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Aos 86 anos, um dos ícones nacionais que revolucionou a música com jeito “Bossa Nova” de cantar e tocar violão vai mal. Trancafiado em seu apartamento no Leblon, impedido judicialmente pela família de tocar a carreira, João Gilberto parece pagar pelas excentricidades, vaidades e caprichos infantis de uma vida inteira.

Mas isso é coisa do presente, este deus nefasto, insano e sádico do acaso. O que nos interessa aqui é o passado do artista: responsável por dar uma guinada à nossa música apenas com batida moderna, inovadora e ousada. “O que é isso, João?”, tomou um susto um perplexo Tom Jobim, quando ouviu João Gilberto embalar pela primeira vez os acordes de Chega de Saudade, canção-símbolo movimento.

Tudo começou há exatos 60 anos, em abril de 1958, quando a diva Elizeth Cardoso gravou o histórico disco Canção de Amor de Mais. Emblemático não apenas porque no álbum um jovem baiano que nem foi creditado tocava duas canções, uma delas a icônica “Chega de Saudade”, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. A obra trazia a pegada e o suingue sensacional do violão de João Gilberto.

Mas era um violão tão formidável e, genuinamente, autêntico que, passados poucos meses, em agosto, João Gilberto gravou, ele mesmo, “Chega de Saudade”. Após o lançamento do compacto homônimo, a música brasileira mudou de forma radical.

“Na minha, opinião, João Gilberto se transformou no marco zero da bossa nova, ou seja, num samba-canção bossa nova”, observa o pesquisador Jairo Severiano. “Ele valorizou o tempo fraco”, observou o especialista Zuza Homem de Mello.

“Mas eu sou ele”
Foi um escândalo. Como aquele cantor de voz aparentemente “desafinada”, quase efeminada, a antítese dos grandes cantores da rádio, acompanhando de um violão econômico e sincopado fazia tanto sucesso? Certo dia o marido da artista plástica Liliane Lacerda de Menezes se zangou quando alguém interfonou dizendo que ia subir para tocar e cantar Bossa Nova.

“Liliane, não aguento mais esses imitadores do João Gilberto”. A visita se indignou: “Mas eu sou ele…”.

O estilo de João Gilberto trazia um canto mínimo e exato que embalava letras coloquiais sobre amor, sol, praia… O artista foi arauto desse clima de beleza e juventude.

“Era a trilha sonora que nos faltava”, escreveu Nelson Motta, um dos grandes entusiastas da Bossa Nova, no livro “Noites Tropicais”. “João Gilberto era o nosso pastor e nada nos faltaria”, blasfemou com muito bom humor.

Gravado entre julho e novembro de 1958, mas lançado em março do ano seguinte, o debute de João Gilberto, além da icônica faixa-título, imortalizou sucessos como Desafinado, Lobo Bobo, Bim Bom e Hô-bá-lá-lá. Até 1990, quando Ruy Castro lançou o sensacional “Chega de Saudade – A História e as Histórias da Bossa Nova”, o álbum já tinha vendido meio milhão de cópias no Brasil.

O impacto do disco na classe artística, como brinca Ruy Castro em seu livro, foi semelhante ao de Charlton Heston descendo o monte Sinai com as tábuas dos Dez Mandamentos. Foi um registro que mudaria a vida de várias gerações. Sem “Chega de Saudade”, não existiria Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Tom Zé e nem Jorge Ben Jorge, para ficar em alguns nomes emblemáticos da nossa MPB.

Também produzido por Tom Jobim, o seu segundo LP, O Amor, O Sorriso e a Flor, lançado em 1960, foi outro sucesso nas rádios, trazendo obras-primas como Samba De Uma Nota Só, Corcovado, O Pato, Meditação e Doralice. O estouro da Bossa Nova no Brasil o levaria a se apresentar em 1962, no mítico Carnegie Hall, em Nova York, ao lado de Augustinho dos Santos, Luiz Bonfá, Carlos Lyra, Sérgio Mendes, Tom Jobim e outros.

Além desses dois discos seminais do movimento, João Gilberto lançaria pelo menos outras duas pérolas ao longo da carreira. Um deles a formidável parceria com o saxofonista norte-americano Stan Getz, no álbum Getz/Gilberto (1964). Evocando os principais clássicos da Bossa Nova em oito faixas, entre elas, Corcovado, Garota de Ipanema, Desafinado e Doralice, o disco bateria as vendagens de A Hard Day’s Night no auge da beatlemania.

Indicado ao Grammy em 1977 na categoria Melhor Performance Vocal de Jazz, o disco Amoroso é uma perfeição com João Gilberto cantando em inglês, espanhol e italiano no seu inconfundível baianês de Juazeiro. Com um ouvido privilegiado e talento musical nato, o artist, nas palavras de Zuza Homem de Mello, é um “Quixote lutando para afinar um universo inevitavelmente desafinado”.

 

 

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