atuar em produções que, segundo o sócio, “não exigem muitas atividades de alto risco”, a exemplo de explosões e capotamentos –, tem um ano de duração.

Dividido em módulos de aprendizagem e níveis de periculosidade, o curso ensina habilidades como coreografia de luta, salto de carro em movimento, quedas, atropelamentos, capotagem de veículos, incêndio corpóreo e salto de explosões, entre outros. “A maioria dos nossos alunos são homens, mas a procura pelo público feminino aumentou muito com a presença constante de heroínas na telona”, ressaltou Mascaretti. Depois de formados, os novos dublês podem ganhar diárias que variam de R$ 800 a R$ 1.600. Valor bem abaixo da remuneração nos EUA, onde os campeões de bilheteria pagam em torno de US$ 100 mil por produção.

Daniel Ferreira/Metrópoles
Zé Ricardo tem quatro filhos, os dois meninos seguem os mesmos caminhos do pai e já se aventuram na motovelocidade
Estrela do cerrado

Nascido e criado na capital da República, José Ricardo, 47 anos, é um dos principais dublês do Brasil. Com currículo extenso, o brasiliense já atuou em programas da TV Globo como Turma do Didi, Linha Direta e Você Decide. Além de dublar Rodrigo Santoro em uma cena da novela Estrela Guia (2001). No cinema, já participou de filmes como Faroeste Caboclo e O Outro Lado do Paraíso, neste último foi dublê de corpo de Eduardo Moscovis.

Apaixonado por esportes radicais, Zé Ricardo conta que foi descoberto ainda garoto, quando brincava com os amigos de saltar de bicicleta de um prédio em cima do capô de um carro abandonado. “Fiz algumas aparições pequenas, trabalhos de publicidade e depois me apaixonei pela profissão”, lembra. Desde então, não parou mais. Especializou-se em diversas atividades de risco e no desenvolvimento de novas tecnologias.

Uma das que mais lhe renderam retorno foi feita para o trabalho no filme A Noite Por Testemunha, de Bruno Torres. O longa narra o assassinato do índio Galdino, que teve o corpo incendiado enquanto dormia em uma praça da Asa Sul. “Um amigo químico me ajudou a criar um gel que dispensa o uso de macacões de amianto para cena de corpo em chamas”, recorda. “O resultado chegou muito próximo do real e essa metodologia me proporcionou fazer vários shows ao redor do Brasil.”

Daniel Ferreira/Metrópoles
Com a Dublê Car, Zé Ricardo ministra cursos de direção tática a agentes da segurança pública
Próximos projetos

Apesar da carreira sólida, o morador do DF diz que o mercado brasileiro ainda está longe de ser o ideal. “Aqui em Brasília, especialmente, as produções são de baixo custo. Pelo menos metade dos trabalhos que fiz nem recebi cachê, ou entrei como patrocinador e apoiador.” Atualmente, a principal vertente da empresa de Zé Ricardo, a Dublê Car, está voltada aos cursos de direção tática móvel a agentes de segurança pública.

Zé Ricardo já está escalado para o longa Amado, filme de ação brasileiro de Erik de Castro e Edu Felistoque que será gravado na capital federal ainda este ano. O filme tem elenco de globais como Maria Padilha, Sérgio Menezes, Alexandre Barillari e Jonathan Haagensen, entre outros. Além de ceder armamentos e carros cenográficos, vou treinar os atores para as cenas mais radicais”, adianta. Apesar de não faltar trabalho para Zé, o dublê vê com desânimo o atual momento da profissão. “Estamos sendo dizimados. Primeiro, porque alguns efeitos podem ser criados na pós-produção, e, segundo, pelo fato de que várias empresas estão marginalizando esse mercado. Nós não temos sindicato, não temos ninguém que nos represente”, lamenta.

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