Profissão de escritor nunca foi tão necessária, diz Jéferson Assumção
Qual o futuro do texto, da escrita, dos escritores e narradores em um mundo de narrativa fragmentada e efêmera das redes sociais? Na comunicação onde valoriza-se mais a imagem que a palavra. Para o escritor e professor Jéferson Assumção, a resposta é otimista. “Nunca se precisou tanto de storytellers (contadores de histórias)”. A questão é […]
atualizado
Compartilhar notícia

Qual o futuro do texto, da escrita, dos escritores e narradores em um mundo de narrativa fragmentada e efêmera das redes sociais? Na comunicação onde valoriza-se mais a imagem que a palavra. Para o escritor e professor Jéferson Assumção, a resposta é otimista. “Nunca se precisou tanto de storytellers (contadores de histórias)”.
A questão é que o escritor não precisa mais do livro. “Isso remete ao século passado”. Seja para videogames, seja para comandar campanhas presidenciais, a figura do narrador é imprescindível. A melhor notícia é: qualquer um pode aprender a fazer isso.
Com mais de 20 livros publicados, o gaúcho Jeferson Assumção é pós doutorando na Universidade de Brasília (UnB) e doutor em filosofia pela Universidade de Leon (Espanha). Esta semana ele ministra em Brasília o curso de escrita criativa.
O Brasil nunca venceu um Nobel da Literatura. E não temos muitas escolas sobre como escrever, ao contrário de outros países. Nos Estados Unidos, há cursos para se formar escritor há mais de 100 anos. Como estamos nessa cena da literatura?
O fato de não ganhar o Nobel não chega a ser preocupante. Na América do Sul, ganharam Peru, Colômbia e Chile, mas a Argentina, que considero a melhor literatura do continente, nunca ganhou. Quantos aos cursos de escrita criativa, podemos comemorar que este ano inicia o primeiro curso de graduação do Brasil para formar escritores! Ele acontece na PUC-RS. O Rio Grande do Sul tem uma tradição na escrita e no ensino, por meio dos cursos de Luiz Antônio Assis Brasil (escritor, ensaísta, professor universitário), que formou escritores da lavra de Daniel Galera, Michel Laub, Paulo Scott, Cíntia Moscovitch. E o cenário vem mudando lá fora. Antigamente, você chegava no exterior, dizia que era escritor, e o sujeito até segurava o riso. O Brasil era conhecido como exótico, país de pessoas que não liam ou escreviam. Isso vem mudando, recentemente fomos homenageados na Feira de Frankfurt, no Salão de Paris. Há escritores brasileiros, como Bernardo Carvalho e o próprio Galera, presentes em 10, 12 países.
É possível aprender a ser escritor. Há um senso comum que se trata apenas de um talento. Afinal o que é escrita criativa?
A escrita criativa é a dimensão técnica do ato de escrever. Não é a perspectiva histórica, crítica ou teórica, mas técnica. Pode aprender sozinho? Pode, se for um gênio, mas leva mais tempo. Existe todo um manancial de informações, já estruturado por grandes escritores e teóricos, como Henry James, Anton Tchekov, Jorge Luís Borges, Julio Cortázar, Edgar Allan Poe. Por que não usar o que já se sabe? Um músico, para tocar, precisa aprender a técnica, não basta a inspiração, um guitarrista precisa ser ensinado a fazer um arpejo.
Há preconceito, especialmente no Brasil, de que o escritor é um iluminado, que “aprender”escrita criativa seria impossível?
Sim, claro, há um preconceito, como se escrever fosse um dom, coisa de artista. Mas é preciso técnica, expressão e criatividade. Sem um desses elementos, não fica bom. Estava lendo um livro “How Not to Write a Novel” (“Como Não Escrever um Romance”), onde os autores (Sandra Newman e Howard Mittelmark) dizem que a principal função do escritor é fazer o leitor virar a página e continuar lendo. É por aí.
As formas de comunicação estão mudando muito rapidamente com a tecnologia. Jornais fechando, pouco espaço para textos longos. Como isso influencia? Ainda há espaço para os grandes narradores?
Sim, na verdade penso o contrário. Cada vez mais precisamos de narradores. Hegel (filósofo alemão) tem uma frase: “O sapateiro faz o sapato. E o sapato faz o sapateiro”. É uma mentalidade do século passado, que ainda persiste. Mas vai mudar. O escritor faz o livro, mas o livro faz o escritor hoje em dia? O storytelling nunca esteve tão em alta. A campanha do Obama foi toda baseada nisso, no personagem. Vale o mesmo para filmes, quadrinhos. Para fazer um jogo de videogame, você precisa de um narrador, escritor, para criar personagens. Esse sujeito pode usar a técnica que o genial Guy de Maupassant usava para criar os seus. Está tudo aí.Hoje tudo se tornou informal e diluído, no Twitter, Facebook. Mas não se engane, ainda é preciso juntar esses pontos desconexos. Precisamos do narrador, que aprofunda e sintetiza.
Existe idade para virar escritor?
O livro é a porta de entrada para o mundo. Para escrever, o sujeito precisar alcançar uma certa maturidade, ter um olhar. Mas, para alguns gênios, isso vem logo aos 20 e poucos anos. Em outros casos, como o do grande Julio Cortázar, veio depois dos 40. Não há idade, o sujeito pode ter 80 anos, uma relevante visão de mundo e despertar para a literatura de ficção. Pode ser um médico, advogado, jornalista, qualquer um pode.
Escrita Criativa — Criatividade, Técnica e Expressão
Curso com o professor Jéferson Assumção. De 16/5 a 25/5 (segundas, terças e quartas, das 19h às 22h). No Espaço Cult (215 Sul, Bloco B, Loja 3, Informações pelos telefones 3321-6665 e 9961-2534.
