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Wilson Bebel, brasiliense radicado no Rio de Janeiro, prepara-se para o pré-lançamento do seu primeiro álbum nesta quinta-feira (1º/2) em todas as principais plataformas de streaming. Apesar de já ter composto 500 canções em seus 20 anos de carreira, o artista deixa o romantismo de lado em seu novo disco, Demorô, e debate questões raciais e diferenças de classe.

O novo projeto engloba diversos gêneros musicais: do hip-hop ao rock, do dub ao samba. O cantor compôs a maioria das 11 faixas do CD durante as manifestações de 2013 no Rio de Janeiro – atuando em parceria com os sambistas cariocas Eduardo Familião e Pipa Vieira. Demorô marca nova fase de sua vida, retratando o (re)encontro com sua identidade negra.

“Foi no Rio onde entendi minha vivência de Brasília. Entrei em contato com a pessoa que eu nunca tinha encontrado aqui: eu mesmo. Demorô conversa com o povo do morro, da favela, mas também com quem está no poder, nos representando”, argumenta.

Divulgação

A capa do CD Demorô de Be Bel – nome artístico de Wilson Bebel

 

Em entrevista ao Metrópoles, Be Bel conta que a questão da identidade foi o coração do disco. “Fui adotado por uma família negra e cristã. Por muito tempo, vivi com eles em Brasília e cresci no meio de uma sociedade capaz de embranquecer todas as coisas. A música de classe média-alta passa pelo choro, jazz e todos esses [gêneros caracteristicamente negros]. Já no Rio, em 2007, me deparei com outra realidade”.

Em sua infância, Be Bel acreditava sofrer privações por questões econômicas, não raciais. Neste álbum, o artista propôs, por meio dos acordes e das melodias, uma conversa com sua realidade e a de outras pessoas.

Bruno Pinheiro/Reprodução do Facebook

“Eu sinto isso sobre todo o processo de existência: na igreja, na escola, ao andar de ônibus. O que aconteceu quando cheguei no Rio foi que tudo se conectou em uma simbiose com as manifestações e as mudanças da minha vida. Essa combinação resultou no álbum”, diz Be Bel

 

Além da “descoberta” de sua identidade racial, Be Bel discute as manifestações de 2013. O artista testemunhou vários acontecimentos importantes nas ruas, no morro e em frente à casa do ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral (MDB).

“A canção Que Porra é Essa (Amarildo) fala sobre a situação do Amarildo no Vidigal, quando o morro desceu e foi para a frente da casa do governador Sérgio Cabral. Eu estava lá e eles gritavam ‘que porra é essa?’. A música descreve esse momento”, antecipa.

Em relação ao novo tom de sua musicalidade, Bebel busca uma poesia mais urbana, que comunica com a galera do hip-hop, do pagode e do samba.