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Era uma manhã de julho de 1966, uma sexta-feira, quando Bob Dylan tirou sua motocicleta da garagem para levá-la ao mecânico em Woodstock (NY) – cidade onde havia se enfurnado com a mulher Sara e os dois filhos. No meio do caminho, num vacilo que denunciou não apenas sua incompetência como piloto, mas visão precária, ele se acidentou e ficou de molho por dois anos.

O incidente está cercado de intrigas. Não sabemos direito onde o acidente aconteceu e se de fato chegou a ocorrer"
Howard Sounes, um dos biógrafos de Dylan

O episódio foi usado como desculpa pelo artista para se livrar dos inúmeros compromissos profissionais. “Eu estava muito elétrico antes daquilo. Provavelmente, teria morrido se continuasse daquele jeito”, diria anos mais tarde Dylan, referindo-se aos turbulentos anos do auge da carreira, em 1960.

E naqueles dias o homem estava mesmo sobrecarregado, com dezenas de shows agendados e sentido a pressão de ser o Judas da cena cultural, quando trocou o violão folk e o discurso engajado pelas guitarras e letras existenciais. A fase é marcada pelos álbuns Bringing It All Back Home (1965), Highway 61 Revisited (1965) e Blonde On Blonde (1966).

Assim, enquanto estava recluso durante o Verão do Amor, em 1967, ele escutou Sgt. Pepper’s, dos Beatles, e nem deu muita pelota para a obra-prima do fab four. “Um álbum muito condescendente… embora as canções fossem muito boas”, resmungou. Matava o tempo em jam sessions com os rapazes dos Hawks – a futura The Band – e lia a Bíblia ao som do ídolo country Hank Williams.

Nesse contexto nasceu o álbum John Wesley Harding, sua contribuição para aquele mítico ano de 1968. O trabalho registrava outra guinada na carreira desse artista versátil e camaleônico.

Entre bandidos e santos
O produtor Bob Johnston estranhou quando Dylan lhe fez a proposta quase imoral. “Todos os artistas do mundo estavam em estúdio, tentando fazer um disco o mais grandioso possível. Então, ele vem para Nashville e me diz que quer gravar com baixo, bateria e guitarra”, relembra Johnston.

Gravado em apenas três sessões curtas, com Dylan tocando violão, piano e gaita em 11 faixas, John Wesley Harding já destoava dos outros trabalhos do bardo pelo visual da capa, na qual ele aparece de cabelos curtos e semblante de profeta. A voz também soava diferente. Parecia uma versão do Moisés de Cecil B. DeMille, só que muito mais comedido e introspectivo. As letras surgiam como parábolas curtas e precisas.

O título fazia referência ao fora da lei texano John Wesley Hardin (1853-1895) – assim mesmo, sem o “g”, acrescentado por Dylan –, uma das últimas lendas do Velho Oeste. Na letra, o artista distorce um pouco a história, retratando o forasteiro como uma espécie de Robin Hood do faroeste.

“John Wesley Harding era um amigo dos pobres/ Viajou com uma arma em cada mão/ Por todos esses campos, abriu muitas portas/ Mas ele nunca ficou conhecido por ferir um homem honesto”, romantiza o cantor na balada envolvente que abre o disco.

Outra música emblemática do álbum era sobre Santo Agostinho. A antítese do personagem-título evocado por Dylan, mas nem tanto – já que, como observa o biógrafo Howard Sounes, dentro da lógica cristã eram personagens igualmente proscritos da sociedade. A letra cantada com paixão por Dylan num ritmo marcial lento teve inspiração em canção sobre o sindicalista Joe Hill.

Na clássica All Along The Watchtower, escrita no meio de uma tempestade fustigada por raios e trovões, ele faz sua interpretação do trecho de Isaías 21, do Velho Testamento. “‘Deve haver algum jeito de sair daqui’/ Disse o Curinga ao Ladrão/ Há confusão demais, não consigo nenhum alívio”, canta. Em sua versão psicodélica da canção, Jimi Hendrix parece evocar o apocalipse com sua Fender Stratocaster.

 

Enquanto Down Along the Cove é um blues dançante escrito para o filho Samuel, I’ll Be Your Baby Tonight, que fecha o álbum, é uma gostosa canção de amor.