O Último Voo da Nave: o que explica homens adultos chorarem por Xuxa
Em São Paulo, estreia da turnê reuniu mais de 50 mil pessoas e reacendeu memórias de adultos marcados pela obra da apresentadora

Nostalgia, magia e música se uniram no último sábado (25/7) durante a estreia de uma série de shows de Xuxa. A noite de abertura da turnê O Último Voo da Nave reuniu mais de 50 mil pessoas no Nubank Parque, em São Paulo. Apesar do sucesso de público, a repercussão foi marcada por críticas à apresentadora e também aos tantos adultos que se reuniram nas grades e entoaram os hinos infantis com lágrimas nos olhos.
A lista de músicas atravessa diferentes fases da Rainha dos Baixinhos, dos hits infantis da década de 1980 às apostas infantojuvenis da era Planeta Xuxa, exibido no fim da década seguinte. Não demorou muito para que relatos de homens adultos emocionados com o espetáculo ganhassem força nas redes sociais.
Um deles foi o do comissário de bordo Rodrigo Stafford, de 43 anos. Ele abriu o coração em um post, curtido e compartilhado pela cantora, e lembrou que, aos 8, apanhava do pai por cantar Xuxa e tinha os discos que ganhava da mãe quebrados.
No registro, em que chora ao som da faixa Arco-Iris, ele escreveu: “Hoje, não tem mais ninguém para me bater, só para me aplaudir”.
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A nave espacial de luzes piscantes é muito diferente da “gaiola” em que o fã cresceu, cercado por adultos que ditavam como ele deveria falar, se vestir ou brincar para se adequar às normas da masculinidade. Durante as duas horas de show, ele voltou a se sentir como a criança embarcava no mundo mágico da apresentadora, distante do preconceito que, na vida adulta, passaria a reconhecer como homofobia.
“Eu não teria outra palavra a dizer para ela a não ser muito obrigado. E não pare, não abandone a gente, Xuxa. A Xuxa cura”, disse em entrevista ao Metrópoles.
Embora muitos comentários tenham se sensibilizado com relatos como o de Rodrigo, críticas também evidenciaram o estranhamento diante de tantos homens adultos entregues a um show comandado por uma ex-apresentadora infantil. O comissário de bordo lembrou que homens héteros também se entregam à emoção e gastam com passagens e ingressos para acompanhar eventos esportivos, como jogos de futebol.
Para ele, o julgamento não é uma barreira para aproveitar o momento nostálgico. “Eu preciso dar ao Rodriguinho de 8 anos de idade toda a felicidade do mundo que ele não pôde ter uma infância inteira”, refletiu.
Veja algumas críticas:
imagina pagar pra ouvir isso
— vinícius 𐚁 (@viniciusfromrio) July 26, 2026
Imagina alguém de 40 anos do seu lado cantando isso gag pic.twitter.com/PDtLMrjwaB
— aenar (@oaenar) July 26, 2026
Tipo.. eu sou um cara que curte uma boa nostalgia . Mas pensar num bando de quarentão lotando um estádio pra cantar musica de patinho me parece meio patético.
— Gabriel Augusto (@gabriel_augb) July 26, 2026
Memórias da infância podem despertar emoções profundas em quaisquer pessoas, sejam LGBT ou não, como explica Lucas Brito, doutorando em sociologia e professor da Universidade de Brasília. Para o pesquisador, o show de Xuxa abre espaço para que adultos que foram oprimidos se expressem por meio da arte e da música sem precisar prestar contas às normas da masculinidade.
“Para quem está hoje acompanhando a turnê e era uma criança LGBT, esse momento pode representar uma segunda chance de viver algo que lhe foi interditado pelo preconceito”, observa.
“A Xuxa, para mim, era o RuPaul. Eu botava a toalha na cabeça, colocava a roupa da minha mãe e dançava as músicas”, disse o ator Silvero Pereira em 2023. A mesma percepção também encontra eco na experiência do influenciador Jhon Wallison, de 29 anos, que esteve no show.
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Para ele, a loira deu início a um fenômeno até então inédito no Brasil: o surgimento de uma diva pop, por meio dos figurinos, das músicas e da própria personalidade. Emocionado, ele conta que os anos entre a infância e a vida adulta pareceram desaparecer assim que a nave pousou no palco.
“Ela participou das nossas vidas em um momento muito específico, no meu caso, durante os anos 2000”, contou. “Nesse momento [do show] parece que tudo que eu vivi depois que eu conheci a Xuxa não existiu, era só o John criança que estava lá.”
















