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“Je suis ici (eu estou aqui em tradução livre) ainda que não queiram”, a cantora e compositora Luedji Luna impõe a existência e voz de mulheres negras tantas vezes silenciadas. Os versos são de Um Corpo no Mundo, canção homônima do álbum de estreia, lançado em outubro do ano passado. Com sonoridade única, que mescla ritmos afro-brasileiros a jazz e blues, o disco tem tido boa acolhida pela crítica.

Nascida no bairro do Cabula, em Salvador, Luedji deu seus primeiros passos na música na Escola Baiana de Canto Popular. Há dois anos, mudou-se para São Paulo e viu nas andanças pela capital uma infindável fonte de inspiração musical. “Quando cheguei aqui fui impactada pela falta de corpos negros nas ruas. Isso, claro, comparado a Salvador. Assim surgiu a letra de Um Corpo no Mundo”, explica a cantora.

A música viralizou e se tornou o norte de um trabalho mais robusto. “As pessoas começaram a perguntar quem eu era, onde poderiam encontrar meu CD, procurar por mais canções na internet. A ideia (de gravar um disco) surgiu dessa demanda, do próprio público”, conta.

 

“Feito a seis mãos”, como a baiana faz questão de ressaltar, a musicalidade do CD é reflexo de cada instrumentista que colaborou com a obra. A exemplo do cubano Aniel Someillan (baixo); o sueco, radicado na Bahia, Sebastian Notini (arranjo); o soteropolitano Rudson Daniel (percussão); o filho de congolês François Muleka (violão); e Kato Change (guitarra), do Kênia.

Para Luedji, a percussão ocupa o centro do disco e todos os outros arranjos pensados a partir dela. “Mas cada músico trouxe suas referências, influências e cultura. Foi proposital que não tivesse uma identidade. Fizemos música do mundo”, explica.

O enfrentamento político e a afirmação estética da cultura negra brasileira estão presentes, de diferentes maneiras, nas 11 faixas. Na composição que dá nome ao disco, ela diz: “Cada rua dessa cidade cinza sou eu. Olhares brancos me fitam. Há perigo nas esquinas. E eu falo mais de três línguas”.

Em Banho de Folhas a religiosidade afro é o cerne da letra. “Oxalá quem guia, Oxalá quem te mandou… Nenhuma resposta, mas um punhado de folhas sagradas pra me curar, pra me afastar de todo mal. Para-raio, bete branca, assa peixe. Abre caminho, patchuli.”

“Eu sempre estudei em escola particular, nessa época, fui habitada por muito silêncio e solidão, e minhas primeiras composições se voltavam a minhas experiências pessoais. Assim que cheguei a São Paulo entrei em contato com outras dinâmicas de racismo, amadureci e comecei a olhar mais para o outro. A música fala de muitos corpos, assim como esses corpos falam de mim”, considera.

Surpresa com a boa recepção do disco, Luna conta estar em ritmo intenso de composição e produção de novas canções. “Eu sei que Corpo ainda tem um caminho longo pela frente, mas tô escrevendo muito atualmente, fazendo muita música em parceria para um novo trabalho”. “Já existe um desenho de como será, um tema, mas pretendo repetir o processo criterioso da primeira vez”, completa.

Confira a playlist completa: