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Nova York, East Village, 2004. Uma garota congelando na Primeira Avenida, no meio de uma nevasca cortante, espera que um táxi, do nada, venha lhe salvar. Na mesma calçada, um elegante sujeito de cachecol e chapéu tentava a mesma sorte. Quando finalmente um solitário par de faróis apareceu no meio da neve, o estranho galante disse: “Pegue você!”. Ao que a garota devolveu: “Não há outros táxis por aqui. Por que não dividimos?”, sugeriu.

Só quando estava dentro do carro que ela percebeu quem estava ao seu lado: David Bowie. Sem se abalar e não querendo chatear o artista com perguntas de fãs, a jovem começou então a contar a história de sua vida. “Você tem que perdoar, para o seu próprio bem”, ia ele aconselhando, entre um semáforo e outro.

Quando, finalmente, eles chegaram ao destino dela, ele comenta com fina ironia e nenhum pouco de falsa modéstia: “Agora, quando você contar aos seus amigos sobre isso, certifique-se de mencionar que eu estava usando sapatos fabulosos”, disse o eterno camaleão do rock.

 

A sortuda desta história surreal é Jenni, amiga do crítico e colunista da Rolling Stone Rob Sheffield, que resolveu espalhar a aventura no livro On Bowie, lançado no Brasil pela Globo Livros com o título de David Bowie – Uma Vida em Canções. Colunista e jornalista da prestigiada revista desde 1997, onde escreve sobre música, televisão e cultura pop, o autor faz aqui um cativante relato de fã sobre a vida e as canções do artista.

“O planeta Terra está muito mais triste sem David Bowie, a maior estrela de rock que já caiu neste planeta ou em qualquer outro”, exagera o autor na introdução da obra. “Este livro é uma carta de amor para Bowie, uma celebração de sua vida e sua música. É um agradecimento pela linda bagunça em que ele transformou a vida de todos nós. É a história de como ele mudou o meu mundo e o seu”, admite.

“Um sacana aristocrata europeu”
A ideia do livro surgiu logo após a notícia da morte de Bowie se espalhar mundo afora naquele triste 10 janeiro de 2016, dois dias depois de o artista lançar sua última obra-prima, o álbum Blackstar. “Você consegue escrever um livro sobre ele em um mês?”, perguntou de supetão a editora Carrie Thornton. “Bem, ele fez Low em um mês”, respondeu Sheffield, aceitando a empreitada que o fez mergulhar no universo mágico visual e sonoro do camaleão do rock.

É perceptível. On Bowie é um livro de fã. Uma biografia em que a trajetória deste multifacetado artista é destrinchada pelas impressões e sensações para lá de particulares do jornalista que aprendeu amar Bowie com as canções dos discos Young Americans (1975) e Station To Station (1976). Trata-se de uma narrativa que esbarra na objetividade jornalística, claro, mas transborda em observações subjetivas sensíveis e sinceras.

“Bowie tem muito a dizer para nós, jovens norte-americanos. Ele nos arrancou da nossa rotina de milk-shakes e nos colocou em suas fantasias musicais. Você poderia estar encalhado no meio do nada, sem nenhum lugar especial para ir, mas esteve na canção dele”, reflete, com devoção de um fã confortado.

Os capítulos mais excitantes do livro são aqueles em que o autor convida o leitor a conhecer as facetas por trás de cada uma das personas criadas pelo artista ao longo da carreira. O perdido astronauta Major Tom, seu primeiro grande sucesso, o mago das estrelas Ziggy Stardust, o sombrio Aladdin Sane, o frio e esguio Duque Branco, “um sacana aristocrata europeu de cabelo loiro escorrido, colete preto e uma voz sepulcral de cantor de ópera”, descreve o jornalista.

Repleto de fotos icônicas do astro em suas diferentes fases e com trabalho gráfico estiloso, no qual a cor laranja predomina, David Bowie – Uma Vida em Canções é um livro que agrada tanto fãs empedernidos de longa data quanto aqueles que acabaram de se render ao talento desse que foi talvez o maior astro de todas as galáxias a cair na Terra.

David Bowie – Uma Vida Em Canções, de Rob Sheffield (Globo Livros, R$ 49,90, 304 páginas)

Trechos do livro

Como nasceu a canção Starman
“Quando juntou as canções na ordem final com o produtor Ken Scott, havia uma música no lado A que não estava à altura: um cover de Round and Round de Chuck Berry. Ela se encaixava no conceito – o tipo de canção antiga que os Spiders From Mars teriam abrangido, porém redundante, dado que o lado B já estava cheio de tiradas à Chuck Berry. O lado A precisava de algo diferente, maior e mais pomposo. Um hino. Bowie responsavelmente eliminou a canção e compôs correndo uma nova música para espremer no álbum no último minuto. Chamou-a de Starman.”

Bowie e o Dream Team
“Os cinco melhores álbuns de Bowie vieram todos numa sequência de cinco anos: Station To Station (1976), Low (1977), “Heroes” (1977), Lodge (1979), Scary Monsters (1980). O que estes álbuns têm em comum? A seção rítmica: Dennis Davis na bateria, George Murray no baixo e Carlos Alomar na guitarra. Esses são os caras que trabalharam em todos os cinco. E são eles o motivo pelo qual estes álbuns não soam como nada que Bowie ou qualquer outra pessoa fizera antes.”

Colocando Slash para dormir
“A filmagem (de O Homem Que Caiu na Terra) foi realizada no Novo México, onde Bowie se envolveu com a figurinista Ola Huson, uma afro-americana nascida em Los Angeles, e criou uma grande amizade com seu filho de oito anos, Saul. O mundo mais tarde conheceria Saul pelo nome de Slash, o guitarrista do Guns ‘N Roses. Mas em 1975 ele era só um garoto conhecendo o novo namorado da mãe. ‘Foi como assistir a um alienígena aterrissar no meu quintal’, Slash recordou anos depois. ‘Eu às vezes costumava coloca-lo na cama à noite, o pequeno Slash. Quem teria imaginado?’, Bowie recordou em 2002.”