Los Hermanos e seus fãs celebram o passado em comum em Brasília
Quarteto carioca reencontra multidão de fãs na cidade em concerto marcado por hits da última década
atualizado
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Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante foram avistados exatamente às 22h29 de sábado (10/10). Um alarido percorreu a multidão, de fora a fora, espalhando-se pela amplidão do Pavilhão de Exposições do Parque da Cidade. Gente que aguardava ali de pé havia um bom par de horas.
Se a simples visão de Camelo e Amarante já despertou instantânea histeria, bem, quando eles ligaram as guitarras elétricas e deram as primeiras notas de “O Vencedor”, o frenesi se mostrou incontornável.
“Retrato pra Iaiá”, segunda canção da noite, amaciou com seu suingue o naipe de metais. E logo deu para reconhecer Los Hermanos em suas atitudes habituais. Amarante mais gaiato em suas intervenções, mais solto em cena, num contraponto ao absorto Camelo.

Os entusiásticos refrões de hinos pop à “Sentimental” e “Todo Carnaval Tem Seu Fim” confirmavam o apelo popular de Amarante e Camelo como compositores. Enquanto as peças mais intimistas e miudinhas, tipo “Morena” e “Pois É”, foram recebidas em carinhoso cantarolar, que nem a péssima, péssima acústica daquele infame galpão conseguiu desbotar.
Sim, Los Hermanos continuam os tais. E as presenças discretas de Bruno Medina, aos teclados, e Rodrigo Barba, à bateria, parecem servir não apenas para auxiliar os popstars Camelo & Amarante, mas também para garantir aquele lastro de integridade artística que sempre importou tanto à banda e a seus fãs.
Esmagadoramente sub-35 e com traços frequentes da chamada juventude hipster, a plateia do Parque da Cidade se preparou bem para a jornada. Cada canção era festejada e cantada de cor. Uma dinâmica feliz e uma cumplicidade plena entre público e banda que ainda hoje se mantêm intactas. Nada mal para quem não lança música nova há exatos dez anos…

Do rock ao samba
Dentro de estúdio, Los Hermanos foram uma dessas raríssimas bandas para as quais cada trabalho contava. O primeiro de seus discos, o autointitulado álbum de 1999, criou à época uma celeuma por sua conexão com o produtor e hit maker de aluguel Rick Bonadio. O sucesso estrondoso de “Anna Júlia” só não foi maior que toda a conhecida rebordosa gerada, com a banda se recusando a tocá-la em seus shows.
Os álbuns que se seguiram, a partir de “O Bloco do Eu Sozinho” (2001), traçam uma trajetória precisa. Do estilo inicial, ainda vinculado à cena do underground carioca, com tons de ska e hardcore, prevaleceu o pendor a uma lírica romântico-sofredora. Após um momento de ruptura, sob influência do samba e da bossa, esse disco se revelou um daqueles trabalhos que, com o tempo, ganham status de cult por crescerem na estima de seus ouvintes.
De modo que, um par de anos mais tarde, quando vazou “Ventura” (2003), toda uma juventude já estava no ponto de cantar junto todas as letras, pulando e dando soquinhos no ar. Estava assim garantido o posto de Maior Banda de Sua Geração – além dos inevitáveis rapapés, de Maria Rita a Caetano Veloso. Quando saiu o derradeiro “4” (2005), então, já não havia mais para onde crescer e tudo naquele disco soava sério em demasia. E rock, a valer, nem mais havia.
Cada um a seu tempo, Rodrigo Amarante com o Little Joy, Marcelo Camelo com a Banda do Mar, os dois hermanos reencontraram o bom humor, a leveza temática e renovaram sua arte. O que nos leva agora, fazendo todo o caminho de volta, à noite de sábado no Parque da Cidade.

Do cult à glória
Los Hermanos todos reunidos, mais uma vez, esta era a segunda apresentação do quarteto carioca em Brasília desde seu pranteado “fim” em 2007.
Três anos após a última passagem pela cidade, os camaradas reencontraram um público ainda cativo e, com ele a seu lado, conseguiram percorrer novamente as minúcias e as idiossincrasias de seus quatro álbuns. Mas…
Dentro de uma trajetória tão exata, como encarar estas eventuais turnês de retorno? A ausência de discos novos comprovaria uma exaustão dos quatro músicos como unidade criativa? O carisma basta para justificar esses shows sem perder um bocadinho de sua tão estimada credibilidade? Los Hermanos hoje seriam os Rolling Stones da Zona Sul?
Perguntas que restam a cabo das quase duas horas de um concerto tão profissional quanto saudosista. E seria somente cinismo não ponderar a atitude autocelebratória da banda sobre o palco com todo o auê coletivo que ali a cercava e envolvia.
Antes de o show começar, o sistema de som reverberou clássicos do rock gringo: Jimi Hendrix, Bob Dylan, Lou Reed, Joy Division, The Smiths, o cânone roqueiro quase por inteiro. Los Hermanos, sim, já estão (pro bem e pro mal) no nosso cânone pátrio. O passado está de pé. Mas o que guarda o futuro para uma das melhores bandas brasileiras dos últimos vinte anos?
Essa resposta não pôde ser ouvida no Parque da Cidade. E, sim, eles tocaram “Anna Júlia”.
