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Voltar a 2011 era inevitável. A chuva era torrencial. O som das gotas pesadas batiam nas capas de chuva e criava um zumbido ensurdecedor. E o Guns N’ Roses nada de surgir no Palco Mundo da antiga Cidade do Rock. Era a noite de encerramento do festival, na volta ao Rio depois de dez anos. Tudo isso, toda a expectativa existia e a banda demorou o que parecia ser uma eternidade.

Ele surgiram. Com Axl e um grupo que se chamava Guns N’ Roses, mas pouco se parecia com o que foi conhecido como Guns N’ Roses. Era um simulacro, a sombra de uma banda que vivera seu auge 20 anos atrás, mas definhara. A triste verdade da luta contra o tempo, implacável como sempre. E da briga de egos. Rose e Slash trocavam farpas pela imprensa e um retorno do guitarrista sempre pareceu impossível.

E talvez tenham sido somente as cifras, o gigante montante de dinheiro que foi capaz de unir Rose, Slash e Duff McKagan, o baixista. O trio que forma a base do que se convencionou e se entendeu como o núcleo do Guns, voltou a sair em turnê. O trio que havia deixado de estar junto no palco em 1993 está de volta. Tocou no Brasil, inclusive, em 2016, mas a dívida com o Rock in Rio deveria ser paga.

Não apenas por Axl, que com a voz fora de forma era incapaz de reproduzir os agudos de outrora, mas da performance como um todo. O fiapo de show apresentado em 2011 deveria ser esquecido.

A cena corta para a madrugada de sábado. Já era depois da meia-noite, então na teoria o calendário indicava ser domingo. O The Who havia deixado o público — e aqueles interessados verdadeiramente estavam em êxtase com a performance arrebatadora. Rose e companhia, se forem de fato humanos, estariam com medo. Era preciso provar ser mais do que aquele Guns de 2011. Era preciso ser um show de rock monumental.

Daqueles que o Guns N’ Roses ficou famoso por fazê-lo anos atrás. Com os clichês de uma performance de hardrock se dava ao luxo de ter. Solos intermináveis de guitarra, pausas dramáticas, cabelos ao vento. Os anos passaram. E para alguns dele, caso de Rose, eles podem ser cruéis. A voz já não é a mesma, mas está mais em forma do que há tempos não se via. Ele aprendeu a lidar com o tempo e seu estrago inevitável.

E 2017 não é a mesma coisa que 1991, qualquer um sabe disso — os bíceps de Slash estão maiores, inclusive. E o Guns N’ Roses foi capaz de fazer uma apresentação musculosa — e pela piada com o físico do guitarrista, peço desculpas. Com o vigor daquele rock que ficou no passado, mas ainda arrasta multidões. Eram, afinal, 100 mil vozes a cantar os hits. E entoavam como se fosse a primeira vez. Talvez fosse. Mas é de supor que, diante da devoção exibida na Cidade do Rock, muitos ali não eram iniciantes.

Sabiam inclusive dos momentos mais cadenciados da performance e às vezes menos excitantes. Até louvavam as canções de Chinese Democracy, o disco de 2008 e último da banda, mesmo que elas — Better, Chinese Democracy e This I Live — já tenham vindo do momento no qual Rose já estava sem seus braços direito (Slash) e esquerdo (Duff).

As covers também surtiram efeito. Da costumeira Knockin’ on Heaven’s Door, de Bob Dylan, à emocionante Black Hole Sun, do Soundgarden, banda de Chris Cornell, morto recentemente. Rolou até uma corajosa versão de The Seeker, do The Who. “Nós pedimos autorização”, disse Rose antes de iniciá-la.

São os hits que fazem um show massivo. E eles vieram aos montes. Cantou-se até esgotar as cordas vocais com Mr. Brownstone, Welcome to the Jungle, Rocket Queen, You Could Be Mine, Civil War, Sweet Child O’ Mine, Used to Love Her, November Rain, Nightrain, Patience e Don’t Cry. A Cidade do Rock, que nunca esteve tão cheia, jamais cantou tão alto.

Foi mais do que uma redenção. Foi a apresentação que se esperava de uma banda capaz de encher esse espaço de fãs, com uma discografia diminuta e poderosa, com canções icônicas e integrantes tão fundamentais para a história do rock.

O tempo, não importa o tanto que ele corra, às vezes parece congelar. Para o Guns N’ Roses em suas três horas e 23 minutos no palco, ele havia estacionado. Parou naquele momento no qual o Guns N’ Roses era a maior banda do mundo. O relógio pode ter passado, pesado e cobrado seu preço. Mas a banda se redimiu com quem esteve no Rock in Rio em 2011.

E, o melhor, não teve chuva.

 

 

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