Figurinha carimbada do Clube do Choro, o trombonista Raul de Souza volta a Brasília a cada ano para uma série de noites na casa noturna. Esta atual temporada, aberta na última quarta-feira, se encerra nesta sexta-feira (11/9). Ele viajou sozinho para cá, trazendo apenas seu trombone de vara e três pinos, que lhe rendeu fama internacional, e  um sax tenor — que, na maior parte do tempo, fica descansando, parado em seu suporte, no canto do palco.

Quem tem trabalhado pesado com Raul e seu trombone no Clube do Choro, desta vez, são três músicos da cidade. A eles coube a missão de fazer a base rítmica para o mestre. O baterista Leander Motta e o pianista Flávio Silva, já conhecidos por Raul de outras passagens, cumprem a função ao lado do baixista Daniel Castro, que ocupa o posto quase sempre a cargo do paranaense Glauco Sölter. Vale notar que Leander Motta, Daniel Castro e Flávio Silva já se conhecem de outras formações, todos tocaram no quarteto de jazz de Moisés Alves, então o entrosamento entre eles já rola macio.

Ideal para Raul de Souza poder se largar sobre essa cama ricamente armada. Aos 81 anos, o músico comemora redondos 60 anos de carreira artística — e trata-se de uma carreira bem particular. Espécie de herdeiro de Pixinguinha, Raul levou ao trombone de vara, de sonoridade grave e inclinação rítmica, à fluidez primaveril dos choros cariocas, e também a energia pulsante da gafieira.

Maestro do rei
Esses elementos, nada comuns a trombonistas por aí afora, valeram a Raul de Souza extensa trajetória entre palcos e estúdios. Foi maestro de Roberto Carlos na época da Jovem Guarda e também tocou com Sérgio Mendes. Na década de 1970, mudou-se para os Estados Unidos. Lá circulou ao lado de Sonny Rollins, Freddie Hubbard e do colega trombonista J.J. Johnson. Gravou com Sarah Vaughan e flertou com as paradas de sucesso gravando funk. Desde os anos 1990, divide seu tempo entre o Brasil e a França.

Raul de Souza acaba de voltar de Paris. Na semana passada, foi submetido ali a uma cirurgia na garganta. Não se percebe isso em seu som, mas sim em sua voz. Depois de já entrados 40 minutos no concerto de quinta-feira (10/9), ele tomou o microfone e, com a voz amarfanhada, explicou a razão de estrar falando pouco.

Melhoras para Raul. Mas ele fala, em verdade, através de seu trombone. E se as pessoas na plateia do Clube do Choro começarem a murmurar versinhos de “Lígia” ou de “Água de Beber”, para citar duas composições de Antonio Carlos Jobim caras a Raul, na verdade elas estarão acompanhando o cantar do trombone de Raul de Souza.

Autocelebração
Num concerto amarrado por composições próprias recentes (como “Voilá”) ou nem tanto (“À Vontade”), Raul de Souza canta através de seu trombone, deixa os sidemen brasilienses brilharem em certos momentos, mas mantém o pulso firme sobre a banda, não permite muitas digressões e apresenta números enxutos.

Fica evidente que ele se sente bem à vontade na casa brasiliense. E até deixa de lado o clima deste ano por lá, em celebração ao repertório de Dominguinhos. Afinal… Aos 81 anos de vida e 60 de carreira, Raul de Souza está a celebrar a si mesmo.

Até hoje (11/9), às 21h, no Clube do Choro (Setor de Divulgação Cultural, Bloco G, Eixo Monumental; 3224-0599). Ingressos a R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). À venda na bilheteria do Clube. Informações no site do Clube do Choro. Não recomendado para menores de 14 anos.